Marcelo Ádams

Marcelo Ádams

domingo, 20 de outubro de 2019

UMA SOMBRA NA ESCURIDÃO NO MATO GROSSO DO SUL

Que satisfação a de ter minha peça Uma sombra na escuridão encenada em Dourados (MS)! A Cia. Última Hora, encabeçada por Marcos Chaves e Ariane Guerra - ambos professores na graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) -, realizará a estreia do espetáculo nesta semana. O mais legal é que o trabalho é uma associação entre docentes e discentes da UFGD: três alunos realizam seus TCCs com suas pesquisas para este espetáculo. O Markito e a Ariane são velhos conhecidos dos palcos de Porto Alegre, pois ambos atuaram por aqui durante vários anos, antes de se mudarem para o Centro-Oeste e iniciarem suas carreiras na UFGD.
Só pra contextualizar: Uma sombra na escuridão é uma comédia que escrevi, em 2003, para brincar com algumas das referências mais expressivas do cinema noir estadunidense, ou seja, aqueles filmes policiais produzidos nos EUA, principalmente nas décadas de 1940 e 1950, que traziam, por sua vez, uma estética que propunha um jogo criativo entre luzes e sombras na concretude do espaço ficcional da tela, herdada do cinema expressionista alemão. Esse desembarque de uma visualidade fílmica expressionista alemã se deveu à migração forçada de cineastas germânicos para Hollywood, em fuga do nazismo europeu. 
Na minha peça, ambientada na Nova York dos anos 1950, uma história de crimes e detetives particulares reticentes se mescla a uma trama que trata do distúrbio de dupla personalidade de uma das personagens e do anseio de um ator para estudar no Actor's Studio, coração do "método" de interpretação stanislavskiano - uma escola que formou estrelas como Marlon Brando e Marilyn Monroe. Utilizei essa massa de referências para estruturar uma comédia que flerta com o non sense e que, na encenação da Cia. Última Hora, teve outros desdobramentos, segundo me informou o diretor Marcos Chaves: o peso da televisão como veículo de comunicação de massa parece ter sido um deles.
Merda para a companhia!

sábado, 14 de setembro de 2019

HAMLET SINCRÉTICO: EM BUSCA DE UM TEATRO NEGRO

Neste 13 de setembro foi lançado no Centro Municipal de Cultura de Porto Alegre o livro Hamlet Sincrético: Em busca de um teatro negro, organizado por Jessé Oliveira e Vera Lopes. O volume de 180 páginas, repleto de belas imagens da encenação conduzida por Jessé, estreada em 2005, traz depoimentos da equipe do espetáculo e de algumas dezenas de homens e mulheres convidados para escreverem sobre o impacto gerado pelo importante trabalho do Grupo Caixa-Preta. Estive lá recebendo meu autógrafo da dupla de organizadores, feliz com a inclusão do meu texto "Outros sincretismos" no livro.
Acompanho a trajetória do Caixa-Preta desde seu início, em 2003, com o espetáculo Transegun. Aqui em meu blog comentei o espetáculo O osso de Mor Lam, em uma postagem de maio de 2010:
http://marceloadams.blogspot.com/2010/05/o-osso-de-mor-lam.html

NOSSO ESTADO DE SÍTIO VENCE O FESTIVAL ESTADUAL DE TEATRO DE GRAVATAÍ


O espetáculo Nosso Estado de Sítio, criado na graduação em Teatro: Licenciatura da Uergs em Montenegro, foi premiado como o Melhor Espetáculo no 5º Festival Estadual de Teatro de Gravataí, no dia 30 de agosto. Além desta categoria, recebeu também os prêmios de Melhor Direção, para o professor Marcelo Ádams; Melhor Trilha Sonora, para o Coletivo UAU (União de Artistas da Uergs); e Prêmio Especial do Júri Oficial, pela pesquisa cênica, atuação e concepção do espetáculo.
Encenado pelo coletivo UAU (União de Artistas da Uergs), o espetáculo nasceu no componente curricular Oficina Montagem II, ministrado pelo professor Marcelo Ádams e tem a equipe toda formada por estudantes da Universidade. O texto da peça se baseia na obra do escritor francês Albert Camus para discutir temas atuais como democracia, direitos humanos e banalização da violência.
A encenação vem se destacando em eventos culturais de âmbitos estaduais e nacionais: em janeiro deste ano, foi o único espetáculo teatral do Rio Grande do Sul convidado pelo Itaú Cultural a se apresentar no evento a_ponte – Cena do Teatro Universitário, que acontece na cidade de São Paulo, junto a outros treze espetáculos de todas as regiões do Brasil. Em março, o espetáculo foi selecionado por edital público para realizar apresentações no Projeto Novas Caras da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre.
A direção é de Marcelo Ádams. No elenco atuam Bruno Marques, Charlene Uez, Felipe Vigel, Jocteel Salles, Lucas Peiter, Marcelo Ádams, Paula Silveira, Savana Flores e Rodrigo Waschburger. A iluminação é de Bruna Johann e a contrarregragem é de Rafaela Fischer. Nosso Estado de Sítio realizará outras apresentações no Rio Grande do Sul ainda neste ano de 2019.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

O POLVO RECEBEU 4 PRÊMIOS NO FESTCARBO

O espetáculo teatral O polvo, escrito e dirigido por mim, com alunos e alunas da graduação em Teatro: Licenciatura da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, participou de mais um festival de teatro. Desta vez, apresentamos na cidade de Arroio do Ratos/RS, no 14º Festcarbo- Festival de Teatro da Região Carbonífera, realizado entre os dias 12 e 17 de agosto de 2019. O evento é uma iniciativa da Cia. Teatral do Carvão, da Prefeitura Municipal de Arroio dos Ratos, do Museu Estadual do Carvão, da Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul e do Instituto Estadual de Artes Cênicas. 
A comissão avaliadora do festival foi formada por Jackson Tea, Jacqueline Pinzon e Lisinei Dieguez, com mediação de Mauro Soares. Voltamos de Arroio dos Ratos com quatro prêmios: Melhor Espetáculo pelo Júri Popular, Melhor Texto Original (Marcelo Ádams), Melhor Ator Coadjuvante (João Pedro Corrêa) e Melhor Iluminação (Rodrigo Waschburger e Tiago Bayarri).
 

segunda-feira, 1 de julho de 2019

O POLVO RECEBEU 3 PRÊMIOS NO FESTIVALE

De 24 a 30 de junho aconteceu, na cidade de Rolante/RS, o XXVI FESTIVALE- Festival de Teatro do Vale do Paranhana. Trata-se do mais antigo festival de teatro em atividade no Rio Grande do Sul, que reúne em sua competição espetáculos das categorias teatro infantil e teatro adulto, gaúchos ou de fora do Estado. Participamos da competição adulta no dia 27 com o espetáculo O polvo, escrito e dirigido por mim, trabalho criado em uma disciplina da graduação em Teatro: Licenciatura da Uergs, onde sou professor, e que nesse mês de julho cumpriu temporada no Projeto Novas Caras da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre. O resultado em Rolante foram 10 indicações e três troféus recebidos: Melhor Figurino e Melhor Cenografia, ambos recebidos pelo conjunto do Coletivo Po(l)vo do Teatro, e Melhor Direção, assinada por mim.
Os avaliadores - Vika Schabbach, William Molina e Dionatan Rosa - e o mediador, Mauro Soares, além de toda a equipe do festival, foram muito amáveis e nos receberam com carinho e atenção. Foi uma boa experiência, para mim e meus alunos, além de, pela primeira vez, ter sido premiado por um trabalho de direção, pois os prêmios que recebi até hoje em teatro sempre estiveram relacionados ao meu trabalho como ator. Que venham outros festivais!

