O homem e a mancha

O homem e a mancha

domingo, 23 de novembro de 2014

Um dia assassinaram minha memória


Adriana Cavarero, em seu excelente livro Vozes plurais- Filosofia da expressão vocal, reconstitui um acontecimento importantíssimo para a História não apenas da arte, mas para a História da civilização, e que ela chama de desvocalização do logos. Trocando em miúdos, e sintetizando barbaramente a ideia da autora, tão bem desenvolvida em sua escrita, essa desvocalização do logos foi a irremediável e irreversível troca (ou abandono, melhor dizendo) da expressão vocal como unicidade, ou seja, a ideia de que cada ser nascido sob o sol tem uma voz única, que a exemplo de uma impressão digital, é inimitável e irrepetível. Cada voz é um universo. Pois bem, ao diminuir a importância da voz como expressão e transmissão de conhecimento - valorizando, em substituição, a palavra escrita -, a Humanidade perdeu algo precioso, e que apenas o som produzido pela carne, pelas entranhas do Homem, é capaz de dar. A palavra escrita, seja sobre a plataforma que for, seja sob o alfabeto que for, é sempre uma transcriação; é signo, não significado. A palavra escrita tem sentido, sim, mas não o significado que o som vocal possibilitaria. 
Toda essa divagação me ocorre após ter assistido Um dia assassinaram minha memória, espetáculo teatral dirigido por Decio Antunes e Carlota Albuquerque. Não que a voz tenha uma importância tão fundamental no espetáculo, apesar de que as palavras pronunciadas pelas "intérpretes-colaboradoras" sejam afiadas e carregadas de sentidos que se conjugam perfeitamente com a ambientação cênica, uma casa meio vazia, meio abandonada, criada ficcionalmente no espaço do Museu Júlio de Castilhos. O que me fez elucubrar foi, em um primeiro momento, as sonoridades que invadem os ouvidos dos espectadores, criadas por Ricardo Pavão. A importância do som está diretamente ligada à ausência dele, e a alternância entre ambos enriquece a experiência. Em Um dia assassinaram minha memória, os espectadores são colocados em contato com o que de mais invasivo pode haver: o som que entra pelos nossos ouvidos, ao qual não podemos resistir, não podemos negar, não podemos ignorar. O videocentrismo, que substituiu a escuta no mundo moderno como forma de absorção do mundo, pode ser boicotado: basta virar o rosto a uma visão que nos enoja, ou fechar os olhos para o que nos assusta. O som nos invade sem clemência, nos agride. A imagem permanece no espaço, aloja-se na retina e lá permanece, a não ser que cortemos o contato fechando as pálpebras. Um cão atropelado à beira da estrada está lá, e lá ficará, até que alguém o recolha, ou que o tempo aja sobre ele; semanas, meses se passarão, enquanto a transformação lenta se efetua. O som do cão atropelado, o ganido surpreso e dolorido é único e fugaz: dura apenas um segundo, existe apenas no tempo. A imagem que dura no espaço, e o som que dura no tempo, são os elementos que formam a memória. A memória que impregna um museu, por exemplo (memória no espaço, diga-se de passagem, já que nesse tipo de museu expõem-se objetos, imóveis, isolados de seus contextos originais, mortos, de alguma forma). O som não é um elemento corriqueiro em um museu. O som do silêncio, sim.
Imagens e sons compõem o belo espetáculo da Jogo de Cena Companhia Teatral. Tudo é belo: figurinos, iluminação, ambientação cenográfica, atrizes. Tudo é carregado de obsessões. Fantasmas da memória, mulheres de várias idades têm fragmentos de suas vidas apresentadas, sem que, no entanto, se construa uma lógica aristotélica na narrativa. Como é praxe no teatro pós-dramático, o sentido se dá pelo acúmulo de signos, de sensações, atmosferas, imagens, sons. Identifica-se, por vezes, algumas figuras da dramaturgia universal, como a Mãe Coragem de Brecht, ou a Clitemnestra do mito grego, porém descontextualizadas e picotadas. De resto, é como se não estivéssemos ali, fôssemos testemunhas desses fantasmas, ainda que, em algumas ocasiões, esses fantasmas busquem interação conosco, os espectadores.
Um resultado rigoroso, que reforça a linha estilística de Decio Antunes como encenador, em que algumas de suas obsessões retornam mais uma vez à cena: as mulheres, a memória, o trágico, a dança-teatro. Desta vez, o resultado é bastante superior a Corte, de 2009, que constituiu a primeira parte da trilogia da qual Um dia assassinaram minha memória é o segundo momento. Lembrei-me de A casa, um belíssimo espetáculo dirigido por Decio, que guarda algumas semelhanças com este seu mais recente trabalho.
As mulheres que compõem esse mostruário fantasmático são intensas, inteiras, interiorizadas: Naiara Harry, Lurdes Eloy, Angela Spiazzi, Kaya Rodrigues e Renata Stein vagam pelos corredores, entram e saem de cômodos, mostram-se e escondem-se em recônditos que alternam luz e escuridão. Atuações delicadas, quase sempre contidas, invariavelmente repletas de verdade. Não foi possível, ao final da sessão que assisti, cumprimentar a equipe, vários dos quais com quem já trabalhei (Naiara, Lurdes, Angela, Decio e Carlota), pois uma nova sessão começaria em poucos minutos. Deixo, no entanto, meu abraço a todos pelo espetáculo tão especial. Parabéns!

Nenhum comentário:

Postar um comentário