O homem e a mancha

O homem e a mancha

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A OBRA DE ARTE NA ERA DA INCOMUNICABILIDADE TÉTRICA

O título deste post faz pastiche de um dos textos mais importantes do século XX, escrito pelo alemão Walter Benjamin: A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. O texto de Benjamin tornou-se uma das grandes referências para pensar a obra de arte não mais como exemplar único, mas como produto copiável e, por este motivo, banalizável - sem dúvida, a marca de nossa era pós-industrial. A famosa "aura" que La Gioconda ou A última ceia têm, por seu caráter de peça única, são problematizados com a disseminação da gravura (antes, a prensa já antecipara essa possibilidade de produzir quantos volumes se quisesse de um mesmo livro), do cinema e, ainda mais em nossos dias, da facilidade de digitalização e transmissão dessa imagem ou conteúdo de forma infinita. 
O nada menos que genial cineasta austríaco Michael Haneke começou a dirigir filmes para a televisão austríaca na década de 1970, mas estreou no cinema de fato apenas em 1989. Desde então, produziu pouco mais de dez filmes para a telona, sempre se superando e fascinando com sua tão particular maneira de lidar com o tempo e com o espaço ficcionais. Pois bem, Michael Haneke produziu uma Trilogia da Incomunicabilidade, composta por seus três primeiros longas para cinema: O sétimo continente (1989), O vídeo de Benny (1992) e 71 fragmentos de uma cronologia do acaso (1994).
 
O sétimo continente faz uso de um número reduzidíssimo de personagens - praticamente apenas o pai, a mãe e a filha pequena - para contar uma história inspirada em um fato real, lido por Haneke em um jornal nos anos 1980. O cineasta, também autor do roteiro, imagina o que teria levado uma família a cometer suicídio em sua casa, não sem antes destruir a golpes de machado e pé-de-cabra e cortes de tesoura, toda a mobília e quaisquer outros objetos que possuíam, restando apenas uma TV. Essa misteriosa motivação suicida é apresentada de forma brilhante no filme, através da crescente mecanização das vidas dessas personagens, e do fracasso na manutenção da rotina cotidiana, que vai se imiscuindo aos poucos. Por exemplo: os dez primeiros minutos do filme mostram a rotina do acordar de manhã dessa família, porém sem mostrar os rostos das personagens. Os enquadramentos estáticos privilegiam a ação sem destacar os agentes, o que provoca inesperadas associações no espectador. A destruição selvagem de todos os bens de consumo da família é perturbadora, e o filme nos deixa boquiabertos com a violência latente que cada um de nós tem dentro de si, na luta por agir civilizadamente.
 
O vídeo de Benny tem como protagonista o Benny do título, de cerca da 15 anos de idade, um jovem fascinado pelas possibilidades do registro de imagens através de uma câmera. Quando comete um assassinato, que é devidamente registrado por sua câmera, e cuja motivação havia sido apenas o "saber como é" matar alguém, seus pais se veem envolvidos e dispostos a qualquer coisa para encobrir o crime do filho adolescente. Para isso, retrocedem em sua civilidade, passando por cima da culpa e de um comportamento razoável para quem vive em comunidade.
 
71 fragmentos de uma cronologia do acaso tem Juliette Binoche como uma das atrizes, e se constitui em um daqueles filmes-mosaico, que outros cineastas tão bem construíram, como Robert Altman (O jogador, Short cuts), e Alejandro Gonzalez Iñárritu (Amores brutos, 21 gramas). Acompanhando a vida de algumas personagens que se cruzam em um evento comum que os une por um breve momento (uma explosão de violência que não vou detalhar para não tirar a surpresa de quem ainda não viu o filme), o filme é, a exemplo dos outros dois anteriormente citados, uma angustiante narrativa que traz como principal mote as dificuldades do ser humano contemporâneo de viver em uma sociedade constantemente esvaziada de sentido pelo acúmulo de consumo(s). A tal da incomunicabilidade é uma palavra prêt-à-porter, ou seja, é usada indiscrimidamente, na falta de palavras mais precisas, para explicar essa febre que queima o Homem contemporâneo. A trilogia de Haneke é exemplar para mostrar que o cinema pode socar fundo nossos estômagos, coisa que o cineasta faria cada vez melhor com os seus filmes seguintes, como Caché, A professora de piano, Código desconhecidoFunny games- Violência gratuita, A fita branca e Amor
 

