O homem e a mancha

O homem e a mancha

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Clube do fracasso

Estando em temporada por um período tão longo (10 semanas), fica difícil acompanhar o grande número de excelentes espetáculos que estrearam ou estão por estrear neste último trimestre de 2010. Só consigo conferir os trabalhos dos colegas que fazem temporadas durante a semana (de segunda a quinta), quando não estou em cena com A LIÇÃO, no Teatro de Arena. Semana passada, fui ao ensaio aberto da UTA, na quinta-feira, ver 5 tempos para a morte, e por sorte, a Cia. Rústica programou uma sessão extra de Clube do fracasso para segunda-feira, 1º de novembro, o que me permitiu conferir mais um trabalho desse grupo tão importante do nosso teatro.
Conversando com a Patrícia Fagundes, ela comentava que o momento atual de Porto Alegre é histórico, pelo grande número de espetáculos de grupos e artistas importantes na cena teatral gaúcha que estão em cartaz ao mesmo tempo. Concordo plenamente com ela, e espero que isso se torne comum nos próximos anos: artistas qualificados produzindo intensamente.
No aconchegante espaço do Estudionave desenvolve-se o espetáculo que assisti, mas que também pode ser chamado de algumas outras coisas, quase que à escolha do espectador. Não é só uma peça de teatro, na acepção mais clássica da expressão. É também arte performativa, é também um divertissement, é também um show de variedades. Não se conta uma história aristotelicamente falando, contam-se histórias: pessoais, alheias, inventadas talvez. O que conduz e une essas diferentes e multifacetadas micro narrativas é a noção de fracasso e de sucesso, como antagonistas (em alguns momentos) e como faces diferentes da mesma coisa (em outras ocasiões).
O interesse despertado pela forma como se acumulam essas experiências de fracasso se mantém quase que inteiramente no trabalho dos atores, que assumem uma posição de mestres de cerimônias de suas próprias frustrações. Na maior parte do tempo com bom humor, debochando das imperfeições, e em poucos momentos deixando-se abalar pelo que não dá certo. Uma visão otimista de mundo, apesar dos pesares. Está evidente que o elenco (Francisco de los Santos, Heinz Limaverde, Lisandro Bellotto, Marina Mendo e Priscilla Colombi) mergulhou de cabeça na proposta da Patrícia, aceitando expor algumas feridas "na boa". Essa parece ser a característica mais admirável da Cia. Rústica: a forma como os espetáculos dirigidos pela Patrícia são eletrizantes, carregados de um envolvimento e de uma crença de sucesso muito positivos, mesmo quando falam de fracassos. Talvez por ter dado uma outra direção para sua pesquisa, a Cia. Rústica (que já mostrava nos seus trabalhos anteriores como Sonho de uma noite de verão, Pandolfo no reino da Bestolândia e A megera domada, e com maior eficácia, uma ideia do clima festivo que se escancara neste novo espetáculo) ainda esteja à procura da melhor forma de concretizá-la. Eu aqui torço pelos próximos resultados (21 maneiras de encarar a morte e Caóticas), admirando este Clube do fracasso.

2 comentários:

  1. Bacana seu comentário e olhar sobre a peça fracassada! Estou curioso para assistir "A Lição", pois acho o texto extraordinário e delicioso. Abraços.
    Diego Ferreira.
    www.escapeteatro.blogspot.com

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  2. Interessante o seu comentário. Agora, belissimo mesmo é o seu blog. Gostei muito. Mas estou aqui para lhe convidar a visitar o meu blog, e se possivel seguirmos juntos por eles Estarei grato esperando vc lá
    www.josemariacostaescreveu.blogspot.com

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