O homem e a mancha

O homem e a mancha

sábado, 18 de setembro de 2010

Na solidão dos campos de algodão

Bernard-Marie Koltès (1948-1989) fez parte de uma geração de artistas devastada pela AIDS, ceifados em plena força criativa antes de avançarem ainda mais em suas buscas estéticas. Francês de nascimento, assim como Jean-Luc Lagarce, Koltès foi o responsável por alguns dos textos contemporâneos mais encenados pelo mundo (Tabataba, Combate de negros e cães, Roberto Zucco), em função de sua forma poética inovadora, que em Koltès se caracteriza pela palavra em primeiro plano. As longas réplicas enunciadas pelas duas personagens do texto Na solidão dos campos de algodão, de 1986, rompem, segundo Jean-Pierre Ryngaert (Ler o teatro contemporâneo, p. 25), "com a utilização contemporânea do diálogo nervoso", encontradas em Sarah Kane, por exemplo, surgida alguns anos depois. As duas personagens, sem nome, referidas apenas como o Cliente e o Negociador (ou Vendedor, ou Dealer, no texto original), são homens que se encontram, dentro da noite, e trocam impressões sobre suas funções, desejos, e filosofam largamente sobre essas questões.
Como texto aberto, Na solidão... é um desafio (palavrinha batida, mas necessária) para um encenador, que deverá encontrar a forma menos árida para colocar em cena essas palavras tão fortemente marcadas pela retórica, e sem sugestões, por parte do autor, de ações que as possam colorir. Assim, é um trabalho eminentemente de ator que é exigido, para deixar claras as nuances e movimentos de defesa e ataque propostos pelo texto.
A encenação de Caco Ciocler, com os atores Armando Babaioff (o Cliente) e Gustavo Vaz (o Negociador), encontra uma ambientação bastante original, e ao mesmo tempo muito adequada: cinco imensas gangorras de madeira, que se inclinam conforme as movimentações dos atores sobre elas. Ponto para a encenação. No entanto, o artifício se esgota, pois a peça tem 90 minutos, e o que fica é a necessidade de continuar falando, compulsivamente, e os atores, que têm um bom domínio da arte de dizer um texto, se esmeram em tornar interessantes as idas e vindas da relação.
Babaioff, que de início tem alguns problemas de dicção, se sai melhor no conjunto, exclusivamente porque Vaz, o Dealer, é tão vaidoso como ator que impregna sua personagem desse mesmo tom. Percebe-se claramente que ele se acha grande. Nada contra a vaidade no intérprete, acho mesmo que ela seja intrínseca, porque o ator é um exibicionista. Mas Vaz poderia ter segurado um pouco mais seu deslumbramento, que o torna por vezes antipático pelo excesso.
A cenografia e a iluminação apresentam possibilidades de grande beleza plástica. A luz é simples, mas eficiente. O que afasta um pouco o espectador médio é, sem dúvida, a complexidade do texto, longe de ser comunicativo, porque se embrenha em labirintos. É preciso ter atenção redobrada, porque o espaço onde a peça foi apresentada é grandioso, e o texto é intimista. As palavras de Koltès são lindas, fazem todo o sentido. Mas essa é a encruzilhada da dramaturgia contemporânea: a beleza e o cuidado da forma têm que conviver com a dificuldade, com a sofisticação propostas.

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