O homem e a mancha

O homem e a mancha

sexta-feira, 27 de março de 2009

Turnê pelo SESC

Com os auspícios do SESC e por convite da competentíssima Jane Schöninger, O médico à força fará uma pequena turnê por algumas cidades do RS. Apresentaremos nosso espetáculo em cinco cidades, sempre às 20 horas:
01/04- Gravataí
03/04- Lajeado
04/04- Santa Cruz do Sul
05/04- Pelotas
09/04- São Leopoldo
Nós da Cia. de Teatro ao Quadrado estamos exultantes em levar nosso trabalho para outras plateias, após a temporada tão gratificante que fizemos em Porto Alegre, no Teatro Renascença. Esperamos que novas oportunidades surjam para continuar apresentando esse espetáculo, pelo qual toda a equipe tem tanto carinho. Molière, para variar, novamente nos dá muitas alegrias!

terça-feira, 17 de março de 2009

Platão dois em um


Comecei, há duas semanas, a ensaiar um novo espetáculo, que terá direção de Luciano Alabarse. Para ser mais preciso, serão dois espetáculos, abrigados sob o nome geral do projeto, Platão dois em um. A ideia de Luciano é apresentar ao público dois diferentes trabalhos, ambos a partir de textos de Platão, e o curioso é o seguinte: ambos os espetáculos serão encenados no mesmo dia, um depois do outro. Ou seja, quem for ao teatro assistirá, pagando apenas um ingresso, primeiramente a Górgias ou Discurso sobre a retórica e, em seguida, a O banquete.
Górgias é uma adaptação, feita pelo próprio Luciano, de alguns dos mais notórios diálogos escritos pelo filósofo grego Platão (428-347 a.C.), onde ele desfia suas teses filosóficas através do então inédito recurso dialógico. Nesta adaptação para teatro, foram utilizados excertos de obras como Eutífron ou Sobre a piedade, Protágoras ou Sobre a sofística, Eutidemo ou Sobre a disputa (Erística), Fedro, Crátilo ou Sobre os nomes, bem como do diálogo que dá nome à adaptação.
Já em O banquete, a adaptação ficou a cargo do überintelectual Donaldo Schüller, catarinense de nascimento, mas gaúcho de coração. Donaldo é um dos maiores estudiosos da cultura grega no Brasil, tendo também cometido o extraordinário feito de traduzir o outrora considerado intraduzível Finnegans Wake, de James Joyce, pela primeira vez, em língua portuguesa. Donaldo adaptou de uma maneira bastante imaginativa aquele que é talvez o mais conhecido dos diálogos de Platão (empatado com A república, talvez?), e que trata sobre o Amor, assim mesmo em maiúscula.
Quando Luciano me contou seus planos de encenar Platão fiquei um pouco temeroso do que poderia acontecer. Depois de levar à cena a peça perfeita por excelência, segundo Aristóteles (falo de Édipo), ousar teatralizar diálogos com nenhuma ação proposta, sem um conflito aparente e baseados quase que exclusivamente em ideias mais ou menos abstratas (como, de resto, a Filosofia em geral), me pareceu quase um capricho.
Depois, no entanto, como acontece sempre comigo quando me entrego a um novo trabalho, o desafio e a obsessão me dominam, e acabo seduzido. Com Platão não foi diferente. Suas ideias, é claro que sim, soam muitas vezes áridas. Mas dizer aquelas palavras muitas vezes tão atuais, e arriscar rumo ao desconhecido, falou mais alto. Meu trabalho será hercúleo (aproveitando o ambiente grego): interpretarei o próprio Sócrates, porta-voz da ideias platônicas, em Górgias. Sócrates jamais escreveu uma linha, e foi Platão quem, em dezenas de obras, apresentou o pensamento socrático para o mundo. Há dúvidas se as teses que Platão fixou em letras são do próprio Sócrates. Isso talvez jamais saibamos. O fato é que Sócrates (470-399 a.C.), nas obras de Platão, é uma figura fascinante, às vezes excêntrica, e decididamente brilhante. Criador da Maiêutica (a arte de "parir" as ideias, ou também conhecida com Método interrogativo), Sócrates faz com que seus interlocutores encontrem as próprias respostas às suas questões, introduzindo perguntas certeiras nas conversas.
Já em O banquete, haverá um grande espetáculo, com banda e cantores ao vivo, no palco, coreografias, e um elenco de peso: Luiz Paulo Vasconcellos, Carlos Cunha Filho, Mauro Soares, José Baldissera, Lutti Pereira, Margarida Leoni Peixoto e outros tantos. Nesse segundo trabalho, interpretarei Alcibíades, o grande general ateniense, que nutria uma paixão (platônica, neste caso) por Sócrates.
Estrearemos em 4 de junho, no Theatro São Pedro. O resultado não sei, mas é muito bom fazer parte de um projeto tão ousado, tão comprometido com ideias. Que Dioniso nos abençoe!

