O homem e a mancha

O homem e a mancha

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Teatro de ar condicionado versus Teatro de suar

Estive pensando sobre algumas coisas que tenho lido a respeito de nosso espetáculo A LIÇÃO. Prontamente me veio a ideia de que é possível dividir o teatro em categorias, como exercício de reflexão. Há algumas décadas, Nelson Rodrigues, o maior dramaturgo brasileiro, escreveu:  "A partir de Álbum de família – drama que se seguiu a Vestido de noiva – enveredei por um caminho que pode me levar a qualquer destino, menos ao êxito. Que caminho será este? Respondo: de um teatro que se poderia chamar assim – “desagradável”. Numa palavra, estou fazendo um “teatro desagradável”,“peças desagradáveis”".
Nelson tinha consciência de que sua dramaturgia fugia ao padrão "sala de visitas" ao qual seus contemporâneos estavam acostumados. E não só aqueles pouco afeitos à arte como expressão cultural, mas mesmo os intelectuais. O gosto estabelecido é uma coisa difícil de tirar da pele, é como um encardido, que precisa ser esfregado com força para sair e fazer circular o sangue. Ainda hoje.
A oposição entre teatro desagradável e agradável me faz reivindicar a criação de outras duas categorias opostas: o "teatro de ar condicionado" e o "teatro de suar". O teatro de ar condicionado é aquele com marcações corretas, controladas e limpas. O teatro de suar é aquele que faz o caos se instalar (um caos controlado), mas um caos onde o teatro vive e se transforma em seu transcorrer. Luciano Alabarse é um adepto do teatro de ar condicionado, e tenho trabalhado com ele muitas vezes desse modo, com muito prazer. O Teatro Sarcáustico, cujo mais recente Wonderland é um exemplar típico do teatro para suar, produz encenações não resumíveis a marcações bonitas. A Cia. de Teatro ao Quadrado, do qual sou fundador, alterna espetáculos dos dois tipos, CONFORME A CONCEPÇÃO mais adequada.
Nosso A LIÇÃO é um teatro de suar, ou um teatro desagradável, na acepção rodriguiana. Isso é proposital. Portanto não aceito afirmações pseudo conhecedoras que afirmam não se tratar nossa peça de "um verdadeiro" Ionesco ou Hitchcock. Se quiserem ver Ionesco, leiam um de seus textos, no papel, impressos. Se quiserem Hitchcock, aluguem um filme na locadora. A arte não é uma reprodução simplória do que dizem os teóricos, que jamais colocaram os pés em um palco ou participaram de um processo de criação artística.
Rodrigo Monteiro, um jovem apreciador de teatro (o que é comprovado por sua assistência a um grande número de espetáculos), comete alguns equívocos na avaliação de nossa montagem de A LIÇÃO, quando diz que "a produção que almeja homenagear o Teatro do Absurdo acaba por ofendê-lo ou, ao menos, dele se distancia. O mundo não faz sentido para quem o vê de fora no teatro de Ionesco". O que significa "ofender o Teatro do Absurdo?" Não entendo, muito menos "o mundo não faz sentido para quem o vê de fora no teatro de Ionesco".
O Teatro do Absurdo surgiu como um grito de alerta em um mundo arrasado após a Segunda Guerra Mundial. Era uma reação, portanto, à violência. Autores como Sartre e Camus reagiram, seguidos por Ionesco e Beckett, à dificuldade de comunicação que levou ao assassinato de milhões de pessoas inocentes. O Absurdo é filho da violência. Então me digam, onde está a incoerência da ênfase na violência que praticamos em A LIÇÃO?  Ionesco escreveu que "para um texto bulrlesco, uma interpretação dramática; para um texto dramático, uma interpretação burlesca". O autor nos dizia para subverter as expectativas, já que através do inesperado o alcance do Absurdo seria maior. É o que fazemos em A LIÇÃO: começamos como uma comédia ionesquiana, em seus clichês, inclusive, para ultrapassar isso e chegar ao que consideramos relevante no século XXI: a violência é o absurdo contemporâneo, vide as guerras, os assassinatos em série, mata-se como se seres humanos fossem moscas, a vida perdeu o valor.
Cito Brecht, que dizia que ser fiel a ele era superá-lo. Ionesco, Shakespeare, Sófocles: não há cânones que sobrevivam sem sua atualização (e os intelectuais deveriam saber disso). Portanto cobrar um pretenso Ionesco de 1950 em uma montagem de 2010 é, no mínimo, ultrapassado.
Um outro comentário que li sobre a peça foi que "O 'professor' virou um mero serial killer; todo o discurso existente na obra de Ionesco se perdeu com isso. Chocar o público através da violência física é fácil se comparado ao chocar através das palavras, das ações, das expressões". O professor virou um mero serial killer? Um assassino que mata compulsivamente é algo tão comum que não merece reflexão, especialmente sobre em que mundo vivemos, que produz pessoas assim?. Equivocozão: parece que o autor dessas palavras não gostou de ser chocado pela violência, mas como chocar pelas palavras? Com palavrões? E violência física não é ação? Confuso, sinceramente. E, ainda por cima, parece que é um adepto do teatro de ar condicionado que temos aqui.
Finalizando: não é coerente afirmar que o texto A LIÇÃO perdeu com modificações e atualizações feitas por nós. Ionesco não é Shakespeare ou Goethe. Qualquer um que conheça minimamente a sua obra, e não que tenha apenas lido rapidamente A cantora careca, saberá que é um autor totalmente aberto a contribuições cênicas. E essa é, aliás, uma das particularidades da palavra escrita para a cena: ela é só 50% do que será o espetáculo. Qualquer artista dos palcos sabe disso. Não acredito em respeito irrestrito a um autor, isso é limitação, sim. Abrir-se para o contemporâneo, permitir-se descobrir temáticas atuais em textos antigos, isso sim é inteligente. Do contrário, fica-se apenas com o teatro agradável, ou o teatro de ar condicionado.