quinta-feira, 13 de junho de 2019

UMA SOMBRA NA ESCURIDÃO NO MATO GROSSO DO SUL

O Marcos Chaves e a Ariane Guerra, que atuaram em diferentes funções nos palcos gaúchos há alguns anos, e que são atualmente professores do curso de Artes Cênicas da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), resolveram encenar um texto meu chamado Uma sombra na escuridão, comédia policial que brinca com os clichês de filmes de detetives particulares dos anos 1940 e 1950. Juntamente com alunos e alunas da UFGD, criaram um financiamento coletivo no Catarse, para viabilizar a montagem. Estou bem contente com a iniciativa da Cia. Última Hora de Dourados/MS, de concretizar esse texto que gosto tanto. Merda!

terça-feira, 4 de junho de 2019

O POLVO NO PROJETO NOVAS CARAS


O polvo, espetáculo teatral escrito e dirigido por mim, é formado por oito cenas que tratam de temas desconcertantes e provocativos. Expondo os afloramentos e os subterrâneos da vida em sociedade, aborda temas duros como violência contra mulheres, pedofilia, incesto, eutanásia, mas também há espaço para tratar de relacionamentos homoafetivos, empoderamento feminino e relações intrafamiliares. O espetáculo pode ser lido por meio da imagem metafórica do polvo, animal dotado de oito tentáculos cujas ventosas se agarram aos objetos que deseja alcançar. A exemplo de um polvo, a encenação também propõe breves e intensas experiências aos espectadores-testemunhas, que são tocados pela contundência emocional de cada cena e confrontados com a urgência dos temas apresentados: violências físicas e emocionais com as quais se deparam as personagens. 
 A trilha sonora do espetáculo foi criada especialmente para a encenação e é executada ao vivo pelo elenco, que ocupa o espaço cênico de forma a ficarem próximos aos espectadores, enfatizando a sutileza dos trabalhos de atuação.
 O polvo, que será apresentado em Porto Alegre no Projeto Novas Caras da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre, foi criado na graduação em Teatro: Licenciatura da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs), sediada na cidade de Montenegro/RS. A dramaturgia e a direção do espetáculo são de Marcelo Ádams e o elenco é formado por alunos e alunas da universidade. Estão em cena: Ândy, Caroline Costa, Denise Cruz, Eduardo Fronckowiak, Evandro Samuel, Gabriele Manteze, Jaqueline Mayer, João Pedro Corrêa, Luana Corrêa, Maria Carolina Aquino, Mari Mü, Matheus Ramires, Tiago Bayarri e Yuri Niederauer. As fotos são de Victória Sanguiné e de Gabriele Manteze.



Serviço

O polvo – espetáculo teatral

Local: Sala Álvaro Moreyra (Av. Erico Verissimo, 307, Porto Alegre/RS)

Datas: Dias 4, 11, 18 e 25 de junho, sempre às terças-feiras

Horário: 20 horas

Duração: 70 minutos

Classificação indicativa: 14 anos

Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada para estudantes, classe artística e sêniores)

segunda-feira, 11 de março de 2019

NOSSO ESTADO DE SÍTIO EM PORTO ALEGRE

A graduação em Teatro: Licenciatura da Uergs (Universidade Estadual do Rio Grande do Sul), ofertada na cidade de Montenegro, traz em seu currículo duas disciplinas que intentam integrar os conhecimentos adquiridos pelos alunos e alunas até o momento em que são oferecidas no currículo: Oficina Montagem I e Oficina Montagem II, respectivamente pertencentes à grade do quinto e do sexto semestres. Disciplinas com carga horária elevada, 12 créditos cada uma, o que significa três encontros semanais de mais de 3h30min cada um, propõem a criação de um espetáculo teatral, no qual discentes atuam e o docente responsável dirige/orienta a encenação. Com ementa aberta o suficiente para permitir as mais variadas propostas estéticas, a tendência dominante nas ocasiões em que tais disciplinas são ministradas é, por parte de quem a coordena, exercer a escuta no momento em que se iniciam os trabalhos no semestre. Por escuta me refiro a estar aberto e atento não apenas às sugestões, desejos, sonhos de alunos e alunas, que prolificamente trazem suas ideias sobre o que se deveria encenar; mas também a escuta do mundo, do meio em que vivemos, dos assuntos, questionamentos, incertezas, medos, indignações, etc., que formam a base do trabalho em teatro. É para o mundo que precisamos olhar quando decidimos que devemos usar o teatro para falar sobre isso ou aquilo. Olhando para o mundo, olhamos para dentro de nós, e vice-versa: o mundo está em nós, e nós no mundo. 
No primeiro semestre de 2018, o grupo envolvido com a disciplina Oficina Montagem I, ministrada pela professora Tatiana Cardoso, decidiu que trabalharia tendo por base o texto dramático Estado de sítio, escrito em 1948 pelo dramaturgo Albert Camus (1913-1960), francês nascido na Argélia. Em junho, ao final do semestre, foi apresentado o resultado, chamado pela equipe de “em processo”, pois surgiu a proposta, oriunda dos alunos, de dar continuidade à investigação cênica desenvolvida naqueles primeiros meses. Aceitei a proposição e me dispus, no semestre seguinte, a assumir a turma e continuar com o trabalho em processo, mas estabeleci uma condição: a de que eu tivesse liberdade total para modificar o que fôra até então criado e, mais do que isso, focar nos temas que eu percebia presentes no texto de Camus e que eu gostaria de relacionar, muito mais criticamente, com a era Bolsonaro que, naquele momento, começava a se materializar. Após esse acerto iniciamos o trabalho, e estou convicto de que o período em que erguemos o espetáculo Nosso Estado de Sítio, entre agosto e novembro de 2018, foi decisivo para o resultado que obtivemos: criávamos antes, durante e após o processo eleitoral que levou Bolsonaro à presidência do Brasil. Não poderíamos ter estímulo mais afiado para construir a crítica política e comportamental que encenamos.

