O homem e a mancha

O homem e a mancha

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Cida Moreira, Elefantilt, Cabarecht


Cida Moreira é escorpiana, como eu. Nunca antes tivera oportunidade de me aproximar dessa grande cantora, atriz (bissexta) e professora, por isso a última semana foi tão legal. Participei da oficina da Cida, Técnica vocal para atores e cantores, dentro do Porto Alegre Em Cena: durante quatro manhãs, nos encontramos no foyer do Theatro São Pedro para fazer exercícios vocais, cantar e ouvir coisas inteligentes, só possíveis pela boca de alguém que é uma verdadeira artista: generosa, objetiva, justa, lúcida. Além de ter uma voz fenomenal. Ainda nessa semana assisti Cida em dois espetáculos, ambos dirigidos pelo Humberto Vieira: Elefantilt, versão do texto O filhote do elefante, de Bertolt Brecht, que por sua vez é um apêndice da peça Um homem é um homem (uma das minhas preferidas desse grande teatrólogo alemão). Nessa bem humorada e curta peça, Cida está ao teclado, acompanhando o elenco que canta coisas tão díspares quanto Another brick in the wall e O passo do elefantinho, com deboche e num clima de cabaré muito divertido.
Por falar em Elefantilt, tenho que destacar a encenação de Humberto Vieira, simples mas muito impactante visualmente. Como um dos atores avisa logo no início, a peça "não é para entender" (ou algo parecido, desculpem a citação imprecisa). Segue-se, naturalmente, uma estrutura mais ou menos definida (não vou dizer aristotélica, porque foi contra isso, justamente, que Brecht criou o seu "teatro épico"): o julgamento de um filhote de elefante, acusado de matar a própria mãe. As personagens da peça do elefante são interpretadas por personagens extraídos da peça Um homem é um homem (Galy Gay, a viúva Begbick, entre outros). Ou seja, vemos uma peça dentro de uma peça, numa estrutura épica que possibilita imensamente as quebras, os distanciamentos preconizados por Brecht: não é possível envolver-se afetivamente com a encenação, porque a todo momento somos lembrados de que se trata de uma encenação. Dentro da proposta brechtiana de estranhamento, Elefantilt é exemplar. Mas, é preciso dizer, se existe alguma reflexão a ser feita pelo espectador que assiste à montagem em questão, confesso que isso me escapou. Ao contrário de peças mais densas como Mãe coragem e seus filhos e O círculo de giz caucasiano, ou mesmo sátiras operísticas como A ópera dos três vinténs e Mahagonny, que deixam clara a questão a ser criticada, Elefantilt é quase que puramente divertimento. E não há nada de errado nisso, já que o próprio Brecht defendia o divertimento no teatro (mas não o divertimento pelo divertimento, que isso fique claro). A opção da encenação é proporcionar um espetáculo rico visualmente e musicalmente, e isso é muito mais do que se muitas vezes se vê pelos palcos brasileiros. A crítica social existe em Elefantilt, mas talvez ela não tenha fica suficientemente clara, e assim está ótimo, muito obrigado. Por se tratar de um apêndice de Um homem é um homem, conforme já escrevi, é na peça maior que se percebe claramente as intenções críticas do dramaturgo, restando a esse petit divertissement o papel que os entremezes tinham no teatro espanhol do século XVII, por exemplo. O elenco está "brechtiano", e isso é muito bom: debochados, despudorados, cantam e constroem, ao som de Cida Moreira (que está caracterizada soberbamente, parece um "cachorrão"), imagens vivas e interessantes. Os figurinos e a cenografia são especialmente belos (como é característico do Humberto), e isso não tem nada a ver apenas com beleza simétrica, pois a beleza pode ser feia, e a fealdade, bela; mas, acima de tudo, tem que ser adequada para o que se mostra sobre o palco. Quero ver Humberto montando uma peça longa de Brecht!
Cabarecht, que foi apresentado na noite de premiação do Troféu Braskem, novamente retoma o universo brechtiano, com composições Brecht-Weill e textos do dramaturgo. O elenco tem Cida Moreira (tocando um lindo piano de cauda), Antônio Carlos Brunet, Sandra Dani e Zé Adão Barbosa, e claro que o resultado é excelente. Humberto Vieira, que também dirigiu e roteirizou esse recital cênico-musical, aposta no humor, na maior parte do tempo, para nos fazer passear pela obra musical desses grandes compositores que foram Bert e Kurt. Para cantar Brecht não é necessário ser cantor lírico, já que as songs eram escritas para ser executadas por atores, mas sim saber interpretar as letras. A afinação, obviamente, é importante, mas isso os "cabarechticos" tiraram de letra, e ainda nos deram belas interpretações.

Um comentário:

  1. "Quem não compreender logo a ação, não precisa quebrar a cabeça. Ela é incompreensível." :)

    Eu que dava esse texto... Saudades...

    Beijos, querido professor!
    Amei o que escreveu sobre a peça!
    Até quarta!

    Daniela Guerrieri.

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