O homem e a mancha

O homem e a mancha

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Casamento silencioso

Co-produção entre Romênia, Luxemburgo e França, Casamento silencioso (Nunta muta, 2008) é falado em romeno e tem sua ação concentrada, predominantemente, em 1953, naquele país do leste europeu, nos dias que antecedem à morte do ditador comunista Josef Stálin, e no dia seguinte à sua morte. Durante várias décadas, após a Segunda Guerra Mundial, o planeta se dividiu entre países comunistas e capitalistas. Os comunistas, capitaneados pela poderosa União Soviética, criaram a famosa Cortina de Ferro, que isolava os países do leste europeu das ameaças do capitalismo, liderado pelos Estados Unidos. Aqueles países que seguiram as orientações comunistas (Romênia, Tchecoslováquia, Alemanha Oriental, etc.) deveriam obedecer aos líderes do Partido Comunista. Stálin, um dos maiores assassinos da História, passava por cima de quaisquer direitos humanos em nome do isolamento dos estados comunistas. A história do filme dirigido por Horatiu Malaele é simples: um casamento entre dois jovens moradores de uma pequena vila romena é marcado para o dia seguinte à morte de Stálin. O luto oficial internacional de 7 dias impediria a realização da cerimônia, sob pena de punições terríveis. Os alegres e barulhentos convidados do casamento resolvem burlar a proibição, realizando a festa de casamento totalmente em silêncio. A longa cena da comemoração à volta de uma mesa coberta de comidas e bebidas, em silêncio quase absoluto, é antológica. As referências à proibição de manifestações, à censura e à ditadura são inteligentíssimas. É uma cena incrivelmente engraçada, de rir às gargalhadas. O Brasil, que viveu um longo período de ditadura, também identifica-se naquelas imagens e ações. O filme tem um tom predominantemente cômico, com pitadas fantásticas (lembrando os filmes do sérvio Emir Kusturica, especialmente Underground- Mentiras de guerra), mas há momentos de grande comoção: aqueles que mostram a barbárie do exército russo. Um filme de uma cinematografia pouco conhecida no Brasil, que merece ser visto. A propósito: outros filmes romenos que apareceram por aqui nos últimos tempos, também excelentes: A leste de Bucareste (Prêmio Camera d'Or para melhor cineasta estreante no Festival de Cannes 2005) e 4 meses, 3 semanas e 2 dias (Palma de Ouro no Festival de Cannes 2007).

domingo, 27 de setembro de 2009

As bufa


O espetáculo As bufa, com as excelentes Simone de Dordi e Aline Marques, foi uma boa surpresa. As duas atrizes receberam o Prêmio Açorianos de Atriz Revelação, na última entrega dos troféus. Dirigida por Tatiana Cardoso, a peça traz à cena duas bufonas que ocupam um teatro e inventam jogos e encenações, onde criticam, literalmente, Deus e todo o mundo. As bufa não fica a dever em qualidade ao sucesso Gueto bufo, com Daniela Carmona e Cláudia Sachs, que desde 1999 encanta nossas plateias. Surgem em Porto Alegre, indubitavelmente, duas atrizes cheias de recursos e muito bem encaminhadas. Simone de Dordi (à esquerda, na foto), já recebeu o Prêmio Tibicuera de Melhor Atriz em 2006, por A canção de Assis, e atualmente está em cartaz com Herlói, o herói, do Cuidado que Mancha (que também tem no elenco Vinícius Petry e Luciane Olendzki) com direção de Raquel Grabauska.

