O homem e a mancha

O homem e a mancha

sábado, 21 de junho de 2014

Os anos 1980 e o cinema

Ando querendo rever alguns filmes dos anos 1980 que, quando do meu primeiro contato com eles, passaram um pouco rapidamente demais pela minha observação. Devido à extrema juventude, que algumas vezes é sinônimo de imaturidade intelectual, deixa-se de absorver conteúdos mais profundos. Perfeitamente compreensível essa visão superficial, já que acredito no conceito de horizonte de expectativa forjado pelos teóricos da recepção Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser. Trocando em miúdos, eles afirmavam que cada um de nós tem um alcance na absorção de uma obra de arte, diretamente relacionado à sua experiência e contato com produtos culturais. Uma analogia possível é a de pessoas que têm "instalado" o equipamento antineblina ILS2, e outras o ILS1: só que no caso da formação cultural, é mais interessante ter o equipamento que exige maior visibilidade para pousos seguros (o ILS1) do que aquele que exige menor visibilidade, e, portanto, menor necessidade de ver mais longe (o ILS2). Ver mais longe, com boas condições técnicas, é uma boa ideia.
Depois dessa "viajada", volto a referir aos filmes que revi ultimamente, três bem sucedidos produtos oitentistas: Gandhi (1982), de Richard Attenborough, Mississipi em chamas (1988), de Alan Parker, e Conduzindo Miss Daisy (1989), de Bruce Beresford.
Este grande vencedor do Oscar de 1982, com oito estatuetas, em minha opinião foi supervalorizado em seus méritos cinematográficos. É um daqueles filmes biográficos que os falantes de língua inglesa tanto prezam, e que já nos deu inúmeros exemplares. Neste, bastante correto em sua gramática cinematográfica, o destaque é para Ben Kingsley, que atua no papel principal, o que lhe valeu um Oscar de Melhor Ator. O que mais pesou para o sucesso do filme foi o carisma da personagem retratada e a boa vontade criada em torno de uma figura tão amada no século XX, um símbolo da busca pela paz e da luta pela liberdade. Mas naquele ano de 1982, outros filmes mereceriam um pouco mais a distinção da Academia hollywoodiana: ET, o extraterrestre, de Steven Spielberg, Tootsie, de Sydney Pollack, e Missing- o desaparecido, de Costa-Gavras. Minha torcida, já naquela época, e por motivos mais emocionais do que qualquer outra coisa, era para ET: o primeiro filme que assisti no cinema. Hoje, com a distância, não hesitaria em defender novamente o filme de Spielberg, que se tornou um clássico imortal, um marco na história da indústria cultural. Já Gandhi está quase esquecido.
 
Neste contundente libelo anti racista, ambientado nos EUA de 1964 em meio aos conflitos que desembocariam na condenação à segregação entre negros e brancos, dali a alguns anos, a estrela principal é a fotografia e a força própria do tema, que se impõe. Em determinado momento, uma das personagens do filme afirma algo como "calar-se sobre a segregação é permiti-la, concordar com ela". Nada mais verdadeiro, e é por isso que são tão importantes os movimentos contra a discriminação promovidos por outros que não as próprias vítimas de preconceito. Se só os negros reclamassem, o alcance seria menor, assim como se apenas homossexuais bradassem contra a homofobia. Todos que nos colocamos contra essas separações forçadas devemos expressar nossa contrariedade, juntar forças e mudar o que está estabelecido. Quanto ao filme, afora a estranha trilha sonora meio eletrônica de Trevor Jones, que sempre me parece um pouco deslocada, como se fosse de outro filme, resistiu bem, com as belas atuações de Gene Hackman, Willem Dafoe, Frances McDormand e Brad Dourif.
 
Quanto a Conduzindo Miss Daisy, o que dizer? Um filme quase nos moldes televisivos, com produção simples e pouquíssimos atores (ainda que muito bem em seus papéis). Mas quando lembro que essa pequena história venceu o Oscar de Melhor Filme, deixando para trás obras muito mais consistentes como Nascido em 4 de julho, de Oliver Stone, Sociedade dos Poetas Mortos, de Peter Weir, e Meu pé esquerdo, de Jim Sheridan, fica difícil engolir o prêmio principal. Jessica Tandy, aos 80 anos, vencendo o Oscar de Melhor Atriz, certamente comoveu a todos, e ela está muito bem como a protagonista. Mas não se trata de um filme que deixe marcas nos espectadores, apenas uma doce lembrança, causada pela nostalgia da época em que a história se passa, dos anos 1950 aos anos 1960. De novo, o tema da segregação entre negros e brancos aparece (muito sutil), e Martin Luther King é ouvido em um trecho do filme, discursando. Mas é pouco para tanto reconhecimento. Aliás, uma surpreendente não indicação ao Oscar de Melhor Diretor para Bruce Beresford já antecipava que os votantes da Academia não estavam muito convencidos do valor do filme. Eu torcia pela comovente defesa da arte que se vê em Sociedade dos Poetas Mortos, um filme que popularizou a frase em latim, do poeta romano Horácio (65 a.C.-8 a.C.): Carpe Diem, ou "aproveite o momento". Uma frase tão curta e tão absoluta em sua verdade. O momento é o que conta, e para nós que fazemos teatro, esse é o nosso ato de fé: é no momento único, presente, que as coisas acontecem sobre o palco; um segundo apenas, e já é passado.

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