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Fassbinder- O pior tirano é o amor

Rainer Werner Fassbinder foi homem de teatro e de cinema - muito mais de cinema, dado o legado fílmico remanescente de sua curta vida (1945-1982), composto de algumas dezenas de produções. O novo espetáculo do Coletivo Confúcios e Confusos elegeu essa contraditória e arrebatada figura como tema de seu novo espetáculo, Fassbinder- O pior tirano é o amor, que já indica, desde o título, um flerte com o melodrama e com a literatura pulp. Tal inclinação é coerente tanto com a vida de Fassbinder, que, como se diz, "daria um livro", tal o número de situações com potencial dramático que viveu; e, além disso, coerente com a dramaturgia de Diones Camargo, que se encarregou do texto do espetáculo. Diones vem de algumas experiências em que esteve em primeiro plano o lado melô da vida, seja em Os plagiários (que trabalhava sobre a vida de Nelson Rodrigues), seja em Hotel Fuck (que trabalhava especificamente sobre a literatura pulp e o cinema seu herdeiro). Nesses dois últimos citados, percebia-se o gosto de Diones pela frase feita, pela tirada de efeito, pela construção algo artificial dos diálogos, criados para causar uma nostalgia de algo já lido/ouvido em alguma sessão de Corujão na TV ou brochura de papel amarelado. Aqui, em Fassbinder, trabalhando sob as orientações do diretor Clóvis Massa, que lhe encomendou o texto da peça, há uma amenização no tom satírico, mas é inegável que o estilo do dramaturgo está lá. A multiplicidade de personagens e a superposição de planos narrativos permanece como estratégia da construção textual, com a vantagem, desta vez, de uma maior clareza na passagem de planos. Poderia ser dito que há menos experimentação e mais objetivação na tarefa.
A encenação procura incorporar elementos da linguagem cinematográfica, sem que se restrinja a simples projeções de imagens, embora elas aconteçam em alguns momentos. Há, por exemplo, o recurso ao enquadramento das figuras em substitutos de quadros fílmicos: a cenografia de Rodrigo Shalako, composta de painéis móveis que simulam paredes e aberturas de porta e janelas, recorta os corpos dos atores em planos americanos, ou planos detalhe. Há, também, uma espécie de fusão de imagens, efeito alcançado quando sobrepõem-se, em um mesmo espaço da cena, dois diferentes planos narrativos, como por exemplo, na cena em que as personagens do filme As lágrimas amargas de Petra von Kant rompem sua relação simultaneamente ao rompimento "real" de Fassbinder com um de seus amantes, com um resultado bastante teatral e bem executado.