sábado, 26 de setembro de 2009

Ano novo, vida nova

Em 2001 e 2002, o espetáculo Ano novo, vida nova, dirigido por Decio Antunes, cumpriu algumas temporadas em Porto Alegre, com enorme sucesso de público. Nas quatro temporadas que fizemos do espetáculo, não raro lotávamos o Teatro Renascença ou o São Pedro. O elenco era realmente de primeira: Carlos Cunha Filho, Deborah Finocchiaro, Elaine Regina, Evandro Soldatelli, Geórgia Reck, Jeffersonn Silveira, Lurdes Eloy, Marcelo Ádams e Naiara Harry. Uma cenografia bacaníssima do Félix Bressan (com pedaços de móveis pendurados e distorcidos/retorcidos) e os figurinos de Alexandre Magalhães e Silva davam um tempero especial ao texto de Vera Karam. Aliás, com esse texto, Vera Karam foi a vencedora do Concurso de Dramaturgia Qorpo Santo. Na foto aí de cima, Geórgia Reck, Deborah Finnochiaro, Naiara Harry e Lurdes Eloy "secando" o tango dançado por mim e Evandro Soldatelli, nesta que é a cena mais antológica do espetáculo, quase sempre aplaudida em cena aberta. Trago à memória esta montagem para adiantar que, de 19 a 22 de outubro, haverá uma homenagem aos 50 anos de nascimento de Vera Karam, falecida em 2003. A promoção é da Coordenação de Artes Cênicas da PMPA, e foi uma sugestão minha abraçada com muito carinho pelo Breno Ketzer, pela Lurdes Eloy e pela Laura Backes. Mais adiante divulgarei em detalhes a movimentada programação da homenagem, que tem como título Vera Karam: uma paixão no palco.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Uma noite especial



Acabei de chegar do Teatro do SESI, onde assisti à montagem dirigida por Bob Wilson do texto de Heiner Müller, Quartett. Ter Wilson em Porto Alegre é algo histórico. Ele é um dos diretores mais importantes da história do teatro, reconhecido por suas inovações na linguagem do teatro contemporâneo. Desde os anos 1970, quando criava espetáculos-evento que podiam durar dias, ou em obras que redefiniam o que seria a duração "adequada" de uma peça, Wilson é uma referência indispensável. Suas parcerias com o compositor Philip Glass (por exemplo, Einstein on the beach, de 1976) deram uma nova acepção para a junção entre teatro e música. A experimentação de Wilson estava ao nosso alcance, com todas aquelas informações que lemos em livros, à nossa frente.
Quartett é um espetáculo fragmentado, assim como a obra de Heiner Müller. Nesse sentido, não poderia ser mais fiel ao autor. As pausas, as cenas sem texto, a beleza plástica impressionante de suas imagens: tudo estava lá, como esperado. A iluminação do espetáculo, criada pelo próprio Wilson, é atordoante, é inacreditável. Wilson é perfeito nessa difícil arte.
Outra grande satisfação foi ver Isabelle Huppert. Acostumado a vê-la no cinema, foi fascinante vê-la ao vivo, absolutamente entregue à concepção do encenador. Absolutamente disponível para, inclusive, interpretar um sapo (ou qualquer que seja aquele animal).
Ao final do espetáculo, eu e alguns outros sortudos, tivemos a oportunidade de ver Isabelle Huppert fora de sua personagem, pertinho de nós. Uma espécie de coquetel foi oferecido, com a presença de Huppert. Com a maior expectativa aproximei-me dela, apertei sua mão, e fiquei por 15 minutos ouvindo sua voz, que respondia às perguntas de Luciano Alabarse, em clima totalmente informal. Fiquei admirando sua simplicidade: um tênis All Star vermelho, uma calça jeans, uma blusa de lã decotada e um cachecol protegendo a garganta. A pele, muito sardenta, totalmente sem maquiagem, exceto um batom vermelho-escuro muito intenso.
Os olhos de Huppert raramente fitavam os olhos dos que a cercavam. Ela permanecia com um sorriso ameno no rosto, mas com o olhar ao longe. Delicada, educada. Após milhares de experiências como essa, estar em eventos públicos já a deixou vacinada: a intimidade que ela aparentava era calculada, porém doce.
Foi uma noite memorável. Isabelle Huppert é uma atriz brilhante em cinema. Filmes como Oito mulheres e A professora de piano são clássicos modernos. Foi um privilégio estar junto a ela.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Braskem em cena


Após a cerimônia de premiação do 4º Prêmio Braskem em cena, foi oferecido um coquetel no anexo ao lado do teatro. Na foto, clicada pelo Rodrigo Fiatt, eu, Adriane Mottola, Cláudia de Bem, Inês Marocco e Rodrigo Monteiro.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Choderlos de Laclos por Heiner Müller


Finalizando a série de fotos de nossa montagem do Quartett, que Heiner Müller escreveu em 1981, adaptando e relendo o romance epistolar As relações perigosas, escrito pelo francês Choderlos de Laclos em 1782.

