O homem e a mancha

O homem e a mancha

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A ilusão teatral


Anne Ubersfeld, pesquisadora teatral francesa recentemente falecida, escreve em seu livro Para ler o teatro, na página 23:
"Não existe ilusão teatral. O 'teatro de ilusão' é uma realização perversa da denegação: trata-se de exagerar a semelhança com a 'realidade' do universo socioeconômico do espectador, de tal modo que esse universo em sua totalidade se incline para a denegação. A ilusão transborda sobre a própria realidade, ou melhor, o espectador, diante de uma realidade que tenta imitar com perfeição este mundo, com a maior verossimilhança, se vê compelido à passividade. O espetáculo lhe diz: 'este mundo aqui reproduzido com tantos pormenores assemelha-se, a ponto de confundir-se com ele, ao mundo em que você vive (em que vivem também outras pessoas, mais afortunadas); assim como você não pode intervir no mundo cênico, fechado em seu círculo mágico, tampouco pode intervir no universo real em que vive'. Recuperamos aqui, pelo viés imprevisto da denegação freudiana, a crítica feita por Brecht ao processo de identificação.
Chegamos aqui ao paradoxo brechtiano: é no ponto máximo da identificação do espectador com o espetáculo que aumenta a distância entre o espectador e o espetáculo, arrastando no revide a maior 'distância' entre o espectador e sua própria ação no mundo. É o ponto em que o teatro, por assim dizer, desarma os homens diante do próprio destino."

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