Aparentemente há uma intenção de emular procedimentos brechtianos, a partir do uso das canções que aparecem de quando em quando no decorrer da encenação. Essa intenção é até mesmo verbalizada por uma das personagens, em dado momento da peça, bastante en passant, quando diz algo como "interrompemos a peça e cantamos, de um jeito brechtiano". Não pode ser dito o mesmo sobre as famosas projeções de títulos que Brecht apresentava aos seus espectadores, que tinham uma função de antecipar os acontecimentos que se seguiriam. Na peça dirigida por Clóvis, os títulos dos atos (três) e alguns textos colocados entre aspas (que, suponho, sejam de Fassbinder) têm uma função mais poética que desdramatizante. Também não é possível atribuir uma função distanciadora para o repartimento da personagem R. W. Fassbinder entre três diferentes atores. Essa escolha deve-se muito mais a uma lógica de passagem do tempo (realista) ou a uma questão de economia de produção do que uma tentativa de estranhamento. Estranho, no sentido brechtiano, seria uma das atrizes atuar como Fassbinder.
O elenco é versátil e bem preparado para transitar entre as diferentes figuras. Luciano Pieper, Frederico Vittola e Marcos Contreras vivem três fases distintas de Fassbinder com uma curiosa estratégia: à medida que a personagem envelhece, ela cresce em estatura e ganha pelos no rosto. Assim, Luciano, o mais baixo dos três atores, aparece de rosto barbeado, Frederico, o intermediário, com um bigode, e Marcos, o mais alto, com barba inteira. Não saberia dizer se essa metáfora foi intencionalmente construída, em direção ao crescente reconhecimento de Fassbinder como artista superior. Mesmo assim, e Clóvis Massa como estudioso da teoria da recepção bem o sabe, é incontrolável o que o espectador lê em um espetáculo que lhe é apresentado. Portanto...
Rodrigo Shalako, Viviana Schames, Renata de Lélis e Martina Fröhlich completam o elenco em atuações convincentes e bem dirigidas. Martina, especialmente, em função de seu preparo para o canto, se destaca positivamente, encontrando, em minha opinião, o melhor exemplo do que eu esperaria de uma atuação "germânica" e quase brechtiana. Deve ainda ser mencionado o excelente trabalho de Antônio Rabadan na criação das dezenas de peças do figurino, auxiliado por Kethyene Sperhacke.
Registro ainda, em 2014, um fato que me chama a atenção, e que é bem vindo: o número de espetáculos, em Porto Alegre, que trazem como centro narrativo das encenações os relacionamentos homossexuais. Tivemos Anjo da guarda, de Paulo Guerra, depois, Os homens do triângulo rosa, da Cia. Teatro ao Quadrado, e agora, Fassbinder- O pior tirano é o amor. Os três espetáculos fogem do viés cômico que seguidamente se vê nos palcos - que é bem vindo e tem o seu espaço, ressalte-se. Mas assistir a espetáculos que tragam personagens homossexuais construídos densamente e com respeito é um mérito da nossa produção local.

