O homem e a mancha

O homem e a mancha

sábado, 6 de novembro de 2010

Sobre plateias

O teatro em Porto Alegre vive um paradoxo: os artistas das artes cênicas daqui vivem um momento de grande produtividade, de descoberta e aprofundamento de linguagens, de capacitação e pesquisa dessa arte tão delicada e ao mesmo tempo tão encouraçada para resistir a milênios de indiferença. Desde que comecei a fazer teatro, este parece ser o momento mais feliz e rico em propostas. Credito esse profissionalismo crescente a várias coisas, entre elas a oportunidade que o Porto Alegre em Cena nos dá de, em setembro, nos confrontarmos com tantas diferentes propostas cênicas, com tantas possibilidades de fazer teatro.
O paradoxal é que as plateias porto-alegrenses estão emburrecendo, estão se tornando conservadoras, medrosas. O teatro como instrumento possível de fazer alguma diferença, de provocar alguma discussão, parece não contar com a adesão do público, que se encapsula em casa, em frente à TV ou debruçada sobre o teclado do computador. Alguns espectadores vão ao teatro como se estivessem em frente ao televisor, não respeitando o longo trabalho que um grupo de abnegados produziu com todo o carinho, e com toda a qualidade: ao final, cansados, aplastados, não se dignam a aplaudir sequer os artistas. Isso me irrita, e não é de hoje.
O que me faz seguir em diante é a crença, a convicção, de que nosso trabalho de formiguinha encontra alguns poucos interessados nessa arte tão arcaica, a mais arcaica e a mais contemporânea possível. E esses poucos que querem descobrir o mundo, querem ver o que os rodeia de uma forma diferente, valem nosso esforço. Não ganhamos dinheiro fazendo teatro: pagamos, dos nossos bolsos, para oferecer o nosso melhor, o que nascemos para fazer.

2 comentários:

  1. Não te preocupes, meu amigo...
    Tudo está começando,
    Amanhã tudo estará começando,
    Depois, depois, depois, tudo estará sempre começando...
    Tal qual a solitária aí de cima: até põe ovos - hoje, amanhã, depois...
    Porém, assim como muitos no nosso mundo, elas têm asas... e não voam...

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  2. Cara, eu não sei se estás apenas te referindo a experiência de agora com A LIÇÃO. Eu posso te garantir (ou quase) que a externação de satisfação do público por intermédio de palmas no final do espetáculo, é totalmente inverso a satisfação que ele lhes proporciona. Vcs ganham o público de primeira (o início causa aquela angústia), depois, com a entrada do professor e o jogo com a aluna, eles entram totalmente dentro da história. Os momentos finais, onde o público, assim como a menina, estão envolvidos e não tem como sair, fazem com que no final eles tenham a ciência que viram um espetáculo profissionalíssimo, bom, mas ainda estão em choque e a ficha vai caindo aos poucos.
    Em 2003 fiz a peça ENTREVISTA COM ESPÍRITOS que é o oposto da minha outra peça pop CAMINHOS, e demorei pra acostumar com o marasmo dos aplausos das pessoas, se comparadas com a outra.
    Depois entendi por que: Ela tem um final forte, que incomoda muita gente!
    Nossa! Me extendi aqui! Abraço!

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