O homem e a mancha

O homem e a mancha

sábado, 28 de junho de 2014

Personagens que passaram por mim

O primeiro espetáculo de teatro que fiz, afora oficinas e cursos, foi em 1993. Nesses 21 anos de atividades em teatro, além de atuar, que é minha função principal, dirigi, escrevi textos, compus trilhas sonoras, criei cenografias, operei sonoplastias...
Algumas dezenas de personagens/figuras me ocuparam nesse tempo, seres imaginários (e algumas vezes, saídos da realidade) aos quais emprestei meu corpo para se materializarem. A alguns tenho mais carinho do que a outros, não vou ser hipócrita; mas todos contribuíram para me fazer ver mais longe, buscar a ampliação dos meus horizontes artísticos. Um jogo que proponho a mim mesmo: lembrar por uns momentos de cada um deles. De alguns não lembro mais o nome, mas suas feições estão vivas na minha memória. Na lista que segue estão apenas as personagens criadas para teatro, ficando de fora as de cinema, TV e as muitas leituras dramáticas:
- Dio, de Uma louca fugiu da gaiola, 1993
- Pupi, de Hotel calibre 38, 1994
- Várias figuras, de A sombra e a luz são vultos, 1994
- Brigitte, de La vie en rose, 1995
- Zahar, de A lenda do unicórnio branco, 1995
- Patrão, de As maracutaias do Dr. Galant, 1997
- Padre, de Luz nas trevas, 1998
- Assessor político, de A gramática, 1998
- Andrei, de As três irmãs, 1999
- Scipião, de Calígula, 1999
- Valmont, de Quartett, 1999 
- Várias figuras, de Mockinpott, 1999
- Grigori Stepanovitch, de O urso, 2000
- Colono Mucker, de As núpcias de Teodora- 1874, 2000
- Mário, de Ano novo, vida nova, 2001
- Várias figuras, de Incompletamente, 2001
- Peter, de A história do jardim zoológico, 2001
- Filipe, de A ronda do lobo- 1826, 2002
- Sigmund, de A secreta obscenidade de cada dia, 2002
- Álvaro Ruperstein, de As cartas marcadas ou Os assassinos, 2003
- Várias figuras, de Pobre b. b., 2003
- Arnolfo, de Escola de mulheres, 2004
- Conde Maurício de Belmont, de A maldição do Vale Negro, 2004
- Niegus, de A viúva alegre, 2004
- Dr. Coppelius, de Ballet Coppélia, 2004
- Ferdinand Vanek, de Goela abaixo ou Por que tu não bebes?, 2005
- Harry, de Sofá, uma comédia picante, 2005
- Várias figuras, de Locomoc e Millipilli- Um quebra-cabeças cheio de aventuras, 2005
- Cincinatus, de Os bacharéis, 2005
- Várias figuras, de Morangos mofados, 2006
- Laertes e Ator-mestre, de Hamlet, 2006
- Várias figuras, de O homem e a mancha, 2006
- Anjo Gabriel, de Sacra folia, um auto brasileiro!, 2006
- Fernando, de Burgueses pequenos, 2007
- Édipo, de Édipo, 2008
- Sganarello, de O médico à força, 2008
- Sócrates, de Górgias ou Discurso sobre a retórica, 2009
- Alcibíades, de O banquete, 2009
- Várias figuras, de Solos trágicos, 2010
- Leonardo, de Bodas de sangue, 2010
- Professor, de A lição, 2010
- Agamenon, de Ifigênia em Áulis + Agamenon, 2011
- Jânio Quadros, de Legalidade, o musical, 2011
- Ferro, de Inimigos de classe, 2012
- Scapino, de Artimanhas de Scapino, 2012
- Várias figuras, de Um certo capitão Verissimo, 2012
- Max Morrow e Jan, de Marxismo, ideologia e rock'n roll, 2013
- Nilos Lákmos, de A vertigem dos animais antes do abate, 2014
 