domingo, 23 de novembro de 2014

Um dia assassinaram minha memória


Adriana Cavarero, em seu excelente livro Vozes plurais- Filosofia da expressão vocal, reconstitui um acontecimento importantíssimo para a História não apenas da arte, mas para a História da civilização, e que ela chama de desvocalização do logos. Trocando em miúdos, e sintetizando barbaramente a ideia da autora, tão bem desenvolvida em sua escrita, essa desvocalização do logos foi a irremediável e irreversível troca (ou abandono, melhor dizendo) da expressão vocal como unicidade, ou seja, a ideia de que cada ser nascido sob o sol tem uma voz única, que a exemplo de uma impressão digital, é inimitável e irrepetível. Cada voz é um universo. Pois bem, ao diminuir a importância da voz como expressão e transmissão de conhecimento - valorizando, em substituição, a palavra escrita -, a Humanidade perdeu algo precioso, e que apenas o som produzido pela carne, pelas entranhas do Homem, é capaz de dar. A palavra escrita, seja sobre a plataforma que for, seja sob o alfabeto que for, é sempre uma transcriação; é signo, não significado. A palavra escrita tem sentido, sim, mas não o significado que o som vocal possibilitaria. 
Toda essa divagação me ocorre após ter assistido Um dia assassinaram minha memória, espetáculo teatral dirigido por Decio Antunes e Carlota Albuquerque. Não que a voz tenha uma importância tão fundamental no espetáculo, apesar de que as palavras pronunciadas pelas "intérpretes-colaboradoras" sejam afiadas e carregadas de sentidos que se conjugam perfeitamente com a ambientação cênica, uma casa meio vazia, meio abandonada, criada ficcionalmente no espaço do Museu Júlio de Castilhos. O que me fez elucubrar foi, em um primeiro momento, as sonoridades que invadem os ouvidos dos espectadores, criadas por Ricardo Pavão. A importância do som está diretamente ligada à ausência dele, e a alternância entre ambos enriquece a experiência. Em Um dia assassinaram minha memória, os espectadores são colocados em contato com o que de mais invasivo pode haver: o som que entra pelos nossos ouvidos, ao qual não podemos resistir, não podemos negar, não podemos ignorar. O videocentrismo, que substituiu a escuta no mundo moderno como forma de absorção do mundo, pode ser boicotado: basta virar o rosto a uma visão que nos enoja, ou fechar os olhos para o que nos assusta. O som nos invade sem clemência, nos agride. A imagem permanece no espaço, aloja-se na retina e lá permanece, a não ser que cortemos o contato fechando as pálpebras. Um cão atropelado à beira da estrada está lá, e lá ficará, até que alguém o recolha, ou que o tempo aja sobre ele; semanas, meses se passarão, enquanto a transformação lenta se efetua. O som do cão atropelado, o ganido surpreso e dolorido é único e fugaz: dura apenas um segundo, existe apenas no tempo. A imagem que dura no espaço, e o som que dura no tempo, são os elementos que formam a memória. A memória que impregna um museu, por exemplo (memória no espaço, diga-se de passagem, já que nesse tipo de museu expõem-se objetos, imóveis, isolados de seus contextos originais, mortos, de alguma forma). O som não é um elemento corriqueiro em um museu. O som do silêncio, sim.
Imagens e sons compõem o belo espetáculo da Jogo de Cena Companhia Teatral. Tudo é belo: figurinos, iluminação, ambientação cenográfica, atrizes. Tudo é carregado de obsessões. Fantasmas da memória, mulheres de várias idades têm fragmentos de suas vidas apresentadas, sem que, no entanto, se construa uma lógica aristotélica na narrativa. Como é praxe no teatro pós-dramático, o sentido se dá pelo acúmulo de signos, de sensações, atmosferas, imagens, sons. Identifica-se, por vezes, algumas figuras da dramaturgia universal, como a Mãe Coragem de Brecht, ou a Clitemnestra do mito grego, porém descontextualizadas e picotadas. De resto, é como se não estivéssemos ali, fôssemos testemunhas desses fantasmas, ainda que, em algumas ocasiões, esses fantasmas busquem interação conosco, os espectadores.
Um resultado rigoroso, que reforça a linha estilística de Decio Antunes como encenador, em que algumas de suas obsessões retornam mais uma vez à cena: as mulheres, a memória, o trágico, a dança-teatro. Desta vez, o resultado é bastante superior a Corte, de 2009, que constituiu a primeira parte da trilogia da qual Um dia assassinaram minha memória é o segundo momento. Lembrei-me de A casa, um belíssimo espetáculo dirigido por Decio, que guarda algumas semelhanças com este seu mais recente trabalho.
As mulheres que compõem esse mostruário fantasmático são intensas, inteiras, interiorizadas: Naiara Harry, Lurdes Eloy, Angela Spiazzi, Kaya Rodrigues e Renata Stein vagam pelos corredores, entram e saem de cômodos, mostram-se e escondem-se em recônditos que alternam luz e escuridão. Atuações delicadas, quase sempre contidas, invariavelmente repletas de verdade. Não foi possível, ao final da sessão que assisti, cumprimentar a equipe, vários dos quais com quem já trabalhei (Naiara, Lurdes, Angela, Decio e Carlota), pois uma nova sessão começaria em poucos minutos. Deixo, no entanto, meu abraço a todos pelo espetáculo tão especial. Parabéns!

