O homem e a mancha

O homem e a mancha

domingo, 31 de agosto de 2014

OS HOMENS DO TRIÂNGULO ROSA: RUDOLF BRAZDA, O ÚLTIMO SOBREVIVENTE



Rudolf Brazda (1913-2011) foi o último sobrevivente dos triângulos rosa. Apesar da terrível experiência vivida no campo de concentração de Buchenwald, onde permaneceu de 1942 a 1945, ele viveu incríveis 98 anos, contando sua história no livro Triângulo rosa: um homossexual no campo de concentração nazista, escrito em colaboração com Jean-Luc Schwab. Nessa entrevista, Brazda relata algumas passagens de seu confinamento, que foram utilizadas na criação do espetáculo OS HOMENS DO TRIÂNGULO ROSA, com estreia marcada para o dia 10 de outubro, no Theatro São Pedro, em Porto Alegre.
Rudolf Brazda, aos 18 anos
 
Rudolf Brazda, em 1937
 
Rudolf Brazda, com mais de 90 anos
 

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

OS HOMENS DO TRIÂNGULO ROSA - FLAGRANTES DE ENSAIO

A talentosa fotógrafa Luciane Pires Ferreira é a responsável pelas imagens do novo espetáculo da Cia Teatro ao Quadrado, com estreia marcada para 10 de outubro, no Theatro São Pedro. OS HOMENS DO TRIÂNGULO ROSA é o 11º espetáculo da companhia, e traz como tema principal a perseguição aos homossexuais durante os anos 1930 e 1940 na Alemanha nazista.
Contemplado com o Prêmio Myriam Muniz de Teatro 2013 para sua montagem, concedido pela Funarte, nosso novo trabalho adapta algumas obras literárias para estruturar sua dramaturgia: Bent, de Martin Sherman, Triângulo rosa- um homossexual no campo de concentração nazista, de Rudolf Brazda e Jean-Luc Schwab, e Eu, Pierre Seel, deportado homossexual, de Pierre Seel.






 

domingo, 17 de agosto de 2014

A VIDA DELE

A equipe se repete, com poucas alterações, desde o nascimento do ensemble: o In.co.mo.de-te, surgido em 2009 com O gordo e o magro vão para o céu - a primeira das incursões no universo dramático de Paul Auster -, se notabiliza por trabalhar com elencos pequenos e que atuam em forma de rodízio. O ator de um espetáculo será o diretor do próximo, e vice versa. Desta vez, com a convocação de Ramiro Silveira para assumir a direção, agrega-se (espero eu) um novo elemento aos que já faziam parte do In.co.mo.de-te. Nessa terceira parte da Trilogia Auster, retorna o investimento maior no humor non sense, visto em larga medida em O gordo e o magro..., e que havia sido substituído por outro tipo de humor (como chamar o que acontecia em DentroFora, a segunda parte da trilogia?), mais "sofisticado". Em A vida dele, identifico algumas influências explícitas na estética do espetáculo. A primeira delas é dos quadrinhos, representada não apenas nas movimentações dos atores, nas ações por eles praticadas e na iluminação, mas até mesmo na proposta cenográfica, que literalmente enquadra os atores através das quatro molduras-janela, proporcionando um recorte típico das HQs - faltaram apenas os "balões" com as falas das personagens para ser ainda mais quadrinístico. Outra homenagem é aos palhaços clássicos: desde os narizes postiços que as três figuras principais usam, mas principalmente na relação que se estabelece entre Peter (Nelson Diniz) e Verde (Liane Venturella), que remete seguidamente à dupla de clowns Branco e Augusto.
Quanto à dramaturgia, inspirada em Paul Auster, mas creditada a Michelle Ferreira, aponta para a primeira fase do dramaturgo inglês Harold Pinter, especialmente a peça The dumb waiter, de 1957 (às vezes traduzida como O serviço ou O monta-cargas), por sua situação de dúvida inicial em relação aos objetivos das personagens na ação em que se veem envolvidos: aguardar pelo que fazer (interessante volta ao tema da primeira peça da trilogia do grupo, que emulava o Esperando Godot de Beckett). Não posso deixar de mencionar o brilhante filme alemão A vida dos outros (2006), de Florian Henckel von Donnersmarck, que parece ter inspirado o título do espetáculo, em que um agente alemão passava a vida espionando pessoas, na Alemanha Oriental comunista.
Finalmente, e como um arremate às influências anteriores que identifiquei na estética do espetáculo, cito o filme Dick Tracy (1990), dirigido por Warren Beatty, que aproveitava as personagens criadas pelo quadrinista norte-americano Chester Gould em 1931: nelas, o detetive particular Dick Tracy combatia o crime e vários vilões extravagantes. A vida dele não trabalha com o conceito de vilão, mas a atmosfera noir, reforçada pela iluminação e pela trilha sonora, além da presença da figura do detetive particular e de espiões em cena, remete ao mesmo universo. O uso das próteses nasais pelo trio de atores para desnaturalizar suas feições me lembrou a incrível maquiagem de caracterização criada para o filme de Beatty, em que os devaneios de Chester Gould eram concretizados com muito látex e acessórios do tipo.
Por tudo isso, e pela excelência na execução, A vida dele é um espetáculo de imensa qualidade e refinamento visual. Os três atores (Carlos Ramiro Fensterseifer, Liane Venturella e Nelson Diniz) estão inteiros, e jogam entre si maravilhosamente. É, no fundo, uma grande brincadeira (como deveria ser, sempre, o teatro, mesmo quando se faz uma tragédia), em que a plateia se diverte muito. A atuação de Liane Venturella é absolutamente hipnótica, e ela me orgulha muito sendo uma artista nossa, generosa e humilde no convívio conosco, seus colegas de profissão. Nunca faço esse tipo de prognóstico, porque as comissões de prêmios têm me surpreendido tanto nos últimos anos pelos equívocos cometidos, que qualquer tentativa de antecipação é temível; mas preciso escrever que acredito ser difícil, para qualquer outra atriz em 2014, superar o trabalho que Liane desenvolve em A vida dele. Um domínio técnico do clown e da linguagem do espetáculo irrepreensíveis, um trabalho vocal primoroso, um timing cômico suíço. Também sei que Liane não atua pensando em prêmios, assim como eu: tudo é consequência da dedicação ao trabalho e da entrega ao nosso ofício. Às vezes isso é percebido pelos outros, outras vezes, não. A gente segue o nosso caminho, que não se restringe a isso.
Muitos parabéns à equipe do espetáculo: Ramiro Silveira pelo amor ao teatralismo e pela concepção precisa, Michelle Ferreira pela linha dramática flexível que concede ao trabalho dos atores o foco principal, Cláudia de Bem pela iluminação perfeita e pela cenografia, Álvaro Rosacosta pela excelente trilha sonora, Carlos Ramiro pelos figurinos, e por aí vai. Não tem como não recomendar: assista.