O dragão


A montagem do Amok Teatro, grupo carioca dirigido por Ana Teixeira, tem como protagonista o ator Stephane Brodt. Interpretando um palestino e um judeu, Brodt dá um show de técnica e emoção. A temática da beligerância entre palestinos e israelenses tem me interessado bastante, e um dos próximos projetos da Cia. de Teatro ao Quadrado terá esse conflito como base. Sobre a encenação do Amok, resta dizer que é muito bela e eficiente em sua denúncia do insano combate, que se arrasta há anos. A música executada ao vivo é quase sempre oportuna (exceto quando sublinha demais a ação, o que acontece algumas vezes). No entanto, a alta voltagem emocional alcançada pelos depoimentos de palestinos e israelenses, encarnados pelos atores, garante momentos de verdadeira comoção. Era possível ouvir a plateia fungando, emocionada pelas descrições das atrocidades. Do Amok guardo boas lembranças, principalmente por uma linda versão de Macbeth, totalmente orientalizada, originalíssima em sua plasticidade. Um grupo muito sério, que pesquisa a fundo para seus espetáculos. Fiquei ainda mais fã.

domingo, 20 de setembro de 2009

Rainhas[(s)]- Duas atrizes em busca de um coração


Georgette Fadel e Isabel Teixeira interpretam, respectivamente, as rainhas Elizabeth e Maria Stuart, no espetáculo dirigido por Cibele Forjaz. A partir da ideia concebida pelo dramaturgo alemão Friedrich Schiller, que no ano de 1800 escreveu a peça Maria Stuart, a dramaturgia, criada pelas atrizes em conjunto com a diretora, mistura esse encontro fictício entre as duas postulantes à coroa inglesa, no século XVI, e as agruras e particularidades da profissão de atriz.
Essa desconstrução de textos clássicos naõ é novidade em teatro. Aqui mesmo, em Porto Alegre, já tivemos a oportunidade de assistir às demolições de textos como Um bonde chamado desejo, de Tennessee Williams (chamada Endstation Amerika, do diretor alemão Frank Castorf), Gaivota- Tema para um conto curto e Ensaio.Hamlet (ambos da Cia. dos Atores, em versões para textos de Anton Tchekhov e William Shakespeare).
Em Rainhas[(s)] novamente há essa desconstrução, com um resultado por vezes irregular, mas que ganha seus melhores momentos justamente quando deixa-se de lado a obra de Schiller e investe-se na dramaturgia construída pelas atrizes e diretora: fala-se da vida dos atores e de suas dificuldades. Georgette Fadel é uma atriz singular: é inesquecível a Joana que construiu para Gota d'água, apresentada em Porto Alegre há poucos anos. Isabel Teixeira também é excelente (e me lembrou a nossa Sandra Loureiro, fisicamente, especialmente pelos lindos olhos). O jogo entre as duas funciona muito bem, e é muito bem ver duas grandes atrizes duelando. Um belo espetáculo.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O nosso Quartett


Mais fotos da montagem de Quartett de 1999: eu e Lúcia Bendati.

La madre impalpable

Jorgelina Aruzzi é autora, diretora, figurinista, cenógrafa, produtora e protagonista do espetáculo argentino La madre impalpable, segundo informa o programa da peça. Ela é uma mulher de teatro completa, é o que se pôde perceber assistindo à sua brilhante performance. Além de dominar várias funções técnicas, domina totalmente seus meios de expressão: a voz/corpo. E ainda mais, faz isso com um senso de humor e um timing de comédia perfeitos. Ela é muito engraçada, muito engraçada, e consegue extrair o riso de uma velha situação, exemplificada pela mítica mãe judia, que cobre seu filho de cuidados. No caso da peça argentina, não se trata de uma mãe judia, mas poderia ser, perfeitamente. O humor ácido, negro, sardônico, é delicioso. Como já escrevi, em 2010 estreará minha nova direção, Mães & sogras, texto de Leandro Sarmatz, onde a relação entre uma mãe judia e seu filho (que nunca aparece) é a tônica. Assistir a La madre impalpable me fez renovar a certeza de que a relação mãe-filho pode ser hilariante.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O silêncio dos amantes

