O homem e a mancha

O homem e a mancha

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Sonata de otoño

Em 1978 o cineasta sueco Ingmar Bergman levou às telas o filme Sonata de outono, com Liv Ullmann e Ingrid Bergman nos papéis principais. Adaptada para o teatro, a história da famosa pianista Charlotte, que visita sua filha Eva após sete anos de ausência, ganhou esta versão uruguaia, dirigida por Omar Varela.
Bem, em primeiro lugar as dificuldades: Ingmar Bergman era o tipo de cineasta divisor de opiniões, assim como Michelangelo Antonioni, Woody Allen, Abbas Kiarostami, Theo Angelopoulos, Jean-Luc Godard, etc.. Polêmico porque não se restringia, em seus roteiros e na forma como manejava sua câmera, em respeitar os padrões cinematográficos dominantes. Assim, Bergman ficou conhecido como o cineasta da instrospecção. Seus roteiros, muitas vezes, mergulhavam na psicologia das personagens, expondo seus interiores em jorros elocutórios, onde vazavam sexualidades reprimidas, traumas guardados e mágoas afogadas. Sonata de otoño mantém essa mesma linha, aqui especialmente privilegiando o acerto de contas entre uma mãe bem-sucedida e uma filha aparentemente frustrada com sua vida apagada de mulher de um pastor em uma cidadezinha. Resumindo, as obras de e baseadas em Bergman contêm altas doses de emoções reprimidas, mas que explodem cenicamente a conta-gotas. Isso não facilita a empatia com a plateia, e neste caso específico, ainda menos, porque a peça é em espanhol. A velocidade com que são distendidas as discussões e as banalidades são muitas vezes não percebidas pelos brasileiros nativos.
O espetáculo está baseado, quase que exclusivamente, na força das palavras. Para isso, precisa contar com atrizes que deem conta disso. Nesse sentido, as atrizes (uma delas não fala nada) se esforçam com sucesso para manter esguichando o fluxo palavrório. No entanto, Estela Medina, que interpreta a mãe, soa excessivamente construída, portanto menos "verdadeira". Já a filha magoada, interpretada por Margarita Musto, está na medida da fé cênica (dá-lhe Stanislavski).
Em relação à encenação, há uma contenção de elementos, apenas duas cadeiras, uma poltrona e um piano. Ao fundo, um grande painel pintado onde centenas de troncos de árvores se acumulam. O restante, é trabalho da iluminação. E é uma bela iluminação, que procura criar espaços diferentes e enfatizar algumas atmosferas. O principal senão da peça é a marcação, estranha, que parece não combinar com a proposta do texto. Não sei, é difícil dirigir um trabalho desse tipo, totalmente dependente da palavra. Se ainda fosse uma comédia, poderiam-se criar gags com objetos e ações. Numa peça memorialista como essa, não há muito o que fazer com essa concepção mais realista: as personagens sentam e falam, caminham e falam, ficam de pé e falam. Uma proposta menos realista poderia talvez investir em imagens metafóricas.
O público parece ter gostado do espetáculo, sinceramente, estavam todos muito atentos. É de fato um trabalho sério e bem acabado, mas que não deixa muitos rastros após sua passagem.

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