domingo, 3 de agosto de 2014

CAVALOS NO CINEMA

Dois grandes filmes, que têm em comum alguns elementos. O mais óbvio é a referência a cavalos: A noite dos desesperados (1969), que é o título um tanto inadequado que recebeu no Brasil o longa They shoot horses, don't they? (em livre tradução, algo como Eles sacrificam cavalos, não é?), dirigido por Sydney Pollack a partir da novela de Horace McCoy; e O cavalo de Turim (2011), do cineasta húngaro Béla Tarr. O que mais os aproxima? No filme norte-americano, a maior parte da ação acontece durante uma maratona de dança, na Califórnia de 1932, em plena Depressão. Dezenas de casais dançam pelo prêmio de 1500 dólares, durante semanas sem parar, desmoronando seus corpos e suas ilusões perante uma entusiasmada plateia que paga ingresso para ver os competidores lutarem pela vitória. Não faz lembrar um pouco os atuais reality shows televisivos?
O cavalo de Turim é um dos filmes mais belos e artisticamente rigorosos a que já assisti. Ambientado na Hungria "profunda" do final do século XIX, o filme tem como ponto de partida uma história real ocorrida com o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, em 1889: estava ele na cidade italiana de Turim quando presenciou um cocheiro espancando, em plena rua, um cavalo que se negava a andar, por cansaço. Vendo a agressão, Nietzsche aproximou-se do cavalo e empurrou o cocheiro, abraçando-se ao pescoço do animal e caindo no choro. Encontrado por um amigo, o filósofo foi levado para casa, onde permaneceu dois dias em completo silêncio, como que catatônico. Ao fim desse período, Nietzsche jamais voltou ao estado normal, permanecendo os seguintes dez anos de sua vida, até sua morte, demente e dependente da mãe.
A obra-prima de Béla Tarr cogita o que teria acontecido ao cavalo de Turim, que seria o detonador da crise nietzschiana. Em um fascinante exercício de ficção, o filme nos coloca frente a frente com três personagens: um pai de 58 anos, sua filha, e o cavalo, vivendo em uma paupérrima propriedade rural. Com quase 150 minutos de duração, em uma extraordinária fotografia em preto e branco, divididos em 30 planos-sequência que repetem, sob variados enquadramentos de câmera, o repetitivo cotidiano dessas três figuras, O cavalo de Turim é uma experiência inesquecível que fala sobre o tempo. E também sobre algo que o liga, de alguma forma, ao filme de Pollack: a crise advinda das péssimas condições no campo.