O homem e a mancha

O homem e a mancha

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

DOIS IRMÃOS


São várias as dificuldades de transpor uma obra de ficção de uma linguagem para outra - o que Haroldo de Campos chama de "transcriação", já que "transporta-se + cria-se" uma nova obra, que trará elementos significantes originais da obra "de partida" acrescidos de elementos novos, decorrentes da diferente materialidade da obra "de chegada". O cinema e a televisão são habitués dessas transcriações, quando trazem para a linguagem audiovisual romances, contos, textos teatrais e até poemas, que transformam em imagens em movimento. Nem é preciso entrar na discussão das grandes diferenças que existem entre adaptar um romance como Dona Flor e seus dois maridos para o cinema ou para o teatro, por exemplo, já que elas são tantas que tomariam muito espaço. O fato é que existe uma incompreensão generalizada não apenas da dificuldade de uma transposição fidelíssima ao original literário, mas principalmente da desnecessidade de ser feita, já que, como escrevi acima, trata-se de linguagens diferentes, que utilizam meios diferentes para expressar um mesmo conteúdo. Pode-se dizer que o nível da semântica (no caso de uma adaptação que de alguma forma utilize o material ficcional original mantendo, na medida do possível, o que alguns poderiam chamar de essência temática) tem mais possibilidade de ser preservado, ao posto que o nível da sintaxe vai variar imensamente, já que uma coisa é ter em suas mãos um livro de 200 páginas, infinito na imageria que carrega em potência, pois palavras no papel, como simples sinais gráficos, não têm significado a priori (excetuando-se a poesia concreta, por exemplo); outra coisa bem diferente é extrair desse mesmo livro uma imageria delimitada no tempo e no espaço: um filme de 2 horas ou uma minissérie de 10 capítulos. Fãs de histórias em quadrinhos, por exemplo, seguidamente reclamam da pouca fidelidade a uma graphic novel quando é transposta para o cinema: e vejam que, neste caso, até que há alguma semelhança sintática, pensando na visualidade que caracteriza HQs e filmes.
Não li o romance Dois irmãos, de Milton Hatoum, o que é uma pena. Pelo que já assisti da minissérie produzida pela Rede Globo de Televisão, certamente teria muito prazer em ler essa premiada narrativa. Portanto, o que importa para mim, e, se houvesse justiça e entendimento do que é uma transcriação, importaria para todos que assistem a minissérie, é o impacto que a obra audiovisual dirigida por Luiz Fernando Carvalho tem em si, independentemente de maior ou menor fidelidade literária. Parte-se do pressuposto de que seria impossível transpor literalmente o romance de Hatoum para o audiovisual (e a quem interessaria tal proeza? O próprio autor não suportaria tal coisa). Assim, a adaptação em 10 capítulos foi preparada por Maria Camargo, que (suponho) encadeou acontecimentos significativos do livro de Hatoum em uma forma tal que necessitasse das imagens captadas por Luiz Fernando Carvalho para compor uma outra obra. Então, há: o livro de Hatoum, que deu origem ao roteiro de Maria Camargo, que traz Luiz Fernando Carvalho como orquestrador das imagens que serão vivificadas a partir dos corpos de inúmeros atores e figurantes (Cauã Reymond, Antônio Fagundes, Eliane Giardini, etc.) e do trabalho cenográfico, fotográfico, dos figurinos, da trilha sonora, da maquiagem, efeitos especiais e outras tantas especialidades do fazer fílmico.
Pesando na balança virtual, é possível ver a discrepância: de um lado, a criação artística de um solitário autor, que contribui com Dois irmãos como impulso original da minissérie. De outro lado, o trabalho de talvez centenas de profissionais, muitos deles artistas, outros técnicos, que constroem algo desvinculado do romance e ao mesmo tempo umbilicalmente ligado a ele. É coerente esperar que a minissérie seja igual ao livro?
