O homem e a mancha

O homem e a mancha

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Pequenas violências silenciosas e cotidianas

Um espetáculo que empurra os espectadores em direção a uma nova forma de sensorialidade, na qual são privilegiadas fundamentalmente a visão fragmentária de corpos e a escuta atenta de estilhaços de pensamentos. Uma experiência estética desafiadora e original, que exige de seus testemunhantes um abandono às tradicionais formas de se assistir teatro. Pequenas violências silenciosas e cotidianas impõe-se como uma das mais ousadas construções cênicas do nosso teatro que já presenciei, que nos entrega - com seu ritmo ágil e absolutamente preciso, beirando tecnicamente a perfeição -, uma espécie de odisseia marginal, na qual conseguimos identificar uma linha condutora principal, que envolve o planejamento e a execução de um atentado a bomba em um ônibus, e uma série de linhas paralelas/convergentes, em que figuras mais ou menos silenciosas, mais ou menos preconceituosas, mais ou menos fracassadas, deixam entrever suas ideias de mundo em fluxos narrativos que se sucedem.
Apesar da originalidade da proposta do encenador e dramaturgo Fernando Kike Barbosa, identifico afinidades artísticas entre esse seu espetáculo e trabalhos da companhia teatral paulistana Club Noir, comandada por Roberto Alvim. Alvim esteve neste 2013 no Porto Alegre em Cena, com sua trilogia Peep Classic Ésquilo, na qual encenou, em versões pocket (entre 25 e 30 minutos cada), todas as sete peças daquele que é considerado o pai da tragédia. Em comum com a experiência de Alvim, está o uso da iluminação como elemento fundamental da encenação. Se na trilogia grega a iluminação era a mesma nas três encenações (uma lâmpada fluorescente ao fundo do palco, que iluminava a cena e os atores apenas através do recurso do "contra", eliminando totalmente as expressões faciais e transformando os atores em silhuetas estáticas e falantes), causando na audiência um perturbador estado de irrealidade, na montagem dirigida por Kike, as lanternas manipuladas pelo elenco, em rapidíssimas transformações de cores e de ângulos, deixam entrever uma narrativa oposta em dinâmica, pois nos surpreende continuamente, durante seus pouco menos de 60 minutos. Pequenas violências silenciosas e cotidianas me remeteu à estética cinematográfica, com seus cortes rápidos e isolamento de suas figuras em nichos, e, principalmente, aos quadrinhos, pelo inusitado suceder de enquadramentos (ditados pelo ângulo das lanternas em relação aos corpos que iluminam) e pelo uso das cores (vermelho, azul, verde, amarelo), que auxiliam na identificação das figuras que vemos.
O elenco é incrível, e cumpre suas dificílimas tarefas de maneira admirável. Cassiano Ranzolin, Janaina Pelizzon, Liane Venturella, Rafael Guerra e Rodrigo Mello se desdobram em várias personas, risíveis, ridículas, patéticas, assustadoras. Ainda que o foco da encenação não seja totalmente no trabalho vocal dos atores (como era na trilogia de Alvim), em Pequenas violências há belos exemplos do potencial que a voz humana tem no teatro, e mais especialmente no teatro contemporâneo, que muitas vezes é equivocadamente relegado apenas a um teatro de imagens e de tecnologias, mas que tem, em seus melhores momentos, deixado aos atores o protagonismo absoluto (não é a voz humana uma das mais perfeitas e infinitas tecnologias?).
Dentre inúmeras cenas inesquecíveis, algumas retumbam com maior intensidade: Cassiano Ranzolin e seu olhar assustador. Liane Venturella e sua mulher com o cachorro. Janaina Pelizzon e sua narrativa da sedução. Um espetáculo imperdível, criado no Teatro de Arena de Porto Alegre, e que merece toda a atenção possível. Em janeiro, eles estarão se apresentando em Recife (PE), e retornam a Porto Alegre ainda no primeiro mês do ano, na Sala Álvaro Moreyra. Esse é um daqueles espetáculos dos quais se pode dizer com todas as letras: não perca.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Azul é a cor mais quente

Um filme excepcional, vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cinema de Cannes 2013 nas categorias Diretor (o tunisiano Abdellatif Kechiche) e Atriz (Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux: pela primeira vez na história do festival, o prêmio de atuação foi dividido). Em quase três horas de projeção, Azul é a cor mais quente, inspirado livremente na graphic novel homônima da francesa Julie Maroh nos proporciona um encantador mergulho no amadurecimento de uma jovem de 17 anos (Adèle), que se descobre atraída por meninas após uma primeira relação sexual não muito satisfatória com um rapaz. Sua experiência com uma garota a faz se apaixonar por Emma, estudante de Belas Artes alguns anos mais velha, que usa os cabelos tingidos de azul, e que marcará sua vida a partir dali.