Se você é daquelas pessoas que se chateiam com aquele tipo de telefilme norte-americano que inunda as Sessões da tarde ou os Corujões, tendo como base a luta de personagens contra doenças terminais, ou querendo resgatar o amor de seus filhos, muitas vezes "baseados em histórias reais" e estrelados por obscuros atores yankees, não vai gostar de O silêncio dos amantes. Moacyr Goés faz de tudo para levar às lágrimas os espectadores, valendo-se de uma melancólica música de piano e figurinos que identificam os personagens com anjos caídos (com asas e tudo). Além disso, baseados em textos de Lya Luft que falam sobre perdas (mortes) de pessoas amadas, os quatro monólogos que compõem o espetáculo resvalam no piegas, algumas vezes. Isso não é de se espantar, já que Moacyr Góes, em suas recentes incursões como diretor de cinema, nos brindou com filmes tenebrosos como Xuxinha e Guto contra os monstros do espaço, Xuxa e o tesouro da cidade perdida e Xuxa abracadabra. Por aí se vê que nem sempre Góes se preocupa com o que possam dizer dele, desde que encha os bolsos de dinheiro.
Dito isso, é preciso destacar que o primeiro e o último desses quatro monólogos, interpretados por atores mais capacitados, conseguem atingir o espectador em sua sensibilidade, especialmente aquele que é o relato de um anão e suas dificuldades de adaptação na sociedade e na família. Não consegui entender, por mais que me esforçasse, qual é a relação entre anjos, personagens da commedia dell'arte e tragédias familiares. Uma salada de frutas que, de fato, agradou à plateia do dia em que assisti à peça, mas que me soou como um tiroteio pra tudo quanto é lado, claro que sempre mirando na lágrima alheia.
O cenário é muito bonito, criativo, e, se não é tão bem utilizado, pelo menos é original.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Medida por medida

Novamente dois espetáculos nesta noite: os cariocas Medida por medida e O silêncio dos amantes. O primeiro, texto de William Shakespeare dirigido por Gilberto Gawronski. O segundo, adaptação do livro homônimo de Lya Luft. Em ambos os casos, gaúchos envolvidos na produção (Gawronski e Lya). No próximo post falarei de O silêncio dos amantes.
O texto de 1604 adaptado por Gawronski é uma das consideradas "peças-problema" do autor inglês. Por que essa denominação? Porque os críticos, ao analisar essas obras de Shakespeare, encontraram dificuldades em encaixá-las em alguma denominação (como tragédia, comédia e drama histórico, categorias às quais pertencem as outras 30 e tantas peças do bardo). São consideradas peças-problema, além da que trata este texto, O mercador de Veneza, Tróilo e CréssidaBem está o que bem acaba. Nessas peças citadas há uma indefinição muito grande em relação ao efeito que Shakespeare desejava alcançar junto aos espectadores. Se, por um lado, o teatro elizabetano notabiliza-se por uma mistura provocadora entre tragédia e comédia (as célebres cenas cômicas dentro das tragédias shakespereanas demonstram isso: em Hamlet, Macbeth, Rei Lear, etc.), nas peças-problema esse ingrediente que apenas salpicava as grandes tragédias lambuza essas pseudo-comédias. O mercador de Veneza, chamada de comédia, tem muito pouco do que se rir, por exemplo. Medida por medida, da mesma forma classificada como comédia, tem uma trama que envolve condenação à morte, que dificilmente leva ao sorriso, quiçá ao riso, em sua leitura. A montagem de Gawronski para essa peça-problema é, também, um problema. A opção por caracterizar toda a encenação como um show de drag queens é bastante questionável. Com o pretexto de reproduzir o que ocorria no século XVII, quando as mulheres não tinham permissão para subir ao palco, cabendo aos jovens rapazes a função de interpretarem personagens femininas, o diretor coloca apenas homens em cena. E isso vira, usando uma expressão bem direta, uma bichice. Os homens são afetados, ou, se não, usam roupas que caracterizam a imagética gay. Roupas de couro, acessórios sado-masoquistas, trejeitos, tudo conduz a peça para um beco sem saída. A estética dos elementos do espetáculo é também kitsch, de boate, se quiserem. A transformação do texto em uma paródia para efeitos e músicas da Madonna é quase lamentável. É o tipo de peça qua surge como uma ideia "genial": "Olha só, e se a gente fizesse Medida por medida como se fosse uma peça gay? Não ia ser legal?!". Não quero passar a impressão de conservadorismo, acho que vale tudo em teatro, mas não acho que a abordagem de um texto clássico tenha que ser sempre inovadora e original. Essa vontade de surpreender não passa, muitas vezes, de insegurança. Os figurinos são muito bons.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

