O homem e a mancha

O homem e a mancha

domingo, 12 de setembro de 2010

Happy days

Costuma-se dizer que Dias felizes foi a última grande peça de Samuel Beckett (1906-1989). Se considerarmos a extensão, a afirmação está correta, porque após 1961 Beckett não escreveu nenhum texto dramático tão longo. Agora, se a afirmação se refere à qualidade, não posso concordar com ela. Foram escritas pelo menos duas grandes obras-primas (Eu não, aquela da boca falante, de 1972; e Catástrofe, de 1982, a peça que Beckett dedicou ao meu ídolo Vaclav Havel), e uma série de textos curtos não menos impactantes, em direção ao niilismo exacerbado que caracteriza os últimos passos da obra beckettiana.
Dias felizes, no entanto, compõe com Esperando Godot e Fim de partida uma espécie de trilogia informal, aquelas peças mais montadas e celebradas pelo mundo.
Há poucos anos, esteve em Porto Alegre uma versão dirigida por Peter Brook para esse mesmo Happy days, com uma fantástica atriz negra interpretando Winnie. Comparar é inevitável, até porque trata-se de dois grandes mestres do teatro contemporâneo encenando uma mesma masterpiece. Em minha opinião (a de um adorador e curioso sobre o Teatro do Absurdo e Beckett), a versão de Brook saiu ganhando, porque me parece que a abordagem do texto, mais virtuosística e patética, caminhava em direção ao que imagino ser a raiz da peça. Sim, plasticamente Bob Wilson provoca mais um de seus milagres: a peça que ele dirigiu é linda. Iluminação e cenografia não deixam dúvidas de quem é o encenador por trás. Mas a metáfora por trás da situação inusitada que o texto propõe fica um pouco mascarada (melhor dizendo, é menos escavada).
Dias felizes é uma tragicomédia, não se pode negar; aliás, como quase tudo que Beckett e autores do Absurdo, como Ionesco, Arrabal, Havel, etc., escreveram. Ser tragicômico é mesclar e transformar o melancólico e o trágico no cômico, e vice-versa. Não confundir com o ideário romântico alemão, que defendia, à moda shakespereana, "o sublime e o grotesco" em uma mesma obra. Citação de Victor Hugo, do prefácio à sua peça Cromwell, a propósito. A sensação de inquietude, de dúvida sobre se o que se vê é risível ou "chorável" é o ponto nevrálgico desses autores citados (ok, Ionesco em menor proporção, porque usa o humor em maiores quantidades; ainda assim, veja-se A lição, As cadeiras ou O rinoceronte e tente-se rir de tudo aquilo, impunemente).
Bob Wilson nos apresenta mais uma grande peça. Ainda assim, fica a sensação de que o velho Bob trabalha melhor com outro tipo de encenação (fragmentada, como a de Heiner Müller e seu Quartett), onde pode dar vazão ilimitada à sua dramaturgia de imagens. Por favor, não entendam que estou esnobando Happy days, longe de mim. É inesquecível, mesmo sendo um Bob Wilson menor (e o menor dele é imenso).

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