O homem e a mancha

O homem e a mancha

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

BRECHÓ DA HUMANIDADE

Uma das primeiras coisas que fizeram com que eu me conectasse com o Brechó da humanidade, o espetáculo que tem direção de Liane Venturella e atuação de Rudinei Morales, foi a frase que seu Bibico, a personagem vivenciada por Rudinei, pronuncia por duas vezes (com uma tradução ligeiramente diferente desta que agora escrevo): "Todos os sofrimentos podem ser suportados quando conseguimos transformá-los em histórias, ou contar uma história sobre eles". Esta frase, que seu Bibico traz como um de seus lemas, é de autoria da escritora dinamarquesa Karen Blixen (que usava o pseudônimo de Isak Dinesen), e se tornou largamente conhecida quando a filósofa judia alemã Hannah Arendt a utilizou como epígrafe de um dos capítulos de seu livro A condição humana. Pois bem, esta epígrafe de Blixen via Arendt também foi utilizada por mim quando encenamos o espetáculo Os homens do triângulo rosa, em 2014, que conta a história dos homossexuais perseguidos pelo nazismo nos anos que antecedem a Segunda Guerra Mundial, na Alemanha: lá está, no programa do espetáculo, a frase que lembra que a memória é nossa aliada na tentativa de fazer com que atrocidades como essas não se repitam.
Mas não, talvez o que tenha feito com que eu me conectasse com o Brechó da humanidade pela primeira vez tenha sido a acolhida que recebemos nós, os propositalmente poucos espectadores, talvez 12, que aguardávamos o horário marcado para o início da "apresentação", em frente a um sobrado com visíveis sinais de decadência, na Rua Fernando Machado, Centro Histórico de Porto Alegre. Decadência essa perfeitamente ajustada à temática do Brechó da humanidade: a memória, esse conceito amplo, transdisciplinar e não facilmente definível. A memória, essa ruína que tentamos reconstruir, com a certeza prévia de que, se não desaba totalmente, pelo menos se mostra precária, provisória, enjambrada, para dar conta do vivido. A acolhida de seu Bibico, que perguntava os nomes dos que ali estávamos, cumprimentando com um aperto de mão e fazendo um esforço para memorizá-los, já que os usaria ao se dirigir a nós por diversas vezes, ao longo da próxima hora. Nessa espécie de "aquecimento" antes da encenação propriamente dita (ou pelo menos a parte que pode ser melhor programada, já que não depende da improvisação constante à qual o ator se propõe, interagindo com cada um de forma diferente, fazendo uma ou outra pergunta, reconhecendo um e outro), já aparece uma das marcas da encenação, que surge e desaparece em diversos momentos: a metalinguagem através do borramento entre a figura ficcional (o velho de 76 anos) e a figura "real" (o ator de 30 e poucos anos). Eis que, eventualmente, seu Bibico traz uma informação que faz parte do repertório do ator Rudinei Morales, e a incorpora à improvisação, afirmando que o Rudinei é o produtor do espetáculo e lhe havia contado tal coisa. Aliás, essa é outra situação esquiva: é ou não um espetáculo o que vemos? Na primeira camada, sim, é, já que há um ator, teatralmente caracterizado com um velho. Na segunda camada, me pergunto se seu Bibico está recebendo os "espectadores" para um espetáculo ou para uma visita com chá de jasmim em sua casa. Seu Bibico também é um ator, então? Tudo indica que sim, pois já acomodados no pequeno quarto que serve como espaço cênico, no terceiro pavimento do sobrado, ouvimos algumas vezes de Bibico/Rudinei que o espetáculo já vai começar.
E o que começa, enfim? Brechó da humanidade é chamado pelos autores de "teatro de objetos". Para mim, um nível mais sofisticado de teatro de objetos, pois não se detém apenas na sua antropomorfização, quando uma campainha e um sino, por exemplo, podem significar as - respectivamente aguda e grave - vozes dos filósofos Hannah Arendt e Martin Heidegger, duas das figuras que serão mencionadas na narrativa. Certamente nos ajuda, enquanto espectadores, o estímulo sonoro diferenciado que anuncia a alternância nos diálogos entre Arendt e Heidegger, já que acompanhamos assim com maior facilidade as posições de cada um deles. Em outros momentos entretanto, menos explícitos, mas ainda assim suficientemente claros para entendermos a relação entre significante e significado, temos pregos retorcidos que podem ser tanto simpatizantes do nazismo quanto as massas que viram as costas para o horror que se aproximava, na Alemanha de 1933. Ou os prendedores de roupa que, em sua indiferenciação característica, significam os corpos das vítimas assassinadas pelo Terceiro Reich. Rudinei não faz apenas teatro de objetos, mas teatro "com objetos", já que as ações de manipulação que se sucedem nem sempre ilustram exemplarmente o que o ator fala. Pode haver espaço para o contraponto entre imagem e narração, em que o estranhamento de determinado objeto, não necessariamente associado à situação contada, abre outras possibilidades interpretativas não previstas pela encenação. 
O risco de estereotipar uma figura como seu Bibico, um velho, na atuação de um jovem ator, é latente. Seria muito fácil escorregar na composição estilo Gepeto, com um velhinho bonzinho lembrando histórias. O trunfo é que Rudinei e Liane recheiam seu Bibico com alguma acidez, bom humor e senso político, o que dá à personagem ficcional muito carisma e verossimilhança. Não esquecemos que é teatro, pois lá do fundo Rudinei nos olha e nos interpela com um ótimo senso improvisacional. Premiado com o Açorianos de Melhor Ator de 2016, Rudinei nos entrega um trabalho em que não faz falta aquela famosa "grande cena", em que o ator explode em nossa direção. Mas nos conquista com sua composição atorial totalmente coerente, sutil, tecnicamente detalhada e, como escrevi antes, carismática.
Sobre a dramaturgia, entendo todo o conjunto, desde a abordagem na calçada até o momento em que nos despedimos da casa, na porta da rua. Há, nesse sentido, uma desproporção entre a narrativa da relação Arendt-Heidegger e a rápida menção ao assassinato do jornalista Vladimir Herzog em 1975, pela ditadura militar brasileira. Suspeito eu que vem por aí um Brechó da humanidade 2, em que a história de Herzog, ou de qualquer outra vítima de desumanização, será contada com objetos. Já quero assistir.