Uma vez estendido o pano de fundo - os absurdos ideológicos advindos de apoiadores e do próprio Bolsonaro -, era preciso encontrar a melhor maneira de relacionar a fábula de Camus, na qual a passagem de um cometa pela cidade de Cádiz, na Espanha, traz a reboque a chegada da Peste e da Morte, ambas encarnadas em figuras antropomorfizadas, trazendo destruição, medo e perda de vidas. Minha opção foi a de radicalizar a encenação, no sentido mesmo de raiz: limar tudo que se configurava como excessos discursivos (por se tratar de um texto com 70 anos, era muito presente a importância dada por Camus à palavra) e substituir por imagens que, se nem sempre fiéis àquelas propostas pelo dramaturgo, surgiam como alternativas atualizadas para o espírito do século XXI, ao tratar de preconceito, intransigência e desgoverno. 
Encontrar figura homóloga à Peste foi fácil: o ultraconservadorismo nosso contemporâneo se colou à perfeição à metáfora camusiana: que chega com um ímpeto de destruição, de terra arrasada, passando como tanque de guerra sobre a diversidade, a delicadeza da diferença e o direito de ser quem se é. Minha indicação era a de tornar os três longos atos da peça de Camus em uma bofetada de 40 minutos, sem pudor de contar a “história” de forma diversa de uma narrativa convencional. Ao invés de personagens, como propunha Camus, construímos figuras intercambiáveis entre atores e atrizes. A fluidez de gênero nessas figuras também foi uma marca: um ator podia atuar como a personagem feminina Vitória, assim como uma mulher podia atuar a personagem masculina Diogo.
Outra decisão foi a de investir na coralidade. Os coros predominam no espetáculo, dando volume à cena, eivada de corpos que se movem e se fazem ouvir: um coro que ora representa os opressores, ora os oprimidos. Também considero a cara do espetáculo as citações ao Brasil contemporâneo, antropofagizando falas, situações e imagens associadas à era Bolsonaro. Afinal, esse é o “nosso estado de sítio”, não mais apenas o de Camus.
O resultado que obtivemos nos animou a continuar, e recebemos importantes chancelas: em janeiro  de 2019, o espetáculo Nosso Estado de Sítio foi selecionado e se apresentou no Itaú Cultural, na cidade de São Paulo, em uma convocatória chamada a_ponte- Cena do Teatro Universitário, que escolheu 14 trabalhos de todo o Brasil e tinha como foco o teatro universitário contemporâneo e suas formas de lidar com essa linguagem. Nosso espetáculo foi o único gaúcho a participar do evento.
Agora, Nosso Estado de Sítio foi selecionado para uma temporada no projeto Novas Caras, promovido pela Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre. O coletivo UAU – União de Artistas da Uergs –, que nasceu dentro da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, apresenta o espetáculo na sala Álvaro Moreyra, nos dias 12, 19 e 26 de março de 2019, sempre às 20h. A peça foi recentemente apresentada na cidade de São Paulo (SP), viabilizada através da convocatória a_ponte, promovida pelo Itaú Cultural, em janeiro de 2019, e agora se prepara para realizar apresentações na capital gaúcha. O escritor Albert Camus, autor do texto no qual a peça buscou inspiração, certa vez proferiu um discurso analisando o papel do artista, que não deve apenas distrair o público, mas comover o maior número possível de cidadãos, oferecendo-lhes uma imagem privilegiada dos sofrimentos e das alegrias comuns. Com esse mesmo propósito segue o convite para um espetáculo teatral, onde compartilhar ideias e angústias pode fazer sentido.
Nosso Estado de Sítio traz no elenco, formado totalmente por alunos e alunas da graduação em Teatro: Licenciatura da Uergs, sediada na cidade de Montenegro (RS), os seguintes nomes: Bruno Marques, Charlene Uez, Felipe Vigel, Gabriela Lemos, Jocteel Salles, Fayola Oliveira, Lucas Peiter, Marina Martins, Mônica Blume, Pâmela Magalhães, Paula Silveira, Paulo Rosa, Rodrigo Waschburger e Savana Flores. A direção e a concepção do espetáculo são minhas.

SERVIÇO

O quê? Espetáculo teatral Nosso Estado de Sítio.
Quando? Dias 12, 19 e 26 de março, sempre às 20h.
Onde? Sala Álvaro Moreyra, Porto Alegre.


Ingresso? R$ 20 e R$ 10 (estudantes, melhor idade e classe artística)

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

ESPETÁCULO DO CURSO DE TEATRO DA UERGS VAI PARA SÃO PAULO


O Itaú Cultural lançou neste ano a convocatória a_ponte- Cena do Teatro Universitário, na qual poderiam se inscrever espetáculos produzidos em instituições superiores de ensino de Teatro de todo o Brasil, para participarem de uma Mostra do que de melhor se faz no teatro universitário do país. Foram 230 trabalhos inscritos, para que fossem escolhidos apenas 14 espetáculos, e entre eles está Nosso Estado de Sítio, da graduação em Teatro - Licenciatura da Uergs, o único espetáculo contemplado do Rio Grande do Sul, que se apresentará em São Paulo no dia 26 de janeiro de 2019. Neste link está o resultado com os 14 espetáculos selecionados de todo o Brasil: http://www.itaucultural.org.br/confira-os-espetaculos-selecionados-para-a-convocatoria-a_ponte-cena-do-teatro-universitario 

Nosso Estado de Sítio foi criado na graduação em Teatro - Licenciatura da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, com direção do professor Dr. Marcelo Ádams e participação de 15 alunos em cena, além do próprio professor Marcelo que também atua na montagem. Os alunos foram provocados a identificar no texto Estado de Sítio, de Albert Camus, equivalências com a situação política que vivemos no Brasil e identificar doenças que afligem a população: ameaças de totalitarismo, retirada de direitos adquiridos, recuo nas políticas de direitos humanos e reconhecimento da existência de diversidade nos mais variados âmbitos da existência humana. 

O espetáculo recria a fábula de Camus: a chegada da Peste a uma pequena cidade litorânea traz consigo o autoritarismo e a violência. A proposta de nossa encenação é baseada nas ideias de coralidade e de um teatro de imagens, as quais se constroem nos corpos e com os corpos dos atores e atrizes. A partir de improvisações conduzidas, relacionadas aos conteúdos poéticos que se queriam alcançar, extraiam-se imagens e ações que pudessem ser desenvolvidas em direção a uma estrutura dramatúrgica. A montagem busca uma teatralidade escancarada, com soluções cênicas que não se propõem a reproduzir ações realistas, para que se concretize em cena uma poesia possível, surgida da expressão dos corpos e do desejo de usar a linguagem teatral como território privilegiado para falar do que é caro a esses jovens estudantes, nesse momento de indefinições extremas no que tange à manutenção de um regime democrático no Brasil. 

sábado, 29 de setembro de 2018

LEONARDO MACHADO, GRACIAS A LA VIDA

Essa imagem, de 2010, clicada por Júlio Appel, é de uma sessão de fotos para a divulgação da montagem do espetáculo Bodas de sangue, com texto do dramaturgo espanhol Federico García Lorca, que estrearia em Porto Alegre naquele ano, com direção de Luciano Alabarse e Luiz Paulo Vasconcellos. Aí estão Leonardo Machado, que atuaria como o Noivo, Sissi Venturin, que atuou como a Noiva, e eu, Marcelo Ádams, que atuei a personagem Leonardo (uma curiosa coincidência esse nome da minha personagem) - o triângulo amoroso fatal que põe a tragédia de Lorca em movimento. 
Léo não continuou no elenco (foi substituído por Fabrizio Gorziza), pois foi envolvido pela onda avassaladora de seu sucesso como protagonista do longa metragem Em teu nome, dirigido em 2009 por Paulo Nascimento, pelo qual ganhou o kikito de melhor ator no Festival de Cinema de Gramado. Ele foi chamado pela Rede Globo de televisão para participar de uma telenovela, o que inviabilizou sua participação na peça. 
Gracias a la vida, canção que se notabilizou com a voz de Mercedes Sosa, está no título dessa postagem porque desde 2009, sempre que a ouço, lembro do Léo. Foi assim: durante o Festival de Gramado daquele ano em que foi premiado, e no qual eu também estava com outro filme, Quase um tango, do querido Sérgio Silva, nos hospedávamos no mesmo hotel, o Serra Azul. Como sempre acontece nesses eventos em que artistas se encontram, a vontade de conversar e ficar juntos durante o máximo de tempo possível fazia com que varássemos algumas madrugadas, junto com vários outros artistas do Brasil todo, à volta da lareira do hotel, bebendo, conversando e cantando. Léo ficava algumas vezes com o violão, e ouvi dele que a canção que mais o emocionava era Gracias a la vida. E o ouvi tocar e cantar esse verdadeiro hino à vida.
Nesse momento tão triste, em que perdemos esse ator tão especial, a canção de Mercedes Sosa é totalmente adequada, e diz muito sobre a forma como Leonardo Machado viveu. A vida lhe deu muito: reconhecimento por seu trabalho, amigos e família que o amavam. O momento em que partiu nos parece tão precoce porque ele merecia, e nós merecíamos, mais tempo juntos. 

