O homem e a mancha

O homem e a mancha

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Carícias


Há uns cinco anos, mais ou menos, assisti a uma montagem do texto Carícias, do catalão Sergi Belbel, com direção da Florência Gil. Era um trabalho acadêmico, e foi apresentado no espaço do Studio Stravaganza, com um elenco bem afinado. Lembro de alguns: João de Ricardo, João Pedro Gil, Diones Camargo, Ana Luiza Silva. Gostei bastante, tanto da encenação quanto do texto, que não conhecia. Agora, ao assistir outra versão da obra de Belbel, reforço minha opinião: o texto é muito bom, com tudo de melhor que pode advir de um autor pós-Beckett, ou seja, lá estão as frases elípticas, às vezes sem um sentido lógico aparente. A encenação é correta, e isso não é desmerecer o trabalho. No programa da peça, lê-se que o diretor é um cineasta que se aventurou pelas searas do teatro. Se isso não se percebe concretamente, quer dizer, não vemos cortes cinematográficos além daqueles propostos pela própria dramaturgia, nota-se, porém, uma timidez em usar elementos mais "teatrais". É uma opção estética, e que também passa pela concepção por vezes ingênua até. Explico: figurinos sempre em preto e branco ou cinza, com variações de estampas e padrões. Marcações que se sucedem à esquerda do palco, depois à direita e depois ao centro, sequencialmente. Ações próximas do naturalismo, que às vezes é quebrado pela ausência do objeto concreto (quando os atores trabalham com objetos imaginários: sardinha, alface, vermes, etc.).
Há até uma sugestão de ringue, quando as cenas são sempre interrompidas pelo soar de uma campainha, e começam novamente ao som dela. Tudo bonitinho e bem pensado, mas não chega a alçar voo.
O maior destaque, para mim, são dois dos atores, uma mulher e um rapaz (os dois da foto aí de cima). Como não sei os nomes deles, fico devendo a justa homenagem. O rapaz, especialmente, é muito bom, e tem um trabalho com texto extremamente verdadeiro. Faz um guri doidão por drogas, de 13 anos, e um cara de 25, que tem relação homossexual e depois tem uma ótima cena com a mãe (a outra atriz que destaco, ótima), quando ela lhe pede dinheiro.
Uma peça pernambucana, não tão comum de ser vista por aqui, e que merece ser conferida. Reclamação: todos os anos o Luciano traz peças de Recife para o Em Cena, mas nunca nada daqui vai para lá, apresentar-se no festival deles. Por que, se o nosso teatro é um dos melhores do Brasil, em qualidade e quantidade? Os curadores de lá estão devendo essa para nós, gaúchos.

Um comentário:

  1. Olá Marcelo. Sou Carla Valença, uma das curadoras do Festival Janeiro de Grandes Espetáculos, de Recife, PE e gostaria de lhe atualizar com relação ao intercâmbio que vem ocorrendo entre as cidades de Porto Alegre e Recife, através de nossos festivais. Há 3 anos, que espetáculos de Porto Alegre participam de nosso festival: em 2008, Sobre Anjos e Grilos e Pois é, Vizinha;em 2009, O Gordo e o Magro vão pro Céu e em 2010, Teresa e o Aquário.Desde 2007, Luciano Alabarse tem prestigiado nosso festival, que está em sua 17ª edição e sempre venho para o Poto Alegre em Cena para assistir e receber material dos espetáculos locais. Nestes anos, as cidades de POA e Recife vem encurtando suas distâncias e vem se criando de fato um intercâmbio, com artistas de ambas as cidades se comunicando e conhecendo uns ao outros. Estamos muito satisfeitos com isso, pois sabemos que a mesma dificuldade que temos de circular, vcs também tem. Estamos conseguindo aproximar os extremos e isso é maravilhoso!
    Parabéns por sua cobertura!

    Aproveitando, informo que os nomes dos atores de Carícias, destacados por vc são Rodrigo García e Paula de Renor.
    Site do JANEIRO DE GRANDES ESPETACULOS:
    www.janeirodegrandesespetaculos.com

    ResponderExcluir