O homem e a mancha

O homem e a mancha

domingo, 19 de março de 2017

AS BRUXAS DE SALÉM À ESPANHOLA

Desde que cheguei em Madrid para meu estágio na RESAD (Real Escuela Superior de Arte Dramático), proporcionado pela bolsa de Doutorado-sanduíche que recebi da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior) através do PDSE (Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior), tenho estado mergulhado no Teatro como tema principal dos meus pensamentos. Além de estudar a teoria, não poderia deixar de ficar curioso com a prática daqui, saber um pouco sobre o que se está efetivamente colocando em cena. Assisti, nesses últimos dias, a quatro espetáculos bastante diferentes entre si, seja em temática, seja em recursos de produção.

Acima, imagem do espetáculo Las brujas de Salem, baseado na peça do norte-americano Arthur Miller, escrita em 1953. Esta montagem, assistida no Teatro Valle-Inclán, revelou-se bastante eficiente em trazer para nossos dias um texto que, quando escrito nos anos 1950, durante a vigência do chamado macartismo nos Estados Unidos, referia-se não explícita, mas bastante evidentemente, à prática de delação de comunistas "infiltrados" na sociedade norte-americana. A expressão macartismo deriva do sobrenome do senador Joseph McCarthy, que liderou uma espécie de cruzada contra a "ameaça vermelha" que poderia, acreditavam os histéricos fundamentalistas, fazer com que a União Soviética dominasse o mundo e acabasse com a liberdade planetária. (Um parêntese aqui é bem vindo. Melancólico para nós brasileiros é constatar que essa "caça às bruxas comunistas" não foi privilégio dos Estados Unidos, haja vista a desvairada ignorância de muitos que acreditam ser a esquerda um antro de perdição, identificando a simpatia com partidos desse espectro político com tudo que é ruim. Obviamente que não há santos nem na esquerda nem na direita, menos ainda no centro, mas o problema é a generalização, a intolerância às ideias diferentes e o medo injustificado da perda de uma suposta segurança econômica).
Arthur Miller fala dessa perseguição política que ocorria contemporaneamente à escrita de sua peça utilizando como espelho o que aconteceu na cidade de Salém, Massachusetts, EUA, no final do século XVII, quando várias mulheres e alguns homens foram acusados de bruxaria, resultando na execução de um homem. A encenação conta com ótimos recursos visuais, principalmente pela cenografia que vai sendo acrescida de novos elementos conforme avança a trama, utilizando bastante proveitosamente a ideia de cercamento físico e metafórico das personagens pelas "grades" (que se podem ver na imagem), ao mesmo tempo em que sugerem construções típicas como celeiros e igrejas. Se a cenografia e os figurinos extravasam a simples ideia de mimetismo, com a utilização, por exemplo, de figurinos decididamente contemporâneos ao nosso tempo para vestir as personagens do século XVII, a atuação do elenco busca, coerentemente, um registro em tons realistas, para assegurar a máxima verossimilhança às personagens criadas por Miller. A encenação, assim, opta por uma orientação aos atores no sentido emocional, sincero, obtendo muito bons resultados, facilitados pela sólida construção dramática do texto. Há um desvio nessa orientação atorial, entretanto, representado pelo ator que atua o principal inquisidor (que está na foto, à esquerda, sentado à mesa). Visivelmente vaidoso, aquele tipo de ator "de antigamente", com um pleno domínio de seus recursos vocais e da elocução do texto, e que, felizmente, adapta-se perfeitamente ao papel que defende, de um inquisidor igualmente vaidoso, o que faz com que a escolha desse ator seja perfeita para o que lhe é exigido. Talvez um olhar menos treinado nem perceba que ator e personagem estão como a mão e a luva em termos de concessão à vaidade, mas macaco velho não se engana com a banana.
O encenador Andrés Lima abre algum espaço para sua própria voz autoral, principalmente nas passagens de ato, quando são ditos, pelos atores, alguns textos não escritos por Miller, que comentam, de forma brechtiana, não apenas o caso da perseguição ocorrida em Salém, mas outros momentos da história em que houve perseguição à liberdade pela discordância de pensamento, de religião, e outras, sem esquecer da Guerra Civil Espanhola, ocorrida na década de 1930. No cômputo final, essas interferências são adequadas pois não apenas relativizam o que poderia ser encarado como um acontecimento bizarro ocorrido há mais de 300 anos, mas nos fazem perceber que ainda incorremos nos mesmos equívocos, diariamente e em todos os lugares.