A mulher que escreveu a Bíblia e Ato

A mulher que escreveu a Bíblia, espetáculo-solo adaptado do romance homônimo de Moacyr Scliar, foi dirigido pelo gaúcho Guilherme Piva. A atriz Inez Viana encarna aquela que teria sido a 700ª esposa do lendário rei Salomão, marcada por uma feiúra indescritível. Por esse motivo, foi designada pelo seu marido para escreveu um livro que relataria a história dos hebreus - a Bíblia. Com esse mote, a atriz nos apresenta um desempenho fantástico, com uma variedade imensa de recursos corporais e vocais, e um uso delicioso do humor para contar essa história. Inez Viana me lembrou, em muitos momentos, a nossa querida Deborah Finnochiaro, pela irreverência e despudor cênico. Na entrada do Teatro do SESC, onde o espetáculo se apresentou, um banner reproduzia a crítica de Macksen Luiz, cujo título era "O espetáculo vale pela atriz", e isso é absolutamente verdadeiro. É a atriz que dá vida, em todos os sentidos, à trama de Scliar. Sem desmerecer o restante dos elementos do espetáculo, é indiscutível que sem a protagonista adequada a peça não teria o mesmo sucesso e alcance. E isso acontece, guiado pela ótima adaptação para a cena a cargo de Thereza Falcão.
Ato, espetáculo pernambucano que utiliza a linguagem do clown, já não é tão feliz em sua resolução. Com influências e citações de Esperando Godot, de Samuel Beckett, além das tradicionais gags do gênero, a peça não me "pegou", talvez pela falta de uma dramaturgia mais consistente, talvez pela ingenuidade no tratamento do clown (e isso não é uma contradição, pois ingenuidade do clown não é sinônimo de simplismo). Os atores, alguns mais consistentes, outros nem tanto (especialmente aquele que passa o tempo todo no alto de uma escada), estão imbuídos de "vontade", mas isso não é o suficiente. Talvez o mais sentido seja a falta de uma direção mais segura, mais objetiva em sua "clownice".
Tenho assistido a vários espetáculos de clown, e na maioria das vezes eles não me pegam, e o mesmo aconteceu desta vez. Em maio deste ano os atores do Lume estiveram em Porto Alegre apresentando alguns espetáculos desse gênero, e aí sim pude me deleitar com o verdadeiro humor do palhaço. É uma técnica difícil, e por isso é tão bom quando se vê algo que se destaca desse mar.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Quartett gaúcho


Em tempos de espera pelo Quartett de Bob Wilson, posto aqui algumas fotos da montagem que eu e a Lúcia Bendati fizemos desse texto em 1999, e que ela me mandou. As imagens foram clicadas pela Myra Gonçalves.
Essa foto P&B parece daqueles filmes do Jim Jarmusch, tipo Estranhos no paraíso ou Daunbailó, ou qualquer um que tenha o Tom Waits como ator (exceto o Drácula do Coppola).

