O homem e a mancha

O homem e a mancha

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Uma noite especial



Acabei de chegar do Teatro do SESI, onde assisti à montagem dirigida por Bob Wilson do texto de Heiner Müller, Quartett. Ter Wilson em Porto Alegre é algo histórico. Ele é um dos diretores mais importantes da história do teatro, reconhecido por suas inovações na linguagem do teatro contemporâneo. Desde os anos 1970, quando criava espetáculos-evento que podiam durar dias, ou em obras que redefiniam o que seria a duração "adequada" de uma peça, Wilson é uma referência indispensável. Suas parcerias com o compositor Philip Glass (por exemplo, Einstein on the beach, de 1976) deram uma nova acepção para a junção entre teatro e música. A experimentação de Wilson estava ao nosso alcance, com todas aquelas informações que lemos em livros, à nossa frente.
Quartett é um espetáculo fragmentado, assim como a obra de Heiner Müller. Nesse sentido, não poderia ser mais fiel ao autor. As pausas, as cenas sem texto, a beleza plástica impressionante de suas imagens: tudo estava lá, como esperado. A iluminação do espetáculo, criada pelo próprio Wilson, é atordoante, é inacreditável. Wilson é perfeito nessa difícil arte.
Outra grande satisfação foi ver Isabelle Huppert. Acostumado a vê-la no cinema, foi fascinante vê-la ao vivo, absolutamente entregue à concepção do encenador. Absolutamente disponível para, inclusive, interpretar um sapo (ou qualquer que seja aquele animal).
Ao final do espetáculo, eu e alguns outros sortudos, tivemos a oportunidade de ver Isabelle Huppert fora de sua personagem, pertinho de nós. Uma espécie de coquetel foi oferecido, com a presença de Huppert. Com a maior expectativa aproximei-me dela, apertei sua mão, e fiquei por 15 minutos ouvindo sua voz, que respondia às perguntas de Luciano Alabarse, em clima totalmente informal. Fiquei admirando sua simplicidade: um tênis All Star vermelho, uma calça jeans, uma blusa de lã decotada e um cachecol protegendo a garganta. A pele, muito sardenta, totalmente sem maquiagem, exceto um batom vermelho-escuro muito intenso.
Os olhos de Huppert raramente fitavam os olhos dos que a cercavam. Ela permanecia com um sorriso ameno no rosto, mas com o olhar ao longe. Delicada, educada. Após milhares de experiências como essa, estar em eventos públicos já a deixou vacinada: a intimidade que ela aparentava era calculada, porém doce.
Foi uma noite memorável. Isabelle Huppert é uma atriz brilhante em cinema. Filmes como Oito mulheres e A professora de piano são clássicos modernos. Foi um privilégio estar junto a ela.

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