quarta-feira, 25 de junho de 2014

A VERTIGEM DOS ANIMAIS ANTES DO ABATE: UMA HISTÓRIA

Tudo começou com um livrinho atravessando o Oceano Atlântico por avião. Tenho costume de importar livros, aqueles que não foram lançados no Brasil (e são muitos!), sejam de teoria teatral, sejam de dramaturgia, assuntos que me interessam muito. De Portugal, vieram várias edições que compõem minha biblioteca, entre eles um pequeno exemplar com algumas peças de um autor grego, Dimítris Dimitriádis, nunca encenado no Brasil, apesar de muito conceituado em toda a Europa. O livrinho ficou na minha estante por meses, até que chegasse a vez dele ser lido (sempre há outros na fila).
Li de uma única sentada todas as peças, entre elas, A vertigem dos animais antes do abate. O título já me instigou, desde o começo. Mas absorvendo a situação dramática proposta pelo autor, fui ficando mais e mais abalado: pela crueza da linguagem, pela ousadia da temática, pelas possibilidades cênicas que me vinham à mente. Decidi na hora em que li a última frase: eu precisava ver essa peça encenada. E mais, eu precisava FAZER essa peça. E foi assim que surgiu o impulso inicial para o nosso novo espetáculo, que estreará no dia 3 de julho, no Theatro São Pedro. Surgiu como uma descarga elétrica, que me fez imediatamente pensar no Luciano Alabarse, parceiro de várias outras montagens, para encená-la. Mostrei a peça ao Luciano e o resultado está aí: também ele se contaminou com o texto. A Margarida uniu-se ao Luciano na direção, arregimentamos um grupo de atores que faziam sentido para essa vertigem e...voilà.
É um espetáculo que vai na contramão do que tem se feito em Porto Alegre, tenho convicção disso. A virulência e a violência jorram da cena, o estranhamento e o identificável se sucedem, se mesclam. Todos os atores estão apaixonados por esse momento teatral que estamos vivendo. E esperamos que os espectadores também se deixem levar nessa voragem. O Minotauro espreita nossas ações, em um labirinto psicanalítico.
De 3 a 6 e de 9 a 13 de julho, no Theatro São Pedro.
Com Marcelo Ádams, Ida Celina, Gustavo Susin, Áurea Baptista, Elison Couto, Pingo Alabarce, Mauro Soares, Plínio Marcos Rodrigues, Alexandre Magalhães e Silva, Muni e Everton Rodrigues
Direção de Luciano Alabarse e Margarida Peixoto

domingo, 22 de junho de 2014

Algumas frases sobre o trabalho dos outros

Falar dos outros é intrínseco ao ser humano. Que prazer se sente ao comentar a maneira como fulano se comporta, ou a estranha indumentária de sicrano, ou de como beltrano mudou de uns tempos para cá. É porque somos seres sociais, não suportamos viver fora do convívio com o Outro. E quer assunto melhor do que falar do que os outros fazem? Acho que falar dos outros só compete no ranking dos assuntos mais populares com o falar de si mesmo, essa uma praga narcísica que acomete a muitos. "Saber ouvir é uma arte": não sei quem disse isso pela primeira vez, mas assino embaixo.
Ocorre que saber ouvir se desdobra em outros "saberes", relacionados ao sentido primeiro de abrir ouvidos e coração ao que o Outro tem a dizer: saber ver, saber escutar (que é mais do que ouvir, porque envolve entendimento), saber sentir. Modernamente, ouvimos bastante música (nos irremediáveis aparelhos eletrônicos: um mar de cabeças envolvidas por pequenos fones de ouvido, que tornam seus portadores estranhos seres, presentes apenas de corpo, sem a percepção integral das coisas).
Parti da ideia de falar dos outros, e cá estou com a ideia de saber ouvir. Vou aproximar os dois verbos, falar e escutar (este mais apropriado para meu intento) para referir ao papel do crítico. Saber falar e escutar, ou melhor, primeiro escutar e depois falar. O corpo do crítico deveria ser uma gigantesca mucosa multisentidos, em que as informações entrariam corpo adentro em forma de imagens visuais, sonoras, gustativas, odoríferas, táteis. O crítico deveria ser um depositório de percepções, que o contaminariam, o obrigando a botar para fora suas percepções em forma de pensamento logicizado: texto escrito, principalmente, mas há outras maneiras, ainda pouco usuais, de externar sua percepção: talvez em breve, tenhamos críticos em vídeo, que deponham oralmente suas impressões sobre uma obra de arte.
Saber escutar, ou, semioticamente falando, saber ler uma obra de arte, é imprescindível para alguém que queira ser conhecido como crítico. Opiniões todos temos, até do preço do tomate que subiu demais nos últimos tempos. Mas ter consistência é outra avenida. O que me incomoda nos textos que leio por aí (principalmente na internet, o paraíso infernal dos que acham que sabem do que estão falando) é a constrangedora falta de conhecimento sobre o que se escreve. Não me peçam para escrever sobre o metabolismo humano, ou sobre o comportamento sexual das abelhas, ou sobre as pragas que assolam as plantações: não tenho nada a dizer sobre isso, e assumo minha ignorância. Mas alguns corajosos encaram bravamente a picaretante arte de escrever sobre arte, mais especificamente o teatro, incentivados por amigos e "admiradores" que sabem ainda menos. Canso de ler na blogosfera tupiniquim pretensas "críticas" que me fazem chorar no cantinho tamanha superficialidade e falta de embasamento. Mas o mais triste é que, se esses pobres corajosos não produzirem seus textinhos, o ato teatral torna-se ainda mais efêmero (será que não é melhor assim, já que, desde sempre, o teatro sobrevive na memória apenas?). Impasse: a liberdade de opinião (que eu defendo totalmente) versus o "mico" de não saber p* nenhuma sobre o que se escreve. Prefiro o silêncio.