A voz do corpo e o corpo da voz

Tenho assistido a dois espetáculos por noite, durante o Porto Alegre em Cena. Neste domingo, tive novamente a felicidade de assistir a dois trabalhos fabulosos: Crépuscule des océans e The Voca people. Em suas especificidades, são, em minha opinião, duas obras brilhantes. O primeiro, espetáculo de dança do Canadá, encanta pelo rigor absoluto no movimento dos bailarinos. O grupo de oito canadenses - seis homens e duas mulheres - leva aos extremos as possibilidades plásticas de seus corpos. Muitas vezes dançando nus, as formas perfeitas de seus corpos, musculosos, delineados, faziam lembrar a estatuária grega, onde o senso de equilíbrio e proporção das formas era a regra. Após o espetáculo, ouvi o comentário de um espectador de que tudo aquilo fôra criado sem um pingo de teatralidade, ou seja, que os movimentos dos bailarinos eram apenas externalizações de força. Perguntei para mim mesmo o que ele quis dizer com teatralidade, o que é exatamente isso. Teatralidade, palavra meio abstrata, meio subjetiva. Nas coreografias de Crépuscule des océans absorvi uma profunda teatralidade, não superficial (ou se quiserem, evidente), mas uma teatralidade da forma. Os corpos executavam movimentos repetitivos, que se repetiam também ao longo da encenação. Com expressões faciais totalmente neutras, no entanto com corpos expressivos até o último músculo. Pequenas ligações e pontes foram sendo construídas, e depois de algum tempo era possível identificar micro-dramas em cada um dos duetos ou tercetos. Lindo, algumas vezes emocionante até às lágrimas. Coisas simples, como relações entre homem e mulher. Os corpos falavam, com seu suor, com suas respirações ofegantes, tudo ao som de Beethoven. Quem foi ao Teatro Renascença ouviu a voz do corpo.
The Voca people pode ser chamado de "o corpo da voz", tal a riqueza das tessituras vocais daqueles oito israelenses. Somente com o uso de suas vozes, sem qualquer instrumento musical, construíam uma miríade de sons (inclusive o famoso beat box, em que o performer executa sons de toda a espécie com a própria voz). Que importa se o repertório é formado por trilhas sonoras de blockbusters, canções pop de Madonna a Queen? É apaixonante admirar a técnica perfeita daqueles cantores, que até se aventuram a brincar de atores, em alguns momentos, investindo num humor que aproxima muito o público. O que me emociona, nesse caso, é a capacidade do artista de transcender, de criar o inesperado, de atingir o sublime. Os israelenses conseguiram isso com seu espetáculo. A voz daqueles cantores se materializava, ganhava corpo e nos invadia com sua performance.
Canadenses e israelenses nos brindaram com o que de melhor há na dança e na performance vocal. Este tem sido um festival muito gratificante.