domingo, 2 de setembro de 2018

MACBETH E O REINO SOMBRIO

A tragédia Macbeth foi escrita em 1606 pelo inglês William Shakespeare (1564-1616), vindo a se tornar, com o passar do tempo, uma das mais celebradas e encenadas peças de seu autor em todo o mundo. A exemplo de quase todas as suas tragédias e comédias, em que adaptava ou utilizava como mote para servir de base para sua escrita as obras de outros autores, ou lendas, ou mesmo eventos históricos reais, Shakespeare aproveitou, nesta que também é conhecida como "the scottish play" (a peça escocesa), eventos ligados à vida de um rei escocês do século XI. O monarca Macbeth (1005?-1057) teria reinado entre os anos de 1040 (quando assassinou o então rei Duncan I em uma batalha) e 1057 (quando foi morto também em batalha, em 15 de agosto de 1057, por aquele que se tornaria, no ano seguinte, o rei Malcolm III, filho do usurpado Duncan I). 
A mais curta (e, portanto, objetiva no vertiginoso desenrolar da ação) e uma das mais violentas tragédias de Shakespeare (ainda que Hamlet e Tito Andrônico, por exemplo, compitam bastante bem nesse quesito), Macbeth se tornou um paradigma de boa composição dramática, expondo com brilho a ascensão e a queda de seu protagonista com riqueza de nuances psicológicas, assim como de sua coprotagonista Lady Macbeth. Em suma, a peça escocesa traz uma fábula sobre como a ambição pelo poder pode virar um ser humano pelo avesso, expondo aquilo de que se envergonha ou às vezes nem tem consciência que traz dentro de si. A maldade, a falta de empatia, o maquiavelismo (os fins justificam os meios) são temas que percorrem a narrativa escocesa, temperados - como o público de teatro apreciava no tempo de Shakespeare - com aparições sobrenaturais e de criaturas ligadas ao lado oculto e mágico da existência humana.
Adaptar Macbeth para sua proposta de encenar "Shakespeare para crianças", que o Coletivo Órbita desenvolve, se torna nada menos que um desafio, mesmo que essa palavra seja tão batida quanto vitamina de banana. Hoje em dia, 9 entre 10 entrevistados enfatizam o "desafio" que é atuar, escrever, dirigir, etc., etc. Com o perdão do uso que faço dessa palavrinha, acredito que neste caso específico autodesafio é a expressão adequada, pois não há facilidades em contar, em cerca de 45 minutos, a história de um homem que recebeu de três bruxas uma profecia de que seria o próximo rei e que, em colaboração com sua mulher: trama o assassinato do monarca em sua própria casa, assume o trono, manda matar todos aqueles que porventura possam ameaçar sua permanência no poder (inclusive crianças), é visitado pelo fantasma ensanguentado de sua vítima, e é finalmente morto em batalha e decapitado. Ah, e tudo isso para crianças assistirem e se divertirem.
Talvez o que tenha motivado o grupo a encarar essa tarefa tenha sido, além da admiração por Shakespeare, a trama específica de Macbeth, que em vários aspectos se cruza com a atmosfera encontrada na série estadunidense Game of Thrones - esta, sem dúvida, um dos maiores sucessos da TV mundial dos últimos anos, e que tem estimulado ficções que investem num tipo de ambientação medieval (até a Globo criou algo assim recentemente, na telenovela Deus salve o rei). O fato é que contar uma história que originalmente tinha 36 personagens com apenas dois atores e uma atriz, sem que tudo se torne confuso, apostando na ação dramática e não apenas na narração (como contadores de histórias poderiam fazer) para presentificar as situações shakespearianas, poderia ser um problema - mas se tornou, felizmente, uma boa solução.
Oriundos da Uergs (Universidade Estadual do Rio Grande do Sul), os atores João Pedro Decarli (que é também o encenador deste trabalho) e Rodrigo Waschburger e a atriz Camila Pasa criaram o espetáculo Macbeth e o reino sombrio em uma disciplina de Prática em Direção Teatral do curso de Teatro - Licenciatura, sediado na cidade de Montenegro. Após o âmbito acadêmico, a peça ganhou o circuito comercial e vem realizando apresentações por cidades gaúchas desde 2017, chegando agora a Porto Alegre para uma breve temporada na Sala Álvaro Moreyra. Minha reação ao que vi foi de entusiasmo e de reforço à ideia de que um bom teatro se faz, na maioria das vezes, sem a exigência de uma grande produção em termos de riqueza de meios (falo daqueles meios que demandam consideráveis somas de dinheiro para serem possíveis), já que acredito serem os trabalhos de atuação e uma dramaturgia bem articulada os mais eficazes elementos que tornam a experiência da recepção teatral bem sucedida e prazerosa. 
Destaco, primeiramente, a excelente sacada que é contar a sombria trama de Macbeth em um espetáculo para crianças (embora, de fato, não seja apenas para os pequenos, pois me diverti bastante). A estratégia encontrada foi a de fazer transbordar a teatralidade: na alternância veloz entre personagens, que é imposta ao trio de atuadores para que possam dar conta de tantas figuras necessárias ao andamento da fábula; na aposta, sempre bem sucedida, no humor como chave da comunicação com os espectadores; no trabalho acrobático da atriz e dos atores, que demonstra qualidade e inventividade; na simples mas bem utilizada cenografia, composta por duas escadas articuladas, que tomam diferentes formas ao longo da peça, além de três grandes panos que criam um fundo para as ações, além de, em outros momentos, servirem como plataforma para cenas de teatro de sombras; no preciso jogo entre o trio e as propostas da encenação, já que esta  constantemente propõe a metalinguagem como recurso de empatia com o público. 
Sobre a cena, o trio de atuadores está muito bem, afinados com a concepção, divertindo-se e nos divertindo. Verdade seja dita, a adaptação que fizeram de Macbeth é pouco sombria, como poderia sugerir o título do espetáculo, no sentido de que mesmo nos momentos de violência são encontradas soluções teatrais que não chocam as crianças, estas já acostumadas com a explicitude encontrada em filmes e games, muito mais aterradores do que o que se vê sobre o palco em Macbeth e o reino sombrio. Entretanto, ainda que amenizada e endereçada para um público infantil, estão presentes as discussões sobre o poder, sobre a ganância, sobre a morte como um passo em direção ao vazio, porém de maneira totalmente compreensível para qualquer público. Esse, em minha opinião, é um dos méritos do espetáculo, o que poderá fazer com que os jovens espectadores (talvez até os mais velhos) tenham curiosidade em descobrir e ler a versão original da peça de Shakespeare, o que contribui em muito com uma das funções da arte: abrir os horizontes do humano, mostrar outras possibilidades de apreensão da beleza (e do que é podre, como dizem as bruxas para Macbeth).
É incrível como uma peça escrita há mais de 400 anos pode fazer sentido hoje, para nós brasileiros. Penso na história do governante de um país, que é arrancado do trono por outro(s), pela ambição desmedida de ter para si o poder, e que para isso utiliza dos meios os mais escabrosos, até mesmo emendas parlamentares liberadas para a escrota base aliada. Mas o tempo passa, e esse que usurpou o reino será, tenho fé!, decapitado pelas forças democráticas, assim como Macbeth perdeu sua cabeça.