O trabalho das duas protagonistas é realmente impressionante: a autenticidade e a sensibilidade de suas atuações são irresistíveis. O roteiro abre mão de grandes reviravoltas, investindo tudo nas situações banais, no cotidiano, com poucas (e perturbadoras) oportunidades de provocar terremotos emocionais. E é isso que torna o filme tão verdadeiro e as situações tão lindamente singelas: a identificação que sentimos com as dúvidas, as alegrias, as intensidades, as frustrações que são partes intrínsecas de relacionamentos amorosos. As duas moças se conhecem, se conquistam em um jogo delicado de sedução, depois consumam fisicamente seu amor em uma longa cena de sexo (quase explícito) que dura nove minutos, e que acabou sendo o motivo principal pelo qual o filme é tão falado por aí. Mas essa cena não é o clímax do filme, dentro da profundidade que ele oferece: uma cena em que duas mulheres lindas, perfeitas, se entregam ao prazer tem, no contexto de Azul é a cor mais quente, semelhante força dramática que a cena em que as mesmas duas fazem um piquenique e se olham, transmitindo toda a eletricidade da conquista. 
É um dos grandes filmes do ano, ou dos últimos anos. Belo, comovente, sincero, e indispensável.
 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Capitão Phillips

Paul Greengrass pode não ser um cineasta muito conhecido para a grande maioria dos frequentadores de cinema, mas ele é um dos mais eficientes comandantes de filmes de ação surgidos nos últimos tempos. Não aquele tipo de filme de ação baseado unicamente em explosões e tiros, subgênero que teve seu auge nos anos 1980 e 1990, com produções que tinham Arnold Schwarzenegger, Sylvester Stallone, Jean-Claude Van Damme e mais uma matilha de heróis rosnadores e de mira incrivelmente precisa como protagonistas. É claro que o explode-explode deixou herdeiros, e hoje em dia Vin Diesel e Jason Statham passaram para as fileiras da frente na nunca superada cartilha do "tiro pelo tiro", algo como a "arte pela arte", onde o motivo para atirar não conta, basta que ele exista, pois se auto justifica.
Greengrass dirigiu A supremacia Bourne (2004) e O ultimato Bourne (2007), a segunda e a terceira partes da "trilogia Bourne", filmes baseados nos romances do escritor Robert Ludlum, que traziam como protagonista o ator Matt Damon interpretando um ex-agente secreto que perde a memória e passa a ser caçado tanto pelos ex-companheiros quanto pelos antigos e atuais inimigos. Dois filmes impecáveis no que se refere à carga de adrenalina, de criatividade nas soluções fílmicas e no ritmo frenético imprimido às sequências de pancadaria. Greengrass trouxe de volta a verossimilhança aos filmes de ação, que naquele momento, graças aos excessos, provocava frequentemente um riso de descrença e/ou um bocejo de tédio, dada a quantidade inacreditável de projéteis que as armas dos antigos heróis de ação pareciam dispor nos tambores de suas pistolas, metralhadoras e similares.
Com Voo United 93, de 2006, Greengrass encena um emocionante e angustiante petardo, a reconstituição quase documental dos incidentes que levaram ao sequestro e à destruição do voo 93, sequestrado por terroristas no Onze de Setembro de 2001, no qual os passageiros lutaram até o fim, corpo a corpo, com os raptores, até o aniquilamento de todos em virtude da colisão contra o solo, na Pennsylvania.
Este Capitão Phillips (2013) novamente baseia-se em fatos reais, ocorridos em 2009, quando o capitão de um navio de carga, Rich Phillips, passando com sua tripulação ao longo da costa da Somália, é abordado por um grupo de piratas somalis, e tem sua embarcação sequestrada. O pior acontece quando Phillips é levado junto com os piratas em um pequena baleeira (barco de pequenas proporções), e passa horas de intenso sofrimento, até ser resgatado pelas tropas americanas.
O filme é de uma tensão lancinante, nas suas quase duas horas e meia de ação. Greengrass constrói um filme incrível, muito bem filmado e editado, o supra sumo do gênero. E ainda traz Tom Hanks em uma linda atuação, especialmente naquela que é sua última cena no filme, já tendo sido resgatado pelos SEALS americanos, e em estado de choque após o desenlace trágico e sangrento. De verdade.