sábado, 12 de setembro de 2009

Dois solos



Assisti, na mesma noite, a dois espetáculos-solo. Primeiro, A noite do barqueiro, texto e direção de Samir Yazbek. Depois, La douleur, direção de Patrice Chéreau para a adaptação de um texto de Marguerite Duras. Dois espetáculos tão diferentes um do outro que parece até que foram feitos para exemplificar o que seria o contrário de algo. Deixe-me explicar melhor: as duas concepções são tão absolutamente opostas, que podem ser comparadas formalmente. A noite do barqueiro, que dura menos da metade que La douleur, parece ter o dobro de duração. Por que tive essa impressão? Porque Yazbek preenche os 40 minutos de seu espetáculo com um número tão grande de elementos que me senti saturado de informações. Exemplos: trilha sonora que vai de grandiosa a mística; iluminação que vai do grandiloquente ao poético; figurino que beira o barroco; cenografia (e aqui faço uso da expressão de Roberto Oliveira, que a classificou como prêt-à-porter, porque é tanta coisa ao mesmo tempo que acaba não sendo nenhuma coisa). E, finalmente (but not for least), a atuação de Hélio Cícero. Pena que ele não atinge seu melhor momento, como na montagem que assisti, há alguns anos, no próprio Porto Alegre em Cena, de Toda nudez será castigada, dirigida pela Cibele Forjaz. Naquela versão, Leona Cavalli fazia uma magnífica Geni, e Cícero, um maravilhoso Herculano. Em A noite do barqueiro (que na noite em que assisti tinha a presença ilustre da atriz Xuxa Lopes, atriz-musa de Ana Carolina - a cineasta, não a cantora), o ator que conduz toda a narrativa está, em uma palavra, over. Percebo claramente, no brilho do olho dele, o envolvimento profundo e a crença em seu trabalho. Mas, infelizmente, isso não é o suficiente para tirá-lo de um registro de ator-musa, aquele ator que sabe que tem boa técnica e "longos serviços prestados ao teatro", mas que escorrega também, como qualquer um. Uma empostação ao dizer o texto, uma musicalidade que se repetia em excesso, isso me afastou do espetáculo. Outro problema, esse do autor-diretor, é o da indefinição de sobre o que exatamente trata a peça. Uma espécie de viagem interior, misturada com um limbo, com uns laivos metafísicos...Apesar de a peça ser curta, eu torcia para que acabasse logo, e uma palavra me vinha à mente: mico.
Já o espetáculo protagonizado por Dominique Blanc é o extremo oposto. Utilizando a caixa do teatro totalmente descarnada, inclusive com o aproveitamento das janelas do próprio Theatro São Pedro, visíveis ao público, a peça é calcada quase que exclusivamente na elocução de um texto por uma atriz. E é lindo. A descrição que Blanc faz do estado em que seu marido volta de um campo de concentração nazista, animalizado, pesando 38 quilos, à beira da morte, é chocante. Escatológica, a palavra "merda" é utilizada dezenas de vezes, para metaforizar toda a terrível situação. Com apenas nove cadeiras, uma mesa, um prato e esses objetos que podem ser vistos na foto aí de cima, Dominique Blanc impressiona pelo domínio da plateia, pelo domínio do texto, pela contenção e força. Nenhuma mudança de luz em mais de 90 minutos, exceto um fade in e um fade out, que iniciam e encerram o espetáculo; nenhuma trilha sonora, absolutamente apenas a voz e as imagens criadas pela atriz. Roberto Oliveira (desculpe citá-lo de novo, mas é preciso) chama isso de teatro essencial. E é. Essencial como sinônimo de tudo em seu devido lugar. Não é simples fazer algo assim, é terrivelmente complexo e corajoso.
Yazbek e Chéreau trilharam caminhos diferentes e atingiram níveis diferentes de teatro. Entre o excesso e o essencial, nem sempre escolho o essencial (me lembro agora de Big in Bombay, de Constanza Macras, espetáculo de dança deliciosamente excessivo e caótico). Mas hoje me rendi à essência (no) do teatro.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Programa de "Un dios salvaje" uruguaio

Está aí o programa da peça, que scaneei. Observação 1: o cara da direita parece o Dan Stulbach. Observação 2: no dia em que assisti, na sessão das 18h30, o César Troncoso recebeu os aplausos, ao final, com uma cara fechadíssima. Ou ele não gostou da peça, ou é pura tensão mesmo.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Yasmina e Uruguaiana

Amanhã, dia 10 de setembro, estarei me apresentando em Uruguaiana com o espetáculo de teatro de rua Sacra folia. A divertida peça da Cia. Stravaganza se apresentará na cidade, em um projeto de residência artística que inclui outros espetáculos, oficinas e leituras dramáticas. A viagem, que dura mais de 8 horas, será feita de ônibus, e para mim será um bate-e-volta: apresento a peça à tarde e à noite embarco de volta a Porto Alegre, onde chego às 6h da manhã de sexta-feira. Corrido? Muito, mas não quero ficar ausente de Porto Alegre, onde o Porto Alegre em Cena tem tantas coisas boas a serem vistas. No sábado, é a vez da Cia. de Teatro ao Quadrado apresentar O médico à força para uma casa lotada (os ingressos se esgotaram há dias). Hoje, assisti à produção uruguaia Un dios salvaje, da dramaturga francesa Yasmina Reza. Um belo espetáculo, com o ator César Troncoso (de O banheiro do papa). Yasmina Reza já conheço há anos, e sou fã de uma de suas peças, que pensamos em montar lá por 1999: Arte. Recentemente adquiri um volume com algumas de suas peças editadas pela Faber and Faber, de Londres. As peças The unespected man, Conversations after a burial e Life x 3 dão uma amostra dessa grande autora, que lida quase sempre com temáticas que desnudam a classe média e/ou os intelectuais, com suas idiossincrasias e comportamentos típicos. Há também uma pequena novela, de Yasmina, esta editada no Brasil, pela Rocco: Uma desolação. Vale a pena conhecer. 