O termo "textocentrismo" foi cunhado para fazer referência a um tipo de teatro que se fez (e ainda se faz em muitas ocasiões) durante a maior parte da história do teatro, considerando o início dela por volta do século V a.C, quando os gregos criaram o teatro como espetáculo. Desde a época de Sófocles, havia a figura central do dramaturgo, que fornecia o material em torno do qual seria montado o espetáculo. A Idade Média fugiu bastante desse esquema textocêntrico, mas que retornou com força a partir do século XVI. Em tempo: textocentrismo é um termo autoexplicativo, o "texto no centro". Até a metade do século XX - com algumas exceções, certamente -, o teatro como arte dependente da exposição das ideias do dramaturgo era a prática mais frequente. Tal textocentrismo apenas começa a ser remexido no final do século XIX, com o que se costuma chamar de nascimento da figura do encenador, quando uma concepção cênica poderia ousar dizer coisas com os elementos próprios da linguagem do Teatro, e não mais apenas com a linguagem literária.
Então, o ponto que defendo é que a recusa em reconhecer a força da obra dirigida por Luiz Fernando Carvalho é fruto da herança textocentrista, que preconceituosamente imagina que o valor da palavra no papel é superior aos artistas que se expõem com seus corpos e que concretizam no mundo as ideias e imagens antes apenas imaginadas pelo leitor. É como se fosse menos nobre, parecem dizer, mesmo sem que saibam que o dizem. 
Paralelo a isso, existe de fato o gosto pessoal, e cada um de nós tem o direito e a possibilidade de exercer suas preferências em todas as áreas que lhe aprouver. O que tem sido escrito sobre a minissérie Dois irmãos é que soa pretensiosa, desde sua abertura operística, passando pelas atuações exageradas, pelo uso de filtros e (pasmem) pela excessiva beleza das imagens. Discordo de quase tudo, exceto pela atuação um pouquinho além da conta de Juliana Paes, em alguns momentos de desespero de sua personagem. De resto, esse mesmo derramamento emocional que aparece em várias outras personagens configura um perfeito casamento com a forma pela qual Carvalho compõe sua ópera amazonense. Há uma tragicidade inerente às escolhas visuais, sinto como se assistisse a um filme de Luchino Visconti, às vezes. A fotografia (muito além do uso de filtros) traz enquadramentos e movimentos de câmera espetaculares, e faz escolhas brilhantes na maneira de iluminar as cenas. Por outro lado, a fragmentação da narrativa, com a introdução de flashbacks, só confundirá o espectador que se acostumou a assistir novelas enquanto faz a janta ou vai ao banheiro. Tenho certeza de que não é esse o público alvo de Dois irmãos. Por que televisão tem que ser popularesca? Onde está escrito que a pobreza artística é um mérito da programação televisiva? Porque ao se afirmar que a minissérie é excessivamente sofisticada, afirma-se pelo avesso que o público alvo da televisão não o é, redundando assim em que só se oferecessem programas em que a atenção deve ser dividida entre mil outros afazeres domésticos. E por fim: por que um livro como o de Milton Hatoum deve esperar de seu leitor uma atenção concentrada, no silêncio de um cômodo, e sua transcriação audiovisual não mereceria essa equivalência? Defendo totalmente as escolhas estéticas de toda a equipe da minissérie. É uma obra marcante, sem dúvida alguma, rigorosa artisticamente, e não decepciona aos admiradores do trabalho de Carvalho. Sou um deles, assim com há quem prefira Jorge Fernando e Wolf Maya como diretores.
Por fim: o filósofo francês Alain (pseudônimo de Émile-Auguste Chartier) escreve em Vinte lições sobre as Belas Artes que a significação de um poema não reside inteiramente naquilo que se se poderia explicar dele em prosa, há algo muito mais poderoso, um sentido que abarca outro sentido; um sentido inexpressável a não ser pelo poema. As imagens de Dois irmãos expressam algo que está além das palavras de Milton Hatoum, e que com elas compõe uma nova obra de arte.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