sábado, 21 de junho de 2014

Os anos 1980 e o cinema

Ando querendo rever alguns filmes dos anos 1980 que, quando do meu primeiro contato com eles, passaram um pouco rapidamente demais pela minha observação. Devido à extrema juventude, que algumas vezes é sinônimo de imaturidade intelectual, deixa-se de absorver conteúdos mais profundos. Perfeitamente compreensível essa visão superficial, já que acredito no conceito de horizonte de expectativa forjado pelos teóricos da recepção Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser. Trocando em miúdos, eles afirmavam que cada um de nós tem um alcance na absorção de uma obra de arte, diretamente relacionado à sua experiência e contato com produtos culturais. Uma analogia possível é a de pessoas que têm "instalado" o equipamento antineblina ILS2, e outras o ILS1: só que no caso da formação cultural, é mais interessante ter o equipamento que exige maior visibilidade para pousos seguros (o ILS1) do que aquele que exige menor visibilidade, e, portanto, menor necessidade de ver mais longe (o ILS2). Ver mais longe, com boas condições técnicas, é uma boa ideia.
Depois dessa "viajada", volto a referir aos filmes que revi ultimamente, três bem sucedidos produtos oitentistas: Gandhi (1982), de Richard Attenborough, Mississipi em chamas (1988), de Alan Parker, e Conduzindo Miss Daisy (1989), de Bruce Beresford.
Este grande vencedor do Oscar de 1982, com oito estatuetas, em minha opinião foi supervalorizado em seus méritos cinematográficos. É um daqueles filmes biográficos que os falantes de língua inglesa tanto prezam, e que já nos deu inúmeros exemplares. Neste, bastante correto em sua gramática cinematográfica, o destaque é para Ben Kingsley, que atua no papel principal, o que lhe valeu um Oscar de Melhor Ator. O que mais pesou para o sucesso do filme foi o carisma da personagem retratada e a boa vontade criada em torno de uma figura tão amada no século XX, um símbolo da busca pela paz e da luta pela liberdade. Mas naquele ano de 1982, outros filmes mereceriam um pouco mais a distinção da Academia hollywoodiana: ET, o extraterrestre, de Steven Spielberg, Tootsie, de Sydney Pollack, e Missing- o desaparecido, de Costa-Gavras. Minha torcida, já naquela época, e por motivos mais emocionais do que qualquer outra coisa, era para ET: o primeiro filme que assisti no cinema. Hoje, com a distância, não hesitaria em defender novamente o filme de Spielberg, que se tornou um clássico imortal, um marco na história da indústria cultural. Já Gandhi está quase esquecido.
 
Neste contundente libelo anti racista, ambientado nos EUA de 1964 em meio aos conflitos que desembocariam na condenação à segregação entre negros e brancos, dali a alguns anos, a estrela principal é a fotografia e a força própria do tema, que se impõe. Em determinado momento, uma das personagens do filme afirma algo como "calar-se sobre a segregação é permiti-la, concordar com ela". Nada mais verdadeiro, e é por isso que são tão importantes os movimentos contra a discriminação promovidos por outros que não as próprias vítimas de preconceito. Se só os negros reclamassem, o alcance seria menor, assim como se apenas homossexuais bradassem contra a homofobia. Todos que nos colocamos contra essas separações forçadas devemos expressar nossa contrariedade, juntar forças e mudar o que está estabelecido. Quanto ao filme, afora a estranha trilha sonora meio eletrônica de Trevor Jones, que sempre me parece um pouco deslocada, como se fosse de outro filme, resistiu bem, com as belas atuações de Gene Hackman, Willem Dafoe, Frances McDormand e Brad Dourif.
 
Quanto a Conduzindo Miss Daisy, o que dizer? Um filme quase nos moldes televisivos, com produção simples e pouquíssimos atores (ainda que muito bem em seus papéis). Mas quando lembro que essa pequena história venceu o Oscar de Melhor Filme, deixando para trás obras muito mais consistentes como Nascido em 4 de julho, de Oliver Stone, Sociedade dos Poetas Mortos, de Peter Weir, e Meu pé esquerdo, de Jim Sheridan, fica difícil engolir o prêmio principal. Jessica Tandy, aos 80 anos, vencendo o Oscar de Melhor Atriz, certamente comoveu a todos, e ela está muito bem como a protagonista. Mas não se trata de um filme que deixe marcas nos espectadores, apenas uma doce lembrança, causada pela nostalgia da época em que a história se passa, dos anos 1950 aos anos 1960. De novo, o tema da segregação entre negros e brancos aparece (muito sutil), e Martin Luther King é ouvido em um trecho do filme, discursando. Mas é pouco para tanto reconhecimento. Aliás, uma surpreendente não indicação ao Oscar de Melhor Diretor para Bruce Beresford já antecipava que os votantes da Academia não estavam muito convencidos do valor do filme. Eu torcia pela comovente defesa da arte que se vê em Sociedade dos Poetas Mortos, um filme que popularizou a frase em latim, do poeta romano Horácio (65 a.C.-8 a.C.): Carpe Diem, ou "aproveite o momento". Uma frase tão curta e tão absoluta em sua verdade. O momento é o que conta, e para nós que fazemos teatro, esse é o nosso ato de fé: é no momento único, presente, que as coisas acontecem sobre o palco; um segundo apenas, e já é passado.