sábado, 22 de novembro de 2014

OS HOMENS DO TRIÂNGULO ROSA: crítica de Fabio Prikladnicki

 
Pedro Delgado (como Tio Freddie) e Marcelo Ádams (como Max) integram o elenco da produção          
Foto: Luciane Pires Ferreira / Divulgação
 

Opinião: Peça "Os Homens do Triângulo Rosa" resgata potencial transgressor do amor

Espetáculo da Cia. Teatro ao Quadrado aborda perseguição nazista aos homossexuais

Por Fabio Prikladnicki (Jornal Zero Hora/Clic RBS)
 
Conhecida no cenário gaúcho por espetáculos com textos modernos que se valem de um humor sarcástico e também por suas montagens de Molière, a Cia. Teatro ao Quadrado dá um passo adiante com a peça Os Homens do Triângulo Rosa, que estreou no Theatro São Pedro e depois cumpriu temporada no Teatro Renascença, em Porto Alegre. Desta vez, trata-se de um espetáculo seriíssimo, abordando a perseguição aos homossexuais na Alemanha nazista.
O tema é pertinente por dois motivos. Um deles é o pouco conhecimento que se tem, ainda hoje, sobre este episódio histórico. O segundo é que os homossexuais são, atualmente, alvo de violência sistemática nas ruas do Brasil, como salientou a diretora Margarida Peixoto antes da sessão a que assisti no Teatro Renascença. Assim, esse teatro político no melhor sentido – belo e transformador – faz bem a Porto Alegre.
Max (Marcelo Ádams) mora com o bailarino Rudy (Gustavo Susin), mas ambos têm de fugir de Berlim quando o cerco nazista aperta. Em meio a suas desventuras, Max vai parar no campo de Dachau, onde encontra um novo amor, Horst (Frederico Vasques). Antes de chegar ao campo, Max convence os soldados de que é judeu – a um custo doloroso – e ganha um uniforme com a estrela de Davi amarela. Assim, consegue ser mais bem tratado do que Horst e os outros homossexuais do campo, que levam o triângulo rosa.
Cabe destacar as atuações de Marcelo Ádams e Gustavo Susin. O primeiro acerta o tom especialmente nos momentos de maior intensidade, em um desempenho mais nuançado do que demonstrou recentemente em A Vertigem dos Animais Antes do Abate, também exibida neste ano. E cresce na segunda parte. Susin revela-se um ator particularmente versátil, capaz de incorporar, a cada novo espetáculo, papéis bastante distintos entre si. Seu Rudy é delicado e adorável. Frederico Vasques fica um pouco atrás como Horst, protagonista ao lado de Max e personagem exigente em força de expressão. Em tudo, aparece o trabalho seguro da direção de Margarida.
É impossível não se emocionar com o trecho em que Max e Horst fazem amor sem se tocar em um curtíssimo intervalo no trabalho forçado no campo. Valendo-se apenas da fala, eles redescobrem o potencial transgressor do amor erótico. Interpretada de forma extremamente sensível e respeitosa por Ádams e Vasques, a cena é uma das mais memoráveis já apresentadas nos palcos porto-alegrenses nos últimos tempos.
Uma nota deve ser feita sobre o texto da peça. O programa do espetáculo entregue aos espectadores informa que a dramaturgia foi "adaptada" de três fontes: Bent (1979), peça de Martin Sherman (levada ao cinema, com o mesmo título, em 1997), e os livros Triângulo Rosa – Um Homossexual no Campo de Concentração Nazista, de Rudolf Brazda e Jean-Luc Schwab; e Eu, Pierre Seel, Deportado Homossexual, de Pierre Seel.
Trata-se, no entanto, de uma montagem de Bent, do início ao fim, com pequenos acréscimos. Há uma intervenção maior no papel de Greta, a travesti amiga de Max, que canta Streets of Berlin no início da peça original e do filme. Em Os Homens do Triângulo Rosa, Greta (representada com graça e vigor por Gisela Habeyche) pontua todo o espetáculo com canções de Kurt Weill em letras recriadas por Marcelo Ádams e acompanhamento da ótima pianista Elda Pires, que também executa passagens instrumentais. O recurso de estender a presença de Greta até o fim torna-se complicado porque, em pouco tempo, ela perde sua função dramatúrgica. Sua figura misteriosa e extravagante combina mais com a festa da vida em Berlim antes da perseguição nazista, na primeira parte, e menos com a tragédia crescente do meio para o final.
A Cia. Teatro ao Quadrado se reinventa com um tipo de trabalho cada vez mais necessário na cena gaúcha: construído, acima de tudo, a partir de uma ideia clara. Fica demonstrado que o grupo tinha um projeto sólido em mente, que soube traduzir em uma cena estimulante e – artigo raro no mercado – socialmente relevante.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Sobre uma montagem necessária, útil e imperdível: Os homens do triângulo rosa

O texto que se segue foi escrito por Igor Simões, que é ator, professor de História, Teoria e Crítica da Arte na Uergs (Universidade Estadual do Rio Grande do Sul), e Doutorando em História, Teoria e Crítica da Arte na UFRGS. Após assistir Os homens do triângulo rosa, ele nos brindou com seu lindo texto e com uma aguçada mirada sobre nosso espetáculo:
 
