O homem e a mancha

O homem e a mancha

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A voz do corpo e o corpo da voz

Tenho assistido a dois espetáculos por noite, durante o Porto Alegre em Cena. Neste domingo, tive novamente a felicidade de assistir a dois trabalhos fabulosos: Crépuscule des océans e The Voca people. Em suas especificidades, são, em minha opinião, duas obras brilhantes. O primeiro, espetáculo de dança do Canadá, encanta pelo rigor absoluto no movimento dos bailarinos. O grupo de oito canadenses - seis homens e duas mulheres - leva aos extremos as possibilidades plásticas de seus corpos. Muitas vezes dançando nus, as formas perfeitas de seus corpos, musculosos, delineados, faziam lembrar a estatuária grega, onde o senso de equilíbrio e proporção das formas era a regra. Após o espetáculo, ouvi o comentário de um espectador de que tudo aquilo fôra criado sem um pingo de teatralidade, ou seja, que os movimentos dos bailarinos eram apenas externalizações de força. Perguntei para mim mesmo o que ele quis dizer com teatralidade, o que é exatamente isso. Teatralidade, palavra meio abstrata, meio subjetiva. Nas coreografias de Crépuscule des océans absorvi uma profunda teatralidade, não superficial (ou se quiserem, evidente), mas uma teatralidade da forma. Os corpos executavam movimentos repetitivos, que se repetiam também ao longo da encenação. Com expressões faciais totalmente neutras, no entanto com corpos expressivos até o último músculo. Pequenas ligações e pontes foram sendo construídas, e depois de algum tempo era possível identificar micro-dramas em cada um dos duetos ou tercetos. Lindo, algumas vezes emocionante até às lágrimas. Coisas simples, como relações entre homem e mulher. Os corpos falavam, com seu suor, com suas respirações ofegantes, tudo ao som de Beethoven. Quem foi ao Teatro Renascença ouviu a voz do corpo.
The Voca people pode ser chamado de "o corpo da voz", tal a riqueza das tessituras vocais daqueles oito israelenses. Somente com o uso de suas vozes, sem qualquer instrumento musical, construíam uma miríade de sons (inclusive o famoso beat box, em que o performer executa sons de toda a espécie com a própria voz). Que importa se o repertório é formado por trilhas sonoras de blockbusters, canções pop de Madonna a Queen? É apaixonante admirar a técnica perfeita daqueles cantores, que até se aventuram a brincar de atores, em alguns momentos, investindo num humor que aproxima muito o público. O que me emociona, nesse caso, é a capacidade do artista de transcender, de criar o inesperado, de atingir o sublime. Os israelenses conseguiram isso com seu espetáculo. A voz daqueles cantores se materializava, ganhava corpo e nos invadia com sua performance.
Canadenses e israelenses nos brindaram com o que de melhor há na dança e na performance vocal. Este tem sido um festival muito gratificante.

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