TEATRO EM PORTO ALEGRE: parte 6- OS DRAMATURGOS

O prêmio de Melhor Dramaturgia, concedido pela Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre, foi instituído a partir de 2005, consagrando espetáculos adultos e para público infanto-juvenil através, respectivamente, dos prêmios Açorianos e Tibicuera. A necessidade de destacar autores que se dedicassem à escrita para a cena era reconhecida pela classe artística teatral há bastante tempo, e felizmente foi minimizada com essa premiação. São os seguintes os vencedores dos prêmios Açorianos e Tibicuera de Melhor Dramaturgia, desde 2005:

PRÊMIO AÇORIANOS DE MELHOR DRAMATURGIA EM 2016
DIONES CAMARGO e MARCOS CONTRERAS
por PARQUE DE DIVERSÕES

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PRÊMIO TIBICUERA DE MELHOR DRAMATURGIA EM 2016
LÚ ENDRESS
por ANDARILHO

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 PRÊMIO AÇORIANOS DE MELHOR DRAMATURGIA EM 2015
ANDERSON MOREIRA SALES
por LUJIN


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 PRÊMIO TIBICUERA DE MELHOR DRAMATURGIA EM 2015
GRUPO CERCO
por PULI PULÁ


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PRÊMIO AÇORIANOS DE MELHOR DRAMATURGIA EM 2014
FERNANDO KIKE BARBOSA
por PEQUENAS VIOLÊNCIAS- SILENCIOSAS E COTIDIANAS

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PRÊMIO TIBICUERA DE MELHOR DRAMATURGIA EM 2014
RICARDO ZIGOMÁTICO, DANIEL COLIN e GUADALUPE CASAL
por FRANKY/FRANKENSTEIN: UM DIVERTIDO CONTO DE TERROR SOBRE AMIZADE


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 PRÊMIO AÇORIANOS DE MELHOR DRAMATURGIA EM 2013
TRIBO DE ATUADORES ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ
por MEDEIA VOZES 


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 PRÊMIO TIBICUERA DE MELHOR DRAMATURGIA EM 2013
VIVIANE JUGUERO
por QUAQUARELA 


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  PRÊMIO AÇORIANOS DE MELHOR DRAMATURGIA EM 2012
DIONES CAMARGO
por OS PLAGIÁRIOS- UMA ADULTERAÇÃO FICCIONAL SOBRE NELSON RODRIGUES


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PRÊMIO TIBICUERA DE MELHOR DRAMATURGIA EM 2012
PLÍNIO MARCOS RODRIGUES
por FÁBULAS EM 4 TEMPOS OU O FABULOSO LA FONTAINE

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PRÊMIO AÇORIANOS DE MELHOR DRAMATURGIA EM 2011
PAULO BALARDIM
por A TECELÃ


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 PRÊMIO TIBICUERA DE MELHOR DRAMATURGIA EM 2011
FÁBIO CASTILHOS
por O BAÚ- LEMBRANÇAS E BRINCANÇAS


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PRÊMIO AÇORIANOS DE MELHOR DRAMATURGIA EM 2010
PATRÍCIA FAGUNDES e GRUPO
por CLUBE DO FRACASSO


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 PRÊMIO TIBICUERA DE MELHOR DRAMATURGIA EM 2010
ROBERTO OLIVEIRA
por A ROUPA NOVA DO REI


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  PRÊMIO AÇORIANOS DE MELHOR DRAMATURGIA EM 2009
CELSO ZANINI, ELISA HEIDRICH, ISANDRIA FERMIANO, MARINA KERBER, 
MIRAH LALINE e RODRIGO FIATT
por O SOBRADO


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PRÊMIO TIBICUERA DE MELHOR DRAMATURGIA EM 2009
GUSTAVO FINKLER
por HERLÓI O HERÓI


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 PRÊMIO AÇORIANOS DE MELHOR DRAMATURGIA EM 2008
FELIPE VIEIRA DE GALISTEO e DANIEL COLIN
por A VIDA SEXUAL DOS MACACOS


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PRÊMIO TIBICUERA DE MELHOR DRAMATURGIA EM 2008
DANIEL COLIN
por JOGO DA MEMÓRIA


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 PRÊMIO AÇORIANOS DE MELHOR DRAMATURGIA EM 2007
DANIELA CARMONA
por CLOWNSSICOS


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 PRÊMIO TIBICUERA DE MELHOR DRAMATURGIA EM 2007
JORGE FURTADO
por PEDRO MALAZARTE E A ARARA GIGANTE


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 PRÊMIO AÇORIANOS DE MELHOR DRAMATURGIA EM 2006
MANOELA SAWITZKI
por CALAMIDADE


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PRÊMIO TIBICUERA DE MELHOR DRAMATURGIA EM 2006
DILMAR MESSIAS
por O HIPNOTIZADOR DE JACARÉS


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PRÊMIO AÇORIANOS DE MELHOR DRAMATURGIA EM 2005
JULIO CONTE
por O REI DA ESCÓRIA


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 PRÊMIO TIBICUERA DE MELHOR DRAMATURGIA EM 2005
HERMES BERNARDI JR.
por PÉ DE SAPATO