sábado, 18 de agosto de 2018

19 DE AGOSTO, DIA DO ARTISTA DE TEATRO

19 de agosto, Dia do Artista de Teatro*

POR MARCELO ÁDAMS - PROFESSOR DA GRADUAÇÃO EM TEATRO- LICENCIATURA 
Quando se fala de "artistas de teatro", categoria dos profissionais que são celebrados no dia 19 de agosto, se está tratando de várias e especializadas funções que compõem o amplo espectro contido naquela denominação. Podem ser caracterizados dessa forma atores e atrizes, encenadoras e encenadores, dramaturgos e dramaturgas, mas também profissionais de cenografia, figurinos, iluminação, maquiagem e por aí vai, tão rica, agregadora e acolhedora é a arte teatral. Finalmente, e certamente com a mesma importância, está o professor de Teatro, que na maioria das vezes se encontra na gênese da formação da maioria dos profissionais antes citados. Partindo do pressuposto de que para exercer as funções complexas e criativas que fazem parte do universo teatral são necessárias técnicas e conhecimentos aprofundados, o professor de Teatro é, de forma privilegiada, o profissional que difundirá a tradição e buscará a inovação nas artes da cena.
O curso de Teatro - Licenciatura da Uergs forma professores-artistas que, uma vez inseridos no mercado de trabalho, terão uma função cada vez mais importante no mundo em que vivemos, no qual a crescente presença de tecnologias em nosso dia a dia nos conduz, muitas vezes, a um afastamento do contato humanizado, presencial. Poder-se-ia pensar: uma arte com uma história tão antiga como o Teatro, que já conta com mais de dois milênios de existência, ainda é relevante nesse planeta informatizado, conectado e virtual? A resposta é simples: a arte do Teatro tem a missão e o instrumental para proporcionar ao ser humano aquilo que a mais avançada das tecnologias não é capaz: o contato próximo com o artista, a reflexão crítica, o entretenimento, a empatia com o outro, a consciência da diversidade da nossa espécie, entre outras coisas. Um mundo crescentemente robotizado tem, no Teatro, um contraste vivo.
Formar professores de Teatro, como fazemos na Uergs, é entender que as micro ações influenciam o mundo macro. Uma professora de Teatro que trabalhe com crianças ou adolescentes não terá como objetivo último formar artistas, mas sim fazer ressoar em seus alunos uma experiência de incontestável valor humano e pedagógico: saber colocar-se no lugar dos outros, vivendo ou inventando personagens que, por serem diferentes de si, exercitam a consciência da alteridade. A socialização e o incentivo aos sentimentos de pertencimento a um grupo (ou a diferentes grupos) são duas das importantes contribuições que a arte teatral compartilha com quem se dispõe a partilhar dessa experiência. A vivência da/em arte, nas mais variadas formas, seja como praticante ou como espectador, é uma das alternativas mais eficazes para construirmos um mundo melhor a ser vivido em comum.
* Texto publicado originalmente no site da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul http://www.uergs.edu.br/artigo-dia-do-artista-de-teatro-19-de-agosto