quarta-feira, 11 de março de 2009

Negros dias no Teatro de Câmara Túlio Piva


Estreia hoje, dia 11 de março, estendendo-se até dia 1º de abril, às 2oh, sempre às quartas-feiras, com entrada franca, o espetáculo teatral Negros dias. Durante quatro semanas, no Teatro de Câmara Túlio Piva (República, 575), a comédia que escrevi especialmente para os alunos-atores do curso de teatro de Margarida Leoni Peixoto, minha mulher, ocupará o teatro da Cidade Baixa.
Desde 2002 tenho escrito textos para os cursos da Margarida, e nossa metodologia tem funcionado muito bem. Nos primeiros dias de aula, vou até a Cia. de Arte, onde a Margarida mantém seu curso há anos, no quarto andar, e conheço os alunos. A partir daí, escrevo uma peça pensando especificamente em seus intérpretes. Os espetáculos que resultam desses cursos, com duração de quatro meses, apresentam-se em julho ou dezembro, no próprio teatro da Cia. de Arte.
Negros dias, que agora inaugura o projeto Novas Caras da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre, foi apresentado originalmente em julho de 2008, iniciando, a partir daí, algumas participações em festivais de teatro pelo interior do RS. No Festival Nacional de Esquetes de Gravataí, por exemplo, onde recebeu três troféus, e no Festival de São Leopoldo, onde teve várias indicações.
O texto é uma comédia inspirada pelo melodrama, ambientada no Brasil, no dia 12 de maio de 1888, portanto na véspera da Abolição da Escravatura pela Princesa Isabel. Os poderosos fazendeiros Mont'Serrat são escaravagistas, e mantêm um plantel de escravos que sofrem maus tratos. Porém, o filho mais moço dos Mont'Serrat, o recém-formado advogado Jacó, vem com ideias abolicionistas da capital, e procurará mudar a desumana situação, enfrentando sua mãe, a Sra. de Mont'Serrat, e seu irmão mais velho, Esaú. Quando chega, porém, Jacó apaixona-se pela linda escrava Maraia, criando uma situação delicada.
Esse é o mote principal da peça, que ainda conta com outros personagens: os escravos Bá, Micaela e Tonhão; a Sra. Passo d'Areia, uma oportunista que quer casar sua filha, a ninfomaníaca Marta, com um dos herdeiros Mont'Serrat; Doninha, uma abolicionista ferrenha; Vespertino, um homem com distúrbios psicológicos; Feitosa, o implacável feitor de escravos da fazenda; Violeta, a cunhada da Feitosa, que foge dos terríveis maus tratos que sofre dele, e a misteriosa governanta dos Mont'Serrat.
O espetáculo conta com figurinos de Rô Cortinhas, que reproduzem o Brasil do século XIX, e tem momentos de música ao vivo, executada pelos atores.
O elenco de 14 atores está muito bem, e me orgulho do resultado que eles alcançaram, sob orientação da Margarida, que consegue extrair o melhor de cada um. Quem tiver oportunidade, apareça no teatro, para conhecer uma nova geração de atores que está surgindo em Porto Alegre. Tenho certeza de que você vai se divertir.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Excomungados

Sei que dar opiniões sobre algumas questões é polêmica certa, mas vou arriscar. A história do Arcebispo de Olinda e Recife que excomungou a mãe da menina de 9 anos que foi estuprada e engravidou de gêmeos é tão absurda que merece um comentário. O tal religioso expulsou da Igreja Católica inclusive a equipe médica que fez o aborto, totalmente legal, da menina. A lei prevê que, em caso de estupro e de risco de morte da genitora, o aborto pode ser feito, mediante equipe competente. No entanto, o Arcebispo enche a boca ao dizer que, quando há a lei de Deus, as leis dos homens perdem completamente a validade. Ou seja, se Deus manda que a menina morra, por ter sido estuprada, nenhum de nós, seres humanos, podemos fazer nada.
E quem diz o que Deus quer?!
Um padre ultrapassado, arremedo de inquisidor da Idade Média, que acredita ter sob sua guarda os desejos divinos? Que petulância a de normatizar os direitos dos outros, sob um manto de verdade absoluta!
Fiquei indignado com isso, e não entendo como é possível que pessoas tão esclarecidas como esse Arcebispo ainda digam e defendam idiotices desse porte!
Sou totalmente a favor do aborto, cada um deve fazer o que quer de seu corpo. Esse ainda é o último refúgio de nossa consciência. Se nos tirarem o direito da escolha do que fazer com nossa própria carne, o que restará? Proibirão as tatuagens, os piercings?
Chego a pensar que a excomungação tenha sido uma benção, ao contrário do que o punidor queria.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Cinema, teatro...


O comentário que a Helena Mello fez ao meu post anterior me deu vontade de falar mais sobre isso. A questão que surgiu é que, para Helena, o espectador tem mais chance de sair com alguma coisa quando vai ao cinema, e menos quando vai ao teatro. Primeiramente, quero dizer que o cinema, como técnica industrial, pode ser comparado com o teatro, uma técnica artesanal, em pontos limitados. Certo, as duas linguagens se prestam à narrativa. Sim, as duas linguagens fazem uso de atores, em maior ou menor volume. Mas podemos dizer também que as origens do cinema e do teatro, filosoficamente falando, são diferentes. O teatro surgiu do ritual, da congregação de pessoas em uma comunidade, que utilizavam a representação para homenagear ou chegar mais perto dos deuses. O cinema, surgiu da fotografia e, lá no século XIX, o conceito de fotografia era documental, ou seja, servia para registrar um momento histórico. O cinema também, em seus primórdios, capturava a ação do cotidiano, e isso era mágico. Os experimentos posteriores de Mèlies, com suas histórias fantásticas e efeitos visuais assombrosos para as plateias da época reproduziam o entretenimento típico dos circos ou das feéries.
Concordo que o cinema tem um arsenal muito mais sedutor para envolver o indivíduo. As dimensões de uma tela de cinema não podem competir com um ator em um palco. No entanto, um projetor não respira, não sua. O ator sim. Eu, também, me emociono às lágrimas com muito mais frequência no cinema que no teatro. Mas é porque vou mais ao cinema que ao teatro, até por falta de opções. Creio que o que me apaixona no teatro é a fragilidade da arte, o efêmero de algo que tem tudo para dar errado, tem tudo para deixar de existir, mas continua existindo. E por força dos abnegados, em todo o mundo, que seguem acreditando nisso. As gerações se sucedem, as tecnologias se superam, e o teatro, como impulso primevo do homem, não morre. E não morrerá, tenho certeza.