4 comentários:

  1. Oi, Marcelo!

    Se me permite, creio que o que a pessoa que comentou no meu blog sobre o fato de seu personagem, o Professor, ter se tornado um serial killer e, acrescido a isso, o que eu disse sobre a violência excessiva na sua montagem do texto A LIÇÃO quer dizer é: no momento em que isso acontece, você dá um sentido para o personagem, para o absurdo. Quando isso fica claro para quem assiste, e fica para muita gente incluindo eu, você torna, ou tenta, o texto de suar (que eu nunca vi a sua companhia, de fato, fazer em todos os espetáculos que já vi, e não vi todos, mas a maioria)em texto de ar condicionado.

    Gosto muito de uma frase que você escreveu na crítica a Partida do POA EM CENA, quando você diz também que Ionesco e Beckett estão juntos no Teatro do Absurdo, citando Esslin. Você diz:

    "Em uma das falas mais brilhantes da peça, Hamm diz "Acho que estamos começando a significar alguma coisa", sem ter muita certeza do que seria esse significado. Para mim, isso é Beckett."

    É isso. A cena final de A LIÇÃO, na concepção de vocês, torna lógico, explicável, o absurdo anterior. E é nesse ponto que, para mim, há o equívoco, a perda.

    Abração!

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  2. A crítica de Final de Partida, por Marcelo Adams:

    http://poaemcena.blogspot.com/2010/09/marcelo-adams-15-final-de-partida.html

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  3. Olá. Sou a autora do comentário escrito no blog do Rodrigo Monteiro em que eu afirmei que "o professor havia virado um mero serial killer". Vi que tu me citaste agora neste teu post. Só pra constar, tá, acho que o artista tem que ter humildade pra aceitar as críticas negativas em vez de sair "metralhando" as pessoas só porque elas não gostaram de seu trabalho. Eu não gostei da solução que vcs deram pra peça, e TENHO O DIREITO de não ter gostado. E mais ainda, TENHO O DIREITO de expressar a minha opinião. Fui ao teatro, paguei meu ingresso, assisti à peça tri empolgada com o que eu estava vendo, mas não gostei das soluções encontradas da metade para o final. Pronto. Não denegri a imagem de ninguém nos meus comentários, não acusei ninguém de nada, não esculachei, simplesmente ME EXPRESSEI. Se tu achas que os meus argumentos foram confusos, paciência. A mim estão muito claros, poderia escrever linhas e mais linhas explicando o que não funciona na peça (na minha modesta opinião), mas não teria o porquê de eu ficar argumentando aqui. E mais uma coisa: gosto muito do teatro suado, podes ter certeza que peças como as do Alabarse, peças que inclusive tu participaste inúmeras vezes, nunca me agradaram. Só acho que se tu acreditas tanto no trabalho q vcs estão fazendo, tu não precisas ficar gastanto teu tempo argumentando contra os comentários negativos. É importante o artista acreditar no que faz. E é mais importante ainda o artista ACEITAR que o seu trabalho não vai ser unanimidade. Os teatreiros falam tanto que é importante o fomento da crítica teatral na cidade, falam que discussões sobre as peças são muito bem-vindas e blá-blá-blá, mas quando alguém resolver falar mal da sua peça, aí isso vira prática do mal. "Pimenta nos olhos dos outros é refresco" já diria o sábio ditado popular. No mais, sucesso pra vcs, boa temporada, podes ter certeza de que sou uma grande admiradora do trabalho da Margarida Peixoto.

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  4. Esta resposta é para a Li: olha, eu não fiquei metralhando ninguém não. Assim como tu e o Rodrigo opinaram, com todo o direito sobre o que acharam da peça, eu dei a minha opinião também sobre o que vocês escreveram. Não tenho nada contra o teatro de ar condicionado, inclusive, como escrevi, pratico com todo o prazer, porque teatro é teatro, e pode ser tão variado quanto o infinito. O que defendo é uma diferença na apreciação de diferentes tipos de teatro. Claro que não queremos ser unânimes: se quiséssemos, não ousaríamos fazer a mistura que fizemos, e simplesmente montaríamos um texto bem digestível, com uma concepção light e uma encenação "dentro das regras". Mas, como tu bem disseste, somos artistas, e arriscamos. Nem sempre acertamos, evidentemente, mas temos o direito de defender nossos pontos de vista apontando as fragilidades dos que nos criticam, e talvez esclarecendo mal entendidos. Certamente, como tu, outras pessoas ficaram muito incomodadas com A LIÇÃO. E ao mesmo tempo, diferente de ti, muitas ficaram impressionadas e extasiadas. Entre essas últimas, tenho colocado suas apreciações aqui no próprio blog. Isso para mostrar que o contraditório existe.

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