O homem e a mancha

O homem e a mancha

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Fassbinder- O pior tirano é o amor

Rainer Werner Fassbinder foi homem de teatro e de cinema - muito mais de cinema, dado o legado fílmico remanescente de sua curta vida (1945-1982), composto de algumas dezenas de produções. O novo espetáculo do Coletivo Confúcios e Confusos elegeu essa contraditória e arrebatada figura como tema de seu novo espetáculo, Fassbinder- O pior tirano é o amor, que já indica, desde o título, um flerte com o melodrama e com a literatura pulp. Tal inclinação é coerente tanto com a vida de Fassbinder, que, como se diz, "daria um livro", tal o número de situações com potencial dramático que viveu; e, além disso, coerente com a dramaturgia de Diones Camargo, que se encarregou do texto do espetáculo. Diones vem de algumas experiências em que esteve em primeiro plano o lado melô da vida, seja em Os plagiários (que trabalhava sobre a vida de Nelson Rodrigues), seja em Hotel Fuck (que trabalhava especificamente sobre a literatura pulp e o cinema seu herdeiro). Nesses dois últimos citados, percebia-se o gosto de Diones pela frase feita, pela tirada de efeito, pela construção algo artificial dos diálogos, criados para causar uma nostalgia de algo já lido/ouvido em alguma sessão de Corujão na TV ou brochura de papel amarelado. Aqui, em Fassbinder, trabalhando sob as orientações do diretor Clóvis Massa, que lhe encomendou o texto da peça, há uma amenização no tom satírico, mas é inegável que o estilo do dramaturgo está lá. A multiplicidade de personagens e a superposição de planos narrativos permanece como estratégia da construção textual, com a vantagem, desta vez, de uma maior clareza na passagem de planos. Poderia ser dito que há menos experimentação e mais objetivação na tarefa.
A encenação procura incorporar elementos da linguagem cinematográfica, sem que se restrinja a simples projeções de imagens, embora elas aconteçam em alguns momentos. Há, por exemplo, o recurso ao enquadramento das figuras em substitutos de quadros fílmicos: a cenografia de Rodrigo Shalako, composta de painéis móveis que simulam paredes e aberturas de porta e janelas, recorta os corpos dos atores em planos americanos, ou planos detalhe. Há, também, uma espécie de fusão de imagens, efeito alcançado quando sobrepõem-se, em um mesmo espaço da cena, dois diferentes planos narrativos, como por exemplo, na cena em que as personagens do filme As lágrimas amargas de Petra von Kant rompem sua relação simultaneamente ao rompimento "real" de Fassbinder com um de seus amantes, com um resultado bastante teatral e bem executado.
Aparentemente há uma intenção de emular procedimentos brechtianos, a partir do uso das canções que aparecem de quando em quando no decorrer da encenação. Essa intenção é até mesmo verbalizada por uma das personagens, em dado momento da peça, bastante en passant, quando diz algo como "interrompemos a peça e cantamos, de um jeito brechtiano". Não pode ser dito o mesmo sobre as famosas projeções de títulos que Brecht apresentava aos seus espectadores, que tinham uma função de antecipar os acontecimentos que se seguiriam. Na peça dirigida por Clóvis, os títulos dos atos (três) e alguns textos colocados entre aspas (que, suponho, sejam de Fassbinder) têm uma função mais poética que desdramatizante. Também não é possível atribuir uma função distanciadora para o repartimento da personagem R. W. Fassbinder entre três diferentes atores. Essa escolha deve-se muito mais a uma lógica de passagem do tempo (realista) ou a uma questão de economia de produção do que uma tentativa de estranhamento. Estranho, no sentido brechtiano, seria uma das atrizes atuar como Fassbinder.
O elenco é versátil e bem preparado para transitar entre as diferentes figuras. Luciano Pieper, Frederico Vittola e Marcos Contreras vivem três fases distintas de Fassbinder com uma curiosa estratégia: à medida que a personagem envelhece, ela cresce em estatura e ganha pelos no rosto. Assim, Luciano, o mais baixo dos três atores, aparece de rosto barbeado, Frederico, o intermediário, com um bigode, e Marcos, o mais alto, com barba inteira. Não saberia dizer se essa metáfora foi intencionalmente construída, em direção ao crescente reconhecimento de Fassbinder como artista superior. Mesmo assim, e Clóvis Massa como estudioso da teoria da recepção bem o sabe, é incontrolável o que o espectador lê em um espetáculo que lhe é apresentado. Portanto...
Rodrigo Shalako, Viviana Schames, Renata de Lélis e Martina Fröhlich completam o elenco em atuações convincentes e bem dirigidas. Martina, especialmente, em função de seu preparo para o canto, se destaca positivamente, encontrando, em minha opinião, o melhor exemplo do que eu esperaria de uma atuação "germânica" e quase brechtiana. Deve ainda ser mencionado o excelente trabalho de Antônio Rabadan na criação das dezenas de peças do figurino, auxiliado por Kethyene Sperhacke.
Registro ainda, em 2014, um fato que me chama a atenção, e que é bem vindo: o número de espetáculos, em Porto Alegre, que trazem como centro narrativo das encenações os relacionamentos homossexuais. Tivemos Anjo da guarda, de Paulo Guerra, depois, Os homens do triângulo rosa, da Cia. Teatro ao Quadrado, e agora, Fassbinder- O pior tirano é o amor. Os três espetáculos fogem do viés cômico que seguidamente se vê nos palcos - que é bem vindo e tem o seu espaço, ressalte-se. Mas assistir a espetáculos que tragam personagens homossexuais construídos densamente e com respeito é um mérito da nossa produção local.

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