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

AS TREVAS RIDÍCULAS

Uma questão que me interessa é: há real necessidade de tomar o texto dramático como ponto de partida e guia para a fruição de um espetáculo teatral? Outra maneira de lançar essa questão: por que boa parte dos que escrevem sobre teatro baseiam seus comentários em desdobramentos e especulações acerca do que o texto dramático traz em forma de palavras e sugestões de imagens que podem ser criadas a partir delas? Por que tomar o texto dramático como paradigma para uma encenação, respeitando (será que a palavra respeito se aplica?, e se se aplica, o que significa exatamente "respeito" em um contexto de criação artística?) e elegendo o autor das palavras impressas como o criador principal em uma encenação? Por acaso não sabemos (a maioria de nós, acredito) que, há pelo menos algumas décadas, o Teatro não se sente mais obrigado a eleger um "mestre espiritual" e, como uma escritura sagrada, seguir as indicações constantes em forma de rubricas e "formas de fazer" previamente estipuladas pelo dramaturgo? Por que a criação de um único indivíduo, o autor dramático, tem mais importância do que as criações de inúmeros outros artistas que compõem a equipe de um espetáculo cênico? Por que, ao modificar, incrementar, questionar, dialetizar, etc., um discurso no papel, os artistas da cena são apontados como traidores, ignorantes (por não terem "entendido" o texto?), desvirtuadores, entre outras denominações?
Ao assistir a um espetáculo teatral, tenho, como espectador, duas possibilidades: a de conhecer previamente o texto dramático, e a de não conhecer previamente o texto dramático. Uma vez conhecendo o texto, posso ter duas atitudes: a de ficar constatando, o tempo todo, a maneira como a encenação aproveitou o texto (na íntegra, com cortes, com modificações internas, provocando fissuras, rasuras, etc.), e me colocar como juiz do que é "respeitoso" ao dramaturgo, erguendo um muro entre mim e as cocriações de todos os outros artistas, considerando-as apenas como consequências necessárias da escritura "sagrada" do autor dramático; ou a outra atitude, a de dar ao texto dramático o seu devido lugar, que é o de um dos elementos de uma encenação, não o mais importante, não o do qual deriva todo o resto, não o guia infalível para a concepção cênica, e, desta forma, dar atenção ao que acontece na fricção entre esse texto dramático e os demais elementos vivos e plásticos da encenação. Que transformações se produzem nessas relações, quais novas possibilidades se criam nessa espécie de reação química que ocorre?
O espectador de um espetáculo teatral não é um crítico literário, embora ele possa agir como um, já que cada pessoa sentada na plateia tem o direito de "ler" a criação cênica que se lhe apresenta a partir do seu próprio horizonte de expectativa. Ou seja: eu leio com os olhos que tenho. Se sofro de miopia ou estigmatismo intelectual, isso influirá diretamente na minha recepção. Se escolho (ou, por outro lado, se não tenho outra saída, pois "nasci assim") eleger um ponto de observação, a partir do qual construo minha recepção ao que me é oferecido, estou, indubitavelmente, abrindo mão, conscientemente ou não, de outros inúmeros pontos de vista. Isso em si não é tão ruim, pois todos somos limitados como seres humanos, uns mais, outros menos, para algumas coisas, para outras coisas. O que me parece mais complexo, entretanto, na recepção de um espetáculo teatral, é que, justamente, ele é complexo, por ser constituído por uma série de contribuições artísticas. Não é como a literatura, por exemplo, que resulta do trabalho de um único autor, que detém, oniscientemente, os rumos da forma narrativa (embora jamais poderá controlar a maneira como essa forma será recebida pelos leitores). Lá vai: não se pode ver teatro unicamente com ferramentas da literatura, é preciso outras ferramentas, ou pelo menos, estar aberto para a experiência cênica que não é, de forma alguma, um texto dramático transposto, apenas.
Acaso me informo, quando vou ao teatro, das "características" de cada um dos atores que estão sobre o palco? Seria ridículo procurar saber qual é o peso, a altura, a capacidade pulmonar, a extensão vocal, o alongamento e a capacidade de atenção de cada ator, antes de vê-lo atuando, para depois poder dar um veredito de quanto de seu "potencial" ele empregou em cena. Se esse ator foi subutilizado, se ele não deu tudo de si, se na noite anterior ele bebeu demais ou brigou com seu amor, tudo isso eu teria como um critério de comparação para utilizar na apreciação do espetáculo? Se essa possibilidade é estúpida, então por que é imprescindível saber os antecedentes e a genealogia do texto? 
Mais um argumento, que para mim é irrefutável: o teatro é arte viva, e, assim como a dança, se constrói sobre o corpo vivo do performer. Essa é a pedra fundamental da arte teatral, por mais que em torno dela se amalgamem infindáveis outros elementos. Não há estrutura sem esqueleto, e o ator é o esqueleto do teatro. O movimento, a ação, a presença viva dos atores são (que aceitem isso os "literaturófilos") o que há de mais característico no teatro. Por mais fascinante e rico que seja um texto dramático bem construído, que auxilie os atores a mostrarem seres humanos agindo sobre um palco, a dramaturgia não pode ser mais do que é: justamente um auxiliar para o que realmente é o coração e a mente do teatro, o ator. Literatura no papel serve para ser lida, relida, retornando páginas e constatando minúcias possíveis apenas desta forma. O texto dramático sobre a cena é ouvido apenas uma única vez, o que denota sua importância dentro da estrutura espetacular. Não se podem colocar todas as fichas apenas no entendimento lógico da "historinha" que está sendo contada sobre o palco através das palavras do dramaturgo. Várias outras histórias são contadas, simultaneamente: há a dramaturgia do ator, a dramaturgia da luz, a dramaturgia do som, entre outras. Um espetáculo é uma sobreposição de dramaturgias, que seguem muitas vezes indiferenciadas, ou mixadas, não é inteligente eleger apenas uma delas como a guia fundamental. Mas se eu elegesse uma, com certeza não seria o drama como forma necessariamente impositiva. E digo isso não como um detrator da dramaturgia, mas como alguém que estudou o drama e a literatura em geral em nível de pós-graduação, que ensina literatura dramática na universidade, e que construiu todos os espetáculos da minha Cia Teatro ao Quadrado a partir de textos dramatúrgicos. Entretanto, nunca deixei de entender que fazer teatro não é só montar um texto.
Assisti ao espetáculo As trevas ridículas que, segundo o programa do espetáculo, foi "baseado na peça radiofônica" do alemão Wolfram Lotz. Estreado em maio de 2017, e integrando o Projeto Transit, no qual dois diretores de Porto Alegre foram convidados para encenar um mesmo texto, sob a idealização do Goethe-Institut, esta versão que assisti foi encenada por Alexandre Dill, com produção do Grupo Jogo (a outra versão foi batizada de Nas sombras do coração, com encenação de Camilo de Lélis). Acompanhei, em meados do ano passado, uma polêmica que se criou a respeito dessas encenações, e a partir da qual várias manifestações, às vezes agressivas, se tornaram públicas. Uma delas, se não me falha a memória, dizia respeito à escolha que uma encenação faz de explicitar, desta ou daquela maneira, o que um texto dramático traz em seu bojo. Ou seja: transformar palavras em imagens, que em última análise é uma das funções do teatro, desde sempre (há incontáveis maneiras de se fazer isso, evidentemente). E essa escolha que a encenação faz, de transformar quais palavras em quais imagens, me parece ser justamente o fundamento do Projeto Transit, caso contrário não teria sentido convidar dois encenadores para dirigirem o mesmo texto. Já era esperado que cada uma das equipes abordasse o texto de Lotz da maneira que considerasse "a sua melhor". E, no caso do projeto do Goethe em questão, foi fornecido o estímulo do texto radiofônico, como poderia ter sido qualquer outro: uma sinfonia, uma escultura, uma tela, um poema, uma árvore... A escolha de um texto escrito  como estímulo se justifica porque traz uma narrativa mais facilmente identificável, o que, levando em consideração que o teatro é reconhecido como uma arte que faz uso da narrativa, cenicamente, torna a transposição entre linguagens, teoricamente, menos conturbada.
O Grupo Jogo me surpreendeu com o resultado de As trevas ridículas, porque em minha opinião havia muitas dificuldades na transposição de uma peça radiofônica alemã que traz temas como colonialismo e pirataria. As obras primas, literária de Joseph Conrad (O coração das trevas), e cinematográfica de Francis Ford Coppola (Apocalipse now), que serviram como parâmetros/balizas para que o autor Wolfram Lotz desse luz a uma terceira coisa chamada Die Lächerliche Finsternis, poderiam resultar demasiadamente desafiadoras para que ainda uma outra possibilidade, desta vez cênica, criasse corpo. Minha surpresa, então, se deu no sentido de que fiquei bem impactado com o que vi sobre o palco do Teatro do Goethe.
A encenação de Alexandre Dill teve êxito em criar um outro universo, este, ficcional, no qual se movem as figuras corporalizadas pelos atores. E tal feito se dá, durante o transcorrer do espetáculo, não apenas como fruto da bem resolvida cenografia de Reynaldo Netto (minha leitura foi a de identificar a grande caixa que domina o palco com um contêiner, desses que os grandes navios de carga transportam pelos mares), mas em iguais proporções com o belo desenho de luz de Lucca Simas, que cria as trevas constantes que dão título ao espetáculo, utilizando dispositivos luminosos variados e muito eficazes; os figurinos de Manu Menezes, totalmente adequados à proposta da encenação; a direção musical de Bibiana Petek, que se aproxima do cinematográfico pela habilidade em construir "camas sonoras" para as cenas; e, sem dúvida, o trabalho dos atores.
Os cinco atores estão, felizmente, conectados com o estranhamento que o conjunto de estímulos sonoros e visuais promovem na percepção do espectador. Há algo levemente anuviado que ocorre, uma ironia, um sarcasmo tênue como um tecido voal, que torna atraente a atuação de todos. O bom trabalho dos atores, entre os quais incluo Vicente Vargas, Lucas Prado e Guilherme Conrad, ressalta Frederico Vittola e Gustavo Susin como duas formas quase opostas de atuação, que contribuem para o estranhamento positivo que ressaltei. Gustavo constrói seu principal momento no espetáculo - um monólogo que dura cerca de 20 minutos, logo no começo da encenação - em uma atuação vinculada ao que Josette Féral chama de "teatro performativo", ou seja, uma construção de corpo-voz que ultrapassa a composição física de uma personagem, no sentido de que apresenta uma diversidade de posturas e ações que envolvem objetos como um microfone de pedestal, uma folha de zinco (?) e um refletor. A alternância de planos espaciais nos quais se desenvolve o trabalho de Gustavo sugere por vezes uma animalidade que se adequa à crítica que é feita ao tratamento do pirata somali que lhe cabe atuar. A intensidade física que ele alcança, realçada pela dificuldade e pelo incômodo com os quais tem que lidar (como o calor excessivo provocado pelo refletor que ele segura próximo ao rosto) torna sua atuação viva, corporificando paralelos entre a figura ficcional e o ator.
Frederico Vittola, inversamente, compõe hábil e detalhadamente sua personagem, a de um militar do exército alemão em uma busca cheia de percalços no Afeganistão. Frederico tem sutileza e controle do tempo de sua atuação, inserindo pequenas ações que dão total credibilidade à personagem que criou. Há muito senso de humor em seu trabalho, e ele se torna o eixo em torno do qual os outros atores constroem suas atuações.
Poderia-se pensar que, em um mesmo espetáculo, soaria estranha a junção de duas formas de atuar tão contrastantes, como as de Gustavo e Frederico - isso se não estivéssemos em 2018, momento em que a ideia de unidade dramática já perdeu muito de seu sentido e de sua representatividade no cenário teatral. A tal da unidade não é alcançada pela uniformidade dos elementos, é muito mais ampla do que isso. Unidade, em minha compreensão, tem a ver com a verossimilhança que a proposta cênica apresenta, sendo que verossímil não tem ligação necessária com o real e o realista, mas com o que é proposto pela/para a obra. Talvez a palavra coerência faça mais sentido aqui, mas sem esquecer o conceito de "coerência incoerente" trazido por Eugenio Barba.
As trevas ridículas não é um espetáculo de excessos, atravessa as quase duas horas de sua duração em um ritmo constante, como o barco que desce o rio. Esse ritmo é modificado às vezes, o que na maioria das ocasiões funciona muito bem como uma transição para outra cena. Há uma única interrupção que considero não necessária para o espetáculo como um todo, que é justamente a maior delas, com o intervalo de 15 minutos entre o primeiro e o segundo ato, quando o engenhoso cenário é reconfigurado, criando novas áreas de atuação. Fica lindo, isso é verdade, mas quebra um pouco o andamento que vinha sendo proposto, além de que essa transformação ocorre já próxima ao final da encenação, não sendo tão aproveitadas as possibilidades cenográficas como poderiam.
Acompanho os trabalhos do Grupo Jogo, e dentre os que tive a oportunidade de assistir este me parece o que encontra um melhor equilíbrio entre o desejo de fazer a diferença em um trabalho calcado na fisicalidade e na intensidade emocional, e a sutileza e domínio dos elementos cênicos. Fiquei bem satisfeito!