sábado, 3 de dezembro de 2016

EU E CAIO FERNANDO ABREU

Caio Fernando Abreu (1948-1996) destacou-se, em sua produção literária, como contista, romancista e dramaturgo, além da profissão paralela de jornalista, que exerceu ao longo de sua carreira. Como autor de teatro, provavelmente a função menos conhecida por seu público leitor, em virtude de seu meio privilegiado de divulgação - o palco -, é que Caio entrou em minha vida, me aproximando desse que é um dos escritores mais cultuados do século XX brasileiro. Tive a satisfação de atuar em alguns espetáculos encenados a partir de textos dramáticos ou da adaptação de contos de Caio em quatro ocasiões, uma das quais estreará em 6 de julho de 2017, no Theatro São Pedro de Porto Alegre, com direção de Luís Artur Nunes: Caio do céu.
Em 2004, Margarida Peixoto encenou, como seu projeto de graduação em Direção Teatral no DAD (Departamento de Arte Dramática) da UFRGS, A maldição do Vale Negro, texto que Caio escreveu em parceria com seu grande amigo e parceiro de arte Luís Artur Nunes. Nessa divertidíssima homenagem ao melodrama, que Caio e Luís Artur localizaram na França de meados do século XIX, interpretei o Conde Maurício de Belmont, uma personagem ambígua em sua divisão entre atitudes mesquinhas e um coração generoso. Era delicioso extrapolar os limites do razoável ao encarnar o Conde Maurício, em uma composição física arrebatada e "procopiana":

Eu, o Conde Maurício de Belmont de A maldição do Vale Negro

Em fevereiro de 2006, na ocasião da efeméride de 10 anos de morte de Caio, Luciano Alabarse encenou uma adaptação para o palco do livro mais conhecido do autor nascido em Santiago (RS): o volume de contos Morangos mofados. Já o espetáculo Morangos mofados era a transposição cênica de alguns dos contos do livro, dos quais a foto abaixo é uma imagem de Caixinha de música:

Eu, o Homem de Morangos mofados

No mesmo ano de 2006, e também sob a direção de Luciano Alabarse, um dos grandes amigos que Caio teve ao longo da vida, tive a transformadora oportunidade de encenar seu último texto teatral, O homem e a mancha. Este tour de force para um ator (trata-se de um solo, em que o mesmo ator interpreta todas as cinco personagens: Ator, Miguel Quesada, Homem da Mancha, Dom Quixote e Cavaleiro da Triste Figura) rendeu-me o primeiro Prêmio Açorianos de Melhor Ator, e representou um mergulho profundo em meu trabalho de atuação, já que durante 2 horas de encenação eu precisava me desdobrar em todas as personagens que iam e viam, cruzando a narrativa fragmentária do texto de Caio, sempre com o fio condutor da figura enlouquecida do Dom Quixote de Miguel de Cervantes (na versão muito especial e provocadora de Caio, é claro):
Eu, como uma das muitas caras em O homem e a mancha

Minha mais recente incursão pela obra de Caio vem de uma forma muito especial. A convite de Deborah Finocchiaro, estarei em cena em Caio do céu, espetáculo que traz fragmentos de vários obras de Caio, com direção de Luís Artur Nunes, um dos grandes encenadores nascidos no Rio Grande do Sul e que, durante os anos 1970 e 1980, liderou o Grupo de Teatro Província, importante coletivo teatral de Porto Alegre. A partir de 1990, Luís Artur transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde foi professor da UFRJ, e continuou a encenar inúmeros espetáculos de grande repercussão artística. Em Caio do céu, minha participação será por meio de imagens projetadas, as quais foram gravadas com direção de fotografia de Bruno Polidoro, som de Leco Petersen, e montagem de Daniel Dode: 
Eu, um dos Companheiros em Caio do céu