O homem e a mancha

O homem e a mancha

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Sobre uma montagem necessária, útil e imperdível: Os homens do triângulo rosa

O texto que se segue foi escrito por Igor Simões, que é ator, professor de História, Teoria e Crítica da Arte na Uergs (Universidade Estadual do Rio Grande do Sul), e Doutorando em História, Teoria e Crítica da Arte na UFRGS. Após assistir Os homens do triângulo rosa, ele nos brindou com seu lindo texto e com uma aguçada mirada sobre nosso espetáculo:
 
"Sobre uma montagem necessária, útil e imperdível: 
Os homens do triângulo rosa
 
Os tempos lá fora andam sombrios. Pessoas defendem aquilo que afeta a existência do outro. Tempos assim evocam sombras. Tempos assim evocam medo. Mas há um lugar. Um lugar desvalorizado, por vezes. Criticado, reconstruído, morto, reaparecido. Estou falando da história. A história como um lugar que montamos em nossas vidas a partir de nossas crenças. O historiador, afinal, é um de nós. O teatro sempre foi o espaço profano da história. Apreende-a sem ceder aos seus caprichos. Há a história, há a estória - sua natureza mais própria - e há o teatro. Em alguns momentos, o teatro pode servir como dispositivo. Dispositivo da história para olhar não para aquele lugar distante e empoeirado mas para os dias que nos envolvem, e algumas vezes, engolfam. O espetáculo Os homens do triângulo rosa, da Cia. Teatro ao Quadrado é um desses momentos em que cotidiano, história e arte se encontram e promovem mergulhos no íntimo e no coletivo. No personagem do ator Marcelo Ádams moram concomitantemente o passado da perseguição nazista e o contemporâneo de um Brasil (e de um mundo) que faz vistas grossas ao amor entre pessoas do mesmo sexo e que inacreditavelmente levanta, a cada mudança de calendário, mais bandeiras que apontam para a discriminação, para o gueto, para o ouvido surdo ao mundo que vem daquilo que me faz diferente do outro e que, assim, na diferença, me faz humano. Mas não só. Os dias recentes têm tornado invisíveis a potência do outro em ser aquilo que ele é: outro. As urnas reveladas nos últimos pleitos revelaram isso ao se verificar a enorme quantidade de votos de homens e mulheres que defendem a supressão do outro. O outro em tudo que ele tem de aventura e desdém, fascínio e distanciamento. O trabalho da Cia. Teatro ao Quadrado é uma golfada de ar, amor, generosidade e cuidado para com aquilo que nos faz mais gente. Para o amor e seus desvãos, para intolerância e sua incapacidade de conter a represa do que é vivo. A iluminação cria atmosfera que abraça toda ação. A cantora do cabaré pré-perseguição reunida ao piano desafiam o correto sem traí-lo e optam por rasgar os conflitos e lembrar- nos de que tudo é representação. Este tudo a que me refiro inclui a guerra e as disputas em toda sua selvageria e humanidade. O conjunto de atores é de um equilíbrio raro. Cada um deles está em cena inteiro, defendendo uma história difícil de ser contada pelas dificuldades dramatúrgicas que impõe. Manter atento um público que durante muitos minutos se vê diante de dois volumes feitos de pedra e cinza simetricamente colocados criando uma limitação intencional à representação enquanto dois atores se movem entre eles exige corpo, presença, voz em ato de vida. Nada disso falta, por vezes, sobra. A direção de Margarida Peixoto acerta ao mergulhar o público no cascalho cotidiano do campo de concentração e deixar que ele reviva cada segundo do errar cotidianamente sem saída mas em busca de uma liberdade possível. Enquanto isso as sutilezas de cada um dos personagens são operadas com cuidado, delicadeza e atenção e se mostram em inteireza de humanidade e compartilhamento de experiências entre o estar em um determinado contexto histórico, temporal e ainda, aquilo que se pode fazer para que ele não determine sozinho aquilo do que somos feitos. A prisão nazista do espetáculo é uma prisão para a liberdade. Quanto mais encarceradas estão as figuras que se despem diante do público mais se tornam evidentes suas estratégias para serem livres em seu sexo, em seus amores, em seus temores e em sua insistência no resistir. Há espaços de luminosidade plena na encenação. Logo na primeira parte, os personagens gays, de amor livre e distante dos padrões do casamento gay pré-Aids se encontram no amor que ecoa das vozes de Gustavo Susin e Marcelo Ádams ao entoar Somewhere over the rainbow. Hoje a canção pode soar clichê da representação do gay americanizado. Na encenação ela é um último facho de luz em um amor que se sabe ao fim e que encontra ali, em meio a uma selva (ou bosque?) de intolerâncias, o último lugar possível para ser inteiro, genuíno, humano.
Em uma agenda de espetáculos que tende à comédia que atrai público, tocar em temas como este é importante. Mais: é necessário. A cenografia acerta ao preocupar-se mais com atmosfera do que com a funcionalidade. As imagens que se constroem diante dos olhos do público são potentes e completamente dependentes da exatidão dos atores que, capitaneados por Marcelo Ádams, que aqui interpreta o protagonista, se dividem em momentos de inteireza e fé cênica.
Enfim, por este e por muitos outros motivos que ecoam após assistir a montagem de Os  homens do triângulo rosa e que só se tornarão palavras após um tempo necessário, que toda boa arte exige, é indispensável que o público prestigie, assista e perceba o quanto de humano se perdeu ao se escolher o caminho da surdez, da cegueira e da indiferença a tudo aquilo que ao fim e ao cabo, como diz o protagonista 'é só amor (...) por que está errado?'."

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