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

As cartas marcadas ou Os assassinos

Essa foto é de uma montagem de As cartas marcadas ou Os assassinos, a primeira peça escrita por Ivo Bender, em 1961. Eu e a Margarida Leoni Peixoto interpretávamos o casal Álvaro e Rosário Ruperstein, no texto que tem clara influência do Teatro do Absurdo. Ivo conta que escreveu sua peça a pedido de uma amiga, enquanto ainda era estudante de Letras na URGS (na época não tinha o F de Federal), utilizando a técnica da escrita automática (onde o autor se deixa levar pelas imagens que constrói, algo como a livre associação na psicanálise). A direção dessa montagem de 2003 era de Rodrigo Ruiz, e ainda tinha no elenco Vinícius Cáurio, Renata Savaris e Muriel Vieira.

sábado, 5 de setembro de 2009

O médico à força: ingressos esgotados no Porto Alegre em Cena

Desde ontem estão esgotados os ingressos para a sessão de O médico à força, durante o 16º Porto Alegre em Cena. Nossa apresentação acontecerá no dia 12 de setembro, às 19h, no Teatro Bruno Kiefer (o palco em que estreamos, em outubro de 2008). Quem ainda não assistiu ao nosso espetáculo, premiado com os Açorianos de Melhor Ator e Melhor Figurino, e com o Troféu RBS Cultura de Melhor Espetáculo pelo Júri Popular, só no ano que vem!

Rumo a Caxias do Sul


Está aí a divulgação que o pessoal fez para a apresentação em Caxias do Sul.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A ronda do lobo- 1826


A Trilogia perversa de Ivo Bender, reunião de três peças baseadas em mitos gregos, adaptados para o contexto da colonização alemã no Rio Grande do Sul, é sem dúvida o grupo de textos dramáticos mais importante produzidos em nosso Estado desde Qorpo Santo. Não é exagero afirmar que a transposição do mito dos Atridas nas peças Colheita de cinzas- 1941, As núpcias de Teodora- 1874 e A ronda do lobo- 1826 atinge a rara qualidade de universalidade. A perfeição e crueza da linguagem de Bender transformaram esses textos em obras inesquecíveis. Tive o privilégio de participar das montagens teatrais de 1874 e 1826. A foto acima é de A ronda do lobo- 1826. Uma curiosidade: durante o processo de ensaios do espetáculo, onde eu interpretava o protagonista Felipe, a peça era ainda conhecida apenas por 1826, e Ivo e Decio Antunes, o diretor, procuravam por um título que definisse um pouco mais a trama de violência do texto. Sugeri A ronda do lobo, que foi imediatamente aceito. O mais legal é que em futuras edições da Trilogia perversa (que conta até agora com uma única edição,de 1988, da Editora da UFRGS), Ivo rebatizará sua peça que passou a se chamar, oficialmente, de A ronda do lobo- 1826. A foto é de 2002, ano em que a peça estreiou, e mostra eu e Gisele Cecchini. A peça é uma adptação do mito de Atreu e Tiestes, e envolve antropofagia.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A gramática








Em 2004, o Instituto de Cultura Musical da PUCRS me convidou para dirigir um espetáculo que seria apresentado no extinto Festival PUC em Cena. Decidi montar um texto de forte apelo popular, um vaudeville chamado A gramática, escrito por Eugène Labiche em 1866. No elenco, Donatto Oliveira e Thales de Oliveira protagonizavam a história, que ainda contava com Elisa Viali, Ursula Collischonn e Luiz Jacomini.