O homem e a mancha

O homem e a mancha

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

CADARÇO DE SAPATO OU NINGUÉM ESTÁ ACIMA DA REDENÇÃO

CADARÇO DE SAPATO OU NINGUÉM ESTÁ ACIMA DA REDENÇÃO É UM DOS VÁRIOS ESPETÁCULOS QUE NESSES ÚLTIMOS MESES ABORDARAM, NO NOSSO ESTADO, A DRAMATURGIA DA PRECOCEMENTE FALECIDA DRAMATURGA INGLESA SARAH KANE, QUE SUICIDOU-SE EM 1999, AOS 28 ANOS DE IDADE. EU MESMO DIRIGI, COM A TURMA DE 6º SEMESTRE DO CURSO DE TEATRO- LICENCIATURA DA UERGS O ESPETÁCULO DESMONTAGEM, UMA VERSÃO DE PSICOSE 4:48, QUE FOI APRESENTADO NO MÊS PASSADO, EM MONTENEGRO. O DAD-UFRGS TAMBÉM APRESENTOU EM DEZEMBRO DOIS ESPETÁCULOS BASEADOS EM SARAH KANE.
TUDO ISSO PARA FALAR DO MAIS RECENTE TRABALHO DA "LEVA SARAH KANE", DIRIGIDO POR EDUARDO KRAEMER COM O TEATROFÍDICO. A ATORMENTADA DRAMATURGA NÃO É DE FÁCIL DIGESTÃO, PORQUE ABORDA INVARIAVELMENTE, EM SEUS ÚNICOS CINCO TEXTOS DRAMÁTICOS, TEMAS DUROS, CHOCANTES. A MORTE, A SOLIDÃO, O DESESPERO, A VIOLÊNCIA, SÃO APRESENTADOS EM DIÁLOGOS OU SOLILÓQUIOS CRUS, COM LINGUAGEM TRANSITANDO ENTRE O POÉTICO E O CHULO. A ENCENAÇÃO DO TEATROFÍDICO MIXA FRAGMENTOS DAS CINCO PEÇAS DE KANE, ACRESCIDOS DE TEXTOS ESCRITOS PELOS ATORES (IDENTIFIQUEI DOIS, PELO MENOS, MAS TALVEZ HAJA MAIS). A ESTÉTICA DA SOBREPOSIÇÃO DAS AÇÕES É O QUE MAIS SALTA À VISTA, E TEM-SE, COMUMENTE, VÁRIOS FOCOS DE AÇÃO SIMULTÂNEOS: O PRINCIPAL, INDICADO PELO ATOR QUE TOMA A PALAVRA EM UM SOLO, E OS PARALELOS, QUE APRESENTAM OS RESTANTES ATORES EXECUTANDO AÇÕES NÃO EXATAMENTE REALISTAS, MAS MUITO MAIS PRÓXIMAS DE UMA COREOGRAFIA DE GESTOS E INTENSIDADES, GERALMENTE PENDENDO PARA OS TEMAS DA DRAMATURGIA DE SARAH KANE, ANTES REFERIDOS.
HÁ UM DESTACÁVEL INVESTIMENTO NA PRODUÇÃO DO ESPETÁCULO, QUE SE REFLETE NA PLASTICIDADE DO ESPAÇO CÊNICO. PINTURAS E COLAGENS SE ATRITAM, ENQUANTO ELEMENTOS BIDIMENSIONAIS, COM OUTROS ELEMENTOS TRIDIMENSIONAIS DA CENOGRAFIA, TORNANDO RICA A EXPERIÊNCIA VISUAL. HÁ UMA RETOMADA DA IDEIA DE MÁSCARA (SOCIAL)  DURANTE A ENCENAÇÃO, CONCRETIZADA EM VARIADAS MANEIRAS DE ESCONDER/TRANSFORMAR A FACE, A MAIS INTRIGANTE AQUELA QUE ABRE A PEÇA, EM QUE SACOLAS DE COMPRAS ESTAMPADAS COM AS FEIÇÕES DOS INTÉRPRETES COBREM OS ROSTOS DOS PRÓPRIOS ATORES QUE AS PORTAM. FIQUEI PENSANDO QUE A METÁFORA PODERIA SER AINDA MAIS POTENTE SE OS ATORES TROCASSEM AS SACOLAS, E CADA UM "VESTISSE" O ROSTO DO OUTRO, COMO AQUELES QUE FREQUENTAM OS CONSULTÓRIOS DOS CIRURGIÕES PLÁSTICOS, EM BUSCA DE ROSTOS NOVOS/NOVOS ROSTOS. JÁ A TRILHA SONORA, COMPOSTA BASICAMENTE DE "CLÁSSICOS" DO ROCK, DA DANCE MUSIC E DO INDIE, DÁ ESPAÇO PARA O OPERÍSTICO, AO FINAL DO ESPETÁCULO.
