O homem e a mancha

O homem e a mancha

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A OBRA DE ARTE NA ERA DA INCOMUNICABILIDADE TÉTRICA

O título deste post faz pastiche de um dos textos mais importantes do século XX, escrito pelo alemão Walter Benjamin: A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. O texto de Benjamin tornou-se uma das grandes referências para pensar a obra de arte não mais como exemplar único, mas como produto copiável e, por este motivo, banalizável - sem dúvida, a marca de nossa era pós-industrial. A famosa "aura" que La Gioconda ou A última ceia têm, por seu caráter de peça única, são problematizados com a disseminação da gravura (antes, a prensa já antecipara essa possibilidade de produzir quantos volumes se quisesse de um mesmo livro), do cinema e, ainda mais em nossos dias, da facilidade de digitalização e transmissão dessa imagem ou conteúdo de forma infinita. 
O nada menos que genial cineasta austríaco Michael Haneke começou a dirigir filmes para a televisão austríaca na década de 1970, mas estreou no cinema de fato apenas em 1989. Desde então, produziu pouco mais de dez filmes para a telona, sempre se superando e fascinando com sua tão particular maneira de lidar com o tempo e com o espaço ficcionais. Pois bem, Michael Haneke produziu uma Trilogia da Incomunicabilidade, composta por seus três primeiros longas para cinema: O sétimo continente (1989), O vídeo de Benny (1992) e 71 fragmentos de uma cronologia do acaso (1994).
 
O sétimo continente faz uso de um número reduzidíssimo de personagens - praticamente apenas o pai, a mãe e a filha pequena - para contar uma história inspirada em um fato real, lido por Haneke em um jornal nos anos 1980. O cineasta, também autor do roteiro, imagina o que teria levado uma família a cometer suicídio em sua casa, não sem antes destruir a golpes de machado e pé-de-cabra e cortes de tesoura, toda a mobília e quaisquer outros objetos que possuíam, restando apenas uma TV. Essa misteriosa motivação suicida é apresentada de forma brilhante no filme, através da crescente mecanização das vidas dessas personagens, e do fracasso na manutenção da rotina cotidiana, que vai se imiscuindo aos poucos. Por exemplo: os dez primeiros minutos do filme mostram a rotina do acordar de manhã dessa família, porém sem mostrar os rostos das personagens. Os enquadramentos estáticos privilegiam a ação sem destacar os agentes, o que provoca inesperadas associações no espectador. A destruição selvagem de todos os bens de consumo da família é perturbadora, e o filme nos deixa boquiabertos com a violência latente que cada um de nós tem dentro de si, na luta por agir civilizadamente.
 
O vídeo de Benny tem como protagonista o Benny do título, de cerca da 15 anos de idade, um jovem fascinado pelas possibilidades do registro de imagens através de uma câmera. Quando comete um assassinato, que é devidamente registrado por sua câmera, e cuja motivação havia sido apenas o "saber como é" matar alguém, seus pais se veem envolvidos e dispostos a qualquer coisa para encobrir o crime do filho adolescente. Para isso, retrocedem em sua civilidade, passando por cima da culpa e de um comportamento razoável para quem vive em comunidade.
 
71 fragmentos de uma cronologia do acaso tem Juliette Binoche como uma das atrizes, e se constitui em um daqueles filmes-mosaico, que outros cineastas tão bem construíram, como Robert Altman (O jogador, Short cuts), e Alejandro Gonzalez Iñárritu (Amores brutos, 21 gramas). Acompanhando a vida de algumas personagens que se cruzam em um evento comum que os une por um breve momento (uma explosão de violência que não vou detalhar para não tirar a surpresa de quem ainda não viu o filme), o filme é, a exemplo dos outros dois anteriormente citados, uma angustiante narrativa que traz como principal mote as dificuldades do ser humano contemporâneo de viver em uma sociedade constantemente esvaziada de sentido pelo acúmulo de consumo(s). A tal da incomunicabilidade é uma palavra prêt-à-porter, ou seja, é usada indiscrimidamente, na falta de palavras mais precisas, para explicar essa febre que queima o Homem contemporâneo. A trilogia de Haneke é exemplar para mostrar que o cinema pode socar fundo nossos estômagos, coisa que o cineasta faria cada vez melhor com os seus filmes seguintes, como Caché, A professora de piano, Código desconhecidoFunny games- Violência gratuita, A fita branca e Amor
 

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