"Sobre uma montagem necessária, útil e imperdível: 
Os homens do triângulo rosa
 
Os tempos lá fora andam sombrios. Pessoas defendem aquilo que afeta a existência do outro. Tempos assim evocam sombras. Tempos assim evocam medo. Mas há um lugar. Um lugar desvalorizado, por vezes. Criticado, reconstruído, morto, reaparecido. Estou falando da história. A história como um lugar que montamos em nossas vidas a partir de nossas crenças. O historiador, afinal, é um de nós. O teatro sempre foi o espaço profano da história. Apreende-a sem ceder aos seus caprichos. Há a história, há a estória - sua natureza mais própria - e há o teatro. Em alguns momentos, o teatro pode servir como dispositivo. Dispositivo da história para olhar não para aquele lugar distante e empoeirado mas para os dias que nos envolvem, e algumas vezes, engolfam. O espetáculo Os homens do triângulo rosa, da Cia. Teatro ao Quadrado é um desses momentos em que cotidiano, história e arte se encontram e promovem mergulhos no íntimo e no coletivo. No personagem do ator Marcelo Ádams moram concomitantemente o passado da perseguição nazista e o contemporâneo de um Brasil (e de um mundo) que faz vistas grossas ao amor entre pessoas do mesmo sexo e que inacreditavelmente levanta, a cada mudança de calendário, mais bandeiras que apontam para a discriminação, para o gueto, para o ouvido surdo ao mundo que vem daquilo que me faz diferente do outro e que, assim, na diferença, me faz humano. Mas não só. Os dias recentes têm tornado invisíveis a potência do outro em ser aquilo que ele é: outro. As urnas reveladas nos últimos pleitos revelaram isso ao se verificar a enorme quantidade de votos de homens e mulheres que defendem a supressão do outro. O outro em tudo que ele tem de aventura e desdém, fascínio e distanciamento. O trabalho da Cia. Teatro ao Quadrado é uma golfada de ar, amor, generosidade e cuidado para com aquilo que nos faz mais gente. Para o amor e seus desvãos, para intolerância e sua incapacidade de conter a represa do que é vivo. A iluminação cria atmosfera que abraça toda ação. A cantora do cabaré pré-perseguição reunida ao piano desafiam o correto sem traí-lo e optam por rasgar os conflitos e lembrar- nos de que tudo é representação. Este tudo a que me refiro inclui a guerra e as disputas em toda sua selvageria e humanidade. O conjunto de atores é de um equilíbrio raro. Cada um deles está em cena inteiro, defendendo uma história difícil de ser contada pelas dificuldades dramatúrgicas que impõe. Manter atento um público que durante muitos minutos se vê diante de dois volumes feitos de pedra e cinza simetricamente colocados criando uma limitação intencional à representação enquanto dois atores se movem entre eles exige corpo, presença, voz em ato de vida. Nada disso falta, por vezes, sobra. A direção de Margarida Peixoto acerta ao mergulhar o público no cascalho cotidiano do campo de concentração e deixar que ele reviva cada segundo do errar cotidianamente sem saída mas em busca de uma liberdade possível. Enquanto isso as sutilezas de cada um dos personagens são operadas com cuidado, delicadeza e atenção e se mostram em inteireza de humanidade e compartilhamento de experiências entre o estar em um determinado contexto histórico, temporal e ainda, aquilo que se pode fazer para que ele não determine sozinho aquilo do que somos feitos. A prisão nazista do espetáculo é uma prisão para a liberdade. Quanto mais encarceradas estão as figuras que se despem diante do público mais se tornam evidentes suas estratégias para serem livres em seu sexo, em seus amores, em seus temores e em sua insistência no resistir. Há espaços de luminosidade plena na encenação. Logo na primeira parte, os personagens gays, de amor livre e distante dos padrões do casamento gay pré-Aids se encontram no amor que ecoa das vozes de Gustavo Susin e Marcelo Ádams ao entoar Somewhere over the rainbow. Hoje a canção pode soar clichê da representação do gay americanizado. Na encenação ela é um último facho de luz em um amor que se sabe ao fim e que encontra ali, em meio a uma selva (ou bosque?) de intolerâncias, o último lugar possível para ser inteiro, genuíno, humano.
Em uma agenda de espetáculos que tende à comédia que atrai público, tocar em temas como este é importante. Mais: é necessário. A cenografia acerta ao preocupar-se mais com atmosfera do que com a funcionalidade. As imagens que se constroem diante dos olhos do público são potentes e completamente dependentes da exatidão dos atores que, capitaneados por Marcelo Ádams, que aqui interpreta o protagonista, se dividem em momentos de inteireza e fé cênica.
Enfim, por este e por muitos outros motivos que ecoam após assistir a montagem de Os  homens do triângulo rosa e que só se tornarão palavras após um tempo necessário, que toda boa arte exige, é indispensável que o público prestigie, assista e perceba o quanto de humano se perdeu ao se escolher o caminho da surdez, da cegueira e da indiferença a tudo aquilo que ao fim e ao cabo, como diz o protagonista 'é só amor (...) por que está errado?'."