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

IVO BENDER GANHA LIVRO-HOMENAGEM

Foi lançado, para minha satisfação e a de todos os interessados em literatura, o primeiro volume do que constituirá uma série de livros digitais que terá como tema escritores gaúchos, produzida pelo Instituto Estadual do Livro do RS. A boa notícia é que, de cara, o escolhido foi Ivo Bender, autor que neste 2017 completou 81 anos. Ivo consolidou uma carreira incrível como dramaturgo ao longo de mais de 50 anos (e mais de 30 textos para teatro), e desde 2010 também tem produzido pérolas em forma de contos, que vêm sendo publicados desde então. Neste lançamento, há textos assinados por mim e também por Mirna Spritzer, Diones Camargo e Cíntia Moscovich, além de duas obras de Ivo - uma peça curta e um conto - e de uma entrevista com o autor. O livro pode ser baixado gratuitamente ou lido online.
http://ielrs.blogspot.com.br/2017/12/escritores-gauchos-ivo-bender.html

terça-feira, 27 de junho de 2017

PARA RELEMBRAR SÉRGIO SILVA


A UFRGS TV vem registrando, nos últimos anos, os depoimentos de figuras importantes de nossa cultura. Nesta entrevista, Sérgio Silva fala um pouco de sua visão de mundo, mesmo que às vezes um pouquinho idealizada, mas sempre um reflexo autêntico de si. Gravado pouco mais de um ano antes de sua morte.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

QUASE UM TANGO...



Este longa metragem dirigido pelo querido Sérgio Silva (1945-2012) foi seu último filme, que mesmo nunca tendo estreado em salas de cinema no Brasil, concorreu no Festival de Cinema de Gramado em 2009, saindo de lá com as estatuetas de melhor roteiro (para o próprio Sérgio) e de melhor atriz (para Viviane Pasmanter). Também é exibido de vez em quando na TV, pelo Canal Brasil. Nesse filme, o segundo dirigido por ele no qual atuei (o primeiro foi Noite de São João, de 2002), Sérgio trabalha com uma estrutura de melodrama que admirava bastante como estratégia comunicativa. Tratando de pessoas simples que vivem sem grandes atos de heroísmo, essas personagens são eventualmente confrontadas com obstáculos que as põem à prova apenas para afirmarem a capacidade humana de superação. É um filme otimista, ingênuo por vezes, o que mostra a idealização do diretor-roteirista e a crença, apesar dos percalços, na humanidade. Um certo tom, por vezes, remete ao neo-realismo italiano, do qual Sérgio era fã. Em outros, deixa aflorar a teatralidade que fazia parte de sua compreensão do mundo (foi professor do Departamento de Arte Dramática por muitos anos, até se aposentar em 2010). No DAD, onde fui seu aluno em algumas disciplinas, eu tinha imenso prazer em ouvi-lo em suas digressões que ultrapassavam o tema das aulas. Eu me divertia muito, ria demais com suas histórias, bem como aprendia tantas coisas que utilizo hoje com meus alunos da UERGS.
Que bela oportunidade a de tê-lo conhecido, ser seu aluno, ter trabalhado com ele e, ainda por cima, considerá-lo como meu padrinho informal de casamento com a Margarida, pois foi durante as filmagens de Noite de São João, em janeiro de 2002, que iniciamos a amizade que resultaria em casamento.
Para saber um pouco sobre a trajetória do Sérgio leia aqui 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

