O homem e a mancha

O homem e a mancha

terça-feira, 17 de março de 2009

Platão dois em um


Comecei, há duas semanas, a ensaiar um novo espetáculo, que terá direção de Luciano Alabarse. Para ser mais preciso, serão dois espetáculos, abrigados sob o nome geral do projeto, Platão dois em um. A ideia de Luciano é apresentar ao público dois diferentes trabalhos, ambos a partir de textos de Platão, e o curioso é o seguinte: ambos os espetáculos serão encenados no mesmo dia, um depois do outro. Ou seja, quem for ao teatro assistirá, pagando apenas um ingresso, primeiramente a Górgias ou Discurso sobre a retórica e, em seguida, a O banquete.
Górgias é uma adaptação, feita pelo próprio Luciano, de alguns dos mais notórios diálogos escritos pelo filósofo grego Platão (428-347 a.C.), onde ele desfia suas teses filosóficas através do então inédito recurso dialógico. Nesta adaptação para teatro, foram utilizados excertos de obras como Eutífron ou Sobre a piedade, Protágoras ou Sobre a sofística, Eutidemo ou Sobre a disputa (Erística), Fedro, Crátilo ou Sobre os nomes, bem como do diálogo que dá nome à adaptação.
Já em O banquete, a adaptação ficou a cargo do überintelectual Donaldo Schüller, catarinense de nascimento, mas gaúcho de coração. Donaldo é um dos maiores estudiosos da cultura grega no Brasil, tendo também cometido o extraordinário feito de traduzir o outrora considerado intraduzível Finnegans Wake, de James Joyce, pela primeira vez, em língua portuguesa. Donaldo adaptou de uma maneira bastante imaginativa aquele que é talvez o mais conhecido dos diálogos de Platão (empatado com A república, talvez?), e que trata sobre o Amor, assim mesmo em maiúscula.
Quando Luciano me contou seus planos de encenar Platão fiquei um pouco temeroso do que poderia acontecer. Depois de levar à cena a peça perfeita por excelência, segundo Aristóteles (falo de Édipo), ousar teatralizar diálogos com nenhuma ação proposta, sem um conflito aparente e baseados quase que exclusivamente em ideias mais ou menos abstratas (como, de resto, a Filosofia em geral), me pareceu quase um capricho.
Depois, no entanto, como acontece sempre comigo quando me entrego a um novo trabalho, o desafio e a obsessão me dominam, e acabo seduzido. Com Platão não foi diferente. Suas ideias, é claro que sim, soam muitas vezes áridas. Mas dizer aquelas palavras muitas vezes tão atuais, e arriscar rumo ao desconhecido, falou mais alto. Meu trabalho será hercúleo (aproveitando o ambiente grego): interpretarei o próprio Sócrates, porta-voz da ideias platônicas, em Górgias. Sócrates jamais escreveu uma linha, e foi Platão quem, em dezenas de obras, apresentou o pensamento socrático para o mundo. Há dúvidas se as teses que Platão fixou em letras são do próprio Sócrates. Isso talvez jamais saibamos. O fato é que Sócrates (470-399 a.C.), nas obras de Platão, é uma figura fascinante, às vezes excêntrica, e decididamente brilhante. Criador da Maiêutica (a arte de "parir" as ideias, ou também conhecida com Método interrogativo), Sócrates faz com que seus interlocutores encontrem as próprias respostas às suas questões, introduzindo perguntas certeiras nas conversas.
Já em O banquete, haverá um grande espetáculo, com banda e cantores ao vivo, no palco, coreografias, e um elenco de peso: Luiz Paulo Vasconcellos, Carlos Cunha Filho, Mauro Soares, José Baldissera, Lutti Pereira, Margarida Leoni Peixoto e outros tantos. Nesse segundo trabalho, interpretarei Alcibíades, o grande general ateniense, que nutria uma paixão (platônica, neste caso) por Sócrates.
Estrearemos em 4 de junho, no Theatro São Pedro. O resultado não sei, mas é muito bom fazer parte de um projeto tão ousado, tão comprometido com ideias. Que Dioniso nos abençoe!

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