HÁ UMA BELA ENTREGA EMOCIONAL DO ELENCO, QUE DEFENDE INTENSAMENTE SUAS PERSONAS FICCIONAIS. MAS NÃO É SÓ ISSO: HÁ ESPAÇO PARA O SARCASMO E A PAULADA VERBAL (ESSAS ÚLTIMAS, CARACTERÍSTICAS DOS ESPETÁCULOS DO TEATROFÍDICO). O FORTE DO TRABALHO DOS ATORES É O TRABALHO COM A DRAMATURGIA-PALAVRA, APARECENDO, EVENTUALMENTE, ALGUMA DIFICULDADE PARA LIDAR COM A DRAMATURGIA DO CORPO, REPRESENTADA PELO EXIGENTE TRABALHO FÍSICO QUE É DEMANDADO PELA ENCENAÇÃO.
CONSTRUIR UMA DRAMATURGIA COERENTE, A PARTIR DE FRAGMENTOS (AINDA QUE DE UM MESMO AUTOR), É SEMPRE UM POUCO ARRISCADO, JÁ QUE PASSA-SE POR CIMA DAS INTENÇÕES ORIGINAIS DO AUTOR, QUE, AO DAR POR ENCERRADA UMA OBRA, CONSIDEROU-A TENDO A MEDIDA NECESSÁRIA PARA QUE PUDESSE COLOCAR O FAMOSO "PONTO FINAL". AINDA QUE OS TEMAS DE SARAH KANE REINCIDAM, DE OBRA PARA OBRA, AS FÁBULAS SÃO DIFERENTES, O QUE PODE OCASIONAR ALGUNS DESNÍVEIS NA NARRATIVA. POR OUTRO LADO, COMO SE COSTUMA DIZER, O TEXTO DRAMÁTICO É APENAS UM DOS ELEMENTOS QUE CONSTITUEM O ESPETÁCULO TEATRAL. FICAMOS, ASSIM, "NIVELADOS" PELOS RESTANTES ELEMENTOS, E QUE TAMBÉM (E PRINCIPALMENTE) CONTAM "UMA HISTÓRIA". EM UM TRABALHO COMO CADARÇO DE SAPATO, QUE LEVA ATÉ MESMO EM SEU TÍTULO A HOMENAGEM À INGLESA SUICIDA, AS REFERÊNCIAS VÃO DESDE UM PAINEL COM A FACE DA AUTORA, ATÉ UMA NARRAÇÃO EM OFF SOBRE AS CIRCUNSTÂNCIAS DA VIDA E DA MORTE DELA, QUE CONSIDERO "SOBRAR" EM RELAÇÃO AO RESTANTE DA PEÇA. NÃO É PRECISO SABER DADOS BIOGRÁFICOS, AINDA MAIS DE FORMA TÃO EXPLÍCITA, PARA ENTENDERMOS O TURBILHÃO DE ANGÚSTIAS QUE NOS É MOSTRADO.
É UM ESPETÁCULO QUE PROCURA INCORPORAR ALGUMAS PRÁTICAS CÊNICAS QUE FORAM COLIGIDAS E BATIZADAS POR HANS-THIES LEHMANN COMO PÓS-DRAMÁTICAS: O USO DO MICROFONE COMO INTERMEDIÁRIO DISTANCIADOR ENTRE A VOZ DO ATOR E O ESPECTADOR; A TRILHA SONORA QUE COMENTA/ILUSTRA/SOBREPÕE-SE ÀS VOZES DOS ATORES; O ESPAÇO CÊNICO FICCIONAL INDETERMINADO; A MULTIPLICIDADE DE OBJETOS MANIPULADOS PELOS ATORES, QUE VÃO SUBLINHANDO E/OU CONTRAPONDO-SE À NARRATIVA; A CONSTRUÇÃO DE AÇÕES QUE FLERTAM COM A DANÇA EM SEU MOVIMENTO EM DIREÇÃO À ABSTRAÇÃO, E OUTROS EXEMPLOS POSSÍVEIS. E, É CLARO, NÃO PODE-SE FALAR EM PÓS-DRAMÁTICO SEM TER EM PERSPECTIVA O DRAMÁTICO, E NESSE SENTIDO A DRAMATURGIA DE SARAH KANE É EXEMPLAR EM PROPORCIONAR AO ENCENADOR A INDETERMINABILIDADE NECESSÁRIA PARA O ENIGMA A SER DESVENDADO QUE CONSTITUI, MUITAS VEZES, A PRINCIPAL CARACTERÍSTICA DO TEATRO CONTEMPORÂNEO.
EDUARDO KRAEMER E SEUS ATORES RENATO DEL CAMPÃO, JAIRO KLEIN, ADRIANA LAMPERT, LUCIMAURA RODRIGUES, GUSTAVO RAZZERA E REJANE MENEGUETTI SE PROPUSERAM, CLARAMENTE, A UMA PESQUISA DE LINGUAGEM QUE ULTRAPASSA, EM RESULTADOS POSITIVOS, OUTRAS INCURSÕES POR DRAMATURGIAS QUE FAZEM PARTE DA TRAJETÓRIA DO TEATROFÍDICO. A VIRULÊNCIA DA AUTORA PARECE CASAR BEM COM O DESACOMODAMENTO TEATRAL DO GRUPO.