quinta-feira, 1 de junho de 2017

AUSCHWITZ-BIRKENAU

Aquilo que desde muito jovem eu me acostumei a ver em imagens - às vezes ficcionalizadas, nos incontáveis filmes que já foram feitos sobre o Holocausto, como O filho de Saul; às vezes em documentários perturbadores, como Noite e neblina, de Alain Resnais; às vezes em filmes-depoimento, como o extraordinário Shoah, de Claude Lanzmann, que não utiliza imagens do sofrimento das vítimas, mas concentra-se nas memórias de sobreviventes, de oficiais nazistas e de pessoas que viram tudo acontecer sem estranhar ou tomar alguma posição a respeito do verdadeiro genocídio que estava sendo praticado antes e durante a Segunda Guerra Mundial: tudo isso, que nos inunda ao longo de uma vida, toma outra proporção quando visto ao vivo, quando se tem a oportunidade de visitar uma pequena parcela do que foram as consequências do nazismo na história da espécie humana. Os inúmeros livros que li, os incontáveis relatos de sobreviventes, as centenas de entrevistas com homens e mulheres que escaparam da morte, perdendo muitas vezes todas as pessoas que faziam parte de suas existências em um fração de tempo que só posso qualificar de absurda, dada a velocidade com que uma vida humana era dizimada, pelos motivos mais fúteis possíveis: todo esse volume de informações se curva frente à crueza e concretude do real. Aconteceu mesmo, e aqui, tão perto da linda cidade de Cracóvia.
Hoje, estando por algumas poucas horas dentro dos limites daqueles campos, Auschwitz e Birkenau, tentei me colocar o máximo possível em uma posição de abertura à experiência, e fiquei surpreso com a oscilação perturbadora que me guiou por aqueles espaços. Oscilação entre a percepção do horror inimaginável de pessoas sendo assassinadas aos milhares, e minha confortável posição de turista do século XXI conhecendo, ao lado de centenas de outros visitantes vindos dos quatro cantos do mundo, este "cenário". É que esses grandes eventos da história parecem ficcionalizar-se dada a imensa exposição que têm ao longo dos anos; é preciso um esforço, que tenho certeza de que muitos dos visitantes não tiveram, para imaginar algo que parece tão distante, mesmo que vejamos as toneladas de cabelos expostos em vitrines, retirados das cabeças daqueles que estavam a poucos minutos de suas mortes; os milhares de pares de sapatos de homens, mulheres e crianças, predominantemente pretos ou marrons, destacando-se eventualmente alguns pés brancos ou vermelhos, e despertando imediatamente minha pergunta sem resposta: de quem era esse sapato?
Não se pode dizer que é indescritível, porque tudo pode ser descrito, com maior ou menor precisão ou conveniência ou riqueza de detalhes. Nem que é inimaginável, já que nossas mentes são poderosas para buscar maneiras de simbolizar o que não vivemos ou sentimos. Invertendo a perspectiva, eu digo que tudo é indescritível e inimaginável pelo Outro que não viveu o que vivi. Mesmo a mais banal das experiências, como sentir uma brisa no rosto, é impossível de ser descrita por quem não a sentiu, já que todas as experiências são únicas e absolutas. Mesmo para os milhões de supliciados durante o período histórico conhecido como nazismo tiveram, cada um deles, experiências únicas - amontoados todos, nus, homens, mulheres e crianças dentro de uma sala fria da qual receberiam sobre seus corpos, através de buracos do teto, o gás Zyklon B que os sufocaria em poucos minutos. E é inimaginável e indescritível por esse motivo: porque cada ser humano tem sua experiência individual, cada ser humano é Único, e cada morte é única. Não foi um milhão e meio de pessoas assassinadas em Auschwitz e Birkenau- foi uma pessoa assassinada um milhão e meio de vezes.
Andando pelos caminhos de Birkenau, ouvi um casal de franceses e me captou a atenção o uso da palavra "surreal", que ela repetiu algumas vezes: "é surreal, surreal". Surreal, por definição, é aquilo que está além do real. Surreal é aquilo que pertence ao domínio do sonho, do absurdo, da imaginação. Pode algo que foi tão assustadoramente real para milhões de pessoas tornar-se surreal? Esse é o risco, ultrapassar a esfera do real e tornar-se algo confortavelmente surreal; esse é o motivo pelo qual fatos como esses não podem ser esquecidos, devem ser tornados reais por imagens, palavras, recordações e por tudo que possa atualizar o Holocausto. 
Observando as ruínas da câmara de gás e de um dos crematórios em Birkenau, que hoje são apenas tijolos empilhados e vigas de ferro retorcidas, lembrei das ruínas gregas e pensei que, 2500 anos atrás, pessoas ergueram esses templos em Atenas, que atualmente desapareceram quase totalmente, restando muitas vezes apenas as fundações. O que acontecerá daqui a 2500 anos, quando o século XX for apenas um número longínquo? As histórias daqueles seres humanos que foram mortos apenas por serem o que eram - judeus, ciganos, homossexuais, comunistas, testemunhas de Jeová, doentes mentais, doentes em geral - terá sido esquecida por todos? 
A história pode ser diferente. Se depender de mim, que viverei tão pouco, mas que carregarei comigo, até o fim, o compromisso de lembrar e de fazer lembrar.






sexta-feira, 28 de abril de 2017

DUAS VEZES IONESCO, EM PARIS

O Théâtre de la Huchette tem esse nome porque fica no número 23 da Rue de la Huchette, no 5ème arrondissement, em Paris. Inaugurado em 1948, o teatrinho de 92 lugares seria mais um singelo e acanhado local de espetáculos não fosse a estreia, em 16 de fevereiro de 1957, de um programa duplo composto pelas peças A lição e A cantora careca, ambas escritas pelo dramaturgo romeno Eugène Ionesco, que desenvolveu a maior parte de sua carreira teatral na França. Esse programa duplo trazia ao cartaz duas das primeiras peças de Ionesco, estreadas alguns anos antes e que, colocadas juntas na mesma noitada, não ultrapassavam duas horas de encenação. Pois bem, o inusitado aconteceu, e a possibilidade de assistir as duas obras seduziu os parisienses - e ao longo dos anos, a todos os interessados que iam a Paris -, resultando que há 60 anos, ininterruptamente, estão em cartaz.

A lição, escrita em 1951 (que a Cia Teatro ao Quadrado encenou em Porto Alegre em 2010 no Teatro de Arena, com direção de Margarida Peixoto, e comigo e Luísa Herter no elenco), tem uma encenação totalmente calcada no ótimo trabalho dos atores com o texto. Isso significa dizer que não há maiores invenções cênicas que fujam das previstas e sugeridas pelo texto de Ionesco, resultando numa escassa movimentação dos atores pelo pequeno palco italiano, e um reduzido cardápio de ações. Ainda assim, os 50 e poucos minutos de duração que mostram o tragicômico embate entre o professor e sua aluna (mais cômico que trágico, é verdade), além das pequenas intervenções da governanta, fluem admiravelmente, extraindo o riso não apenas do divertidíssimo texto ionesquiano, mas das composições dos atores que, verdade seja dita, dominam completamente seus trabalhos.
A cantora careca - que tem o mérito de ser considerada a primeira peça do "estilo" batizado pelo crítico inglês Martin Esslin como Teatro do Absurdo -, escrita por Ionesco em 1950, é igualmente simples em sua encenação, ainda que um tanto mais movimentada. Talvez isso se deva ao maior número de personagens, e ao desenrolar dramatúrgico que propõe uma quantidade de situações mais variadas que a quase monotemática de A lição (um professor ensinando sua aluna). Novamente um grupo de atores irresistivelmente afiado e afinado nas propostas do texto e da encenação, que, neste último caso, abre mão de explicitar em marcas o non sense prevalente durante toda a obra, tornando-se ainda mais divertida com o constante estado blasé das personagens, que são inglesas.
Uma curiosidade é o fato de que ambas as peças são encenadas no mesmo palco (que me lembrou o espaço do Teatro Nilton Filho, de Porto Alegre, pelas reduzidas dimensões) com idêntico cenário composto de painéis decorados imitando paredes (pode ser visto na foto acima). A diferença de uma encenação para a outra fica na utilização de um ou outro adereço (um sofazinho, uma mesinha) e na disposição das tapadeiras do cenário, que podem ser articuladas para criar um corredor central ou entradas laterais, conforme a peça. Também a ser referida é a limitada utilização da iluminação (que mantém-se a mesma desde os anos 1950), o que é quase um retorno ao passado, pois é possível perceber a despreocupação com os movimentos de luz: nas duas peças, a luz se mantém em "geral branca" durante todo o tempo; o que Adolphe Appia chamaria de luz difusa, sem recortes ou jogo entre luz e sombras.
Para mim, uma experiência admirável esta de testemunhar um fenômeno de durabilidade cênica como o do Théâtre da la Huchette. Investimento total na dramaturgia e no trabalho atorial, o que afinal de contas parece fazer sentido e ter espaço no incansavelmente mirabolante teatro contemporâneo. Faz pensar que há espaço para todo bom teatro - e com "espaço" infelizmente não quero dizer "bom público", já que frequentemente uma coisa está dissociada da outra. Não é, felizmente, o caso destas A lição e de A cantora careca.

Marcelo Ádams na montagem da Cia Teatro ao Quadrado de A lição
com direção de Margarida Peixoto, em 2010