O homem e a mancha

O homem e a mancha

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Ato de comunhão

Em 10 de março de 2001, o alemão Armin Meiwes extirpou o pênis do engenheiro, também germânico, Bernd Brandes. Após Meiwes e Brandes cozinharem o pênis em uma frigideira, comeram-no. Tudo sempre com a autorização do mutilado. Finalmente Meiwes matou Brandes, o cortou em dezenas de pedaços, os quais acondicionou em sacos plásticos, mantendo-os congelados em seu freezer. Nos meses seguintes, devorou a carne, até ser descoberto pela polícia.
Essa história real serviu de argumento para o dramaturgo argentino Lautaro Vilo escrever a peça Ato de comunhão, que agora estreou, com direção e atuação de Gilberto Gawronski, no íntimo palco do Teatro de Arena.
Não conheço o texto original, mas li que a peça prevê dois atores: o mutilador e o mutilado, por assim dizer. A versão de Gawronski elimina o segundo ator e coloca sobre o palco apenas o equivalente a Meiwes, que posteriormente é julgado pelo crime cometido.
Parêntese: Gilberto Gawronski é gaúcho, iniciou sua carreira sendo dirigido por Luciano Alabarse, há 30 anos. Após mudar-se para o Rio de Janeiro, desenvolveu uma longa e reconhecida carreira como ator e encenador. Salvo algumas participações em cinema e TV, o chão de Gawronski é mesmo o palco. Ele tem aquilo que se pode chamar de "a chama", a ousadia e a força necessárias para não se acomodar em fórmulas testadas. Gawronski experimenta, subverte, inventa, parece nunca estar satisfeito, e isso é o que faz o grande artista, a inquietação. Já o vi sendo o bobo do Rei Lear estrelado por Raul Cortez. Já o vi fazendo uma coisa muito estranha chamada Quero ser Gilberto Gawronski. Vi belas encenações dele, especialmente Meu destino é pecar, quando dirigiu os excelentes intérpretes da Cia. dos Atores, do RJ, a partir de Nelson Rodrigues. Uma peça inesquecível. Vi também uma "bichice shakespereana", Medida por medida, que me deixou decepcionado. Não está aí a comprovação de que Gawronski não se acomoda? Erros e acertos fazem parte da nossa profissão. Fecha parêntese.
Ato de comunhão é, indubitavelmente, ousado. Não apenas o texto, forte, repugnante em alguns momentos. Mas também a maneira como o encenador conta essa história. Trata-se de uma longa narração, em off, com cerca de 50 minutos, nos quais o ator Gawronski não pronuncia nenhuma palavra ao vivo (exceção: alguns murmúrios que acompanham, pouquíssimas vezes, a narração). Todas as ações que vemos sobre o palco, praticadas pelo ator, encontram eco na narração, umas mais desenvolvidas, outras apenas sugeridas. Ele trabalha com a contenção: raramente há ações bruscas (acho que nunca), e a movimentação é sempre suave.
A cenografia é pontual: uma armação de espelho, antiga, com um vidro transparente no lugar do aço; um cabideiro de madeira; um revisteiro, também de madeira; uma cadeira de barbeiro; uma tela onde são projetadas imagens; dois projetores de imagens, que por vezes colorem as paredes do teatro com fotos de desconhecidos. A imobilidade é buscada várias vezes, dando pleno destaque à narração, que passa por quatro fases distintas: lembranças da infância, que envolvem uma festa de aniversário e uma partida de videogame; o enterro da mãe; a vida como navegador obsessivo da internet; e o encontro com sua vítima antropófaga. Gawronski tem uma narração bastante neutra, que no início incomoda, já que é praticamente tudo a que temos acesso, já que não existem muitas ações interessantes sobre o palco. Com o passar do tempo, no entanto, e especialmente a partir da metade da peça, nos acostumamos com a narração sem grandes arroubos, e incorporamos a neutralidade como mais um elemento da atmosfera clean. O que era cansativo se torna mais interessante.
É impossível não associar a concepção de Gawronski a A última gravação de Krapp, de Samuel Beckett. Se no texto beckettiano, no entanto, as gravações em fitas antigas ouvidas pelo protagonista, no presente, se misturavam a observações dessa mesma personagem, muitos anos mais velha - na peça de Gawronski ouvimos sua narração, mas não sabemos exatamente em que espaço cênico ela se desenvolve. Provavelmente dentro da cabeça da  personagem, mas isso não fica claro (no começo, ele parece estar em uma espécie de casa abandonada, olhando a cenografia como quem visita um lugar após longo tempo; depois, esse mesmo ambiente é atualizado e se transforma no local onde ocorre a ação antropofágica).
A sutileza da interpretação do ator é bastante interessante, tudo é mínimo, os gestos, os olhares. Ao final, com o palco invadido por colunas de luz intensa, como grades de uma cela dentro da qual o protagonista está encarcerado, saímos da toca escura na qual estávamos imersos desde o começo.
Como já disse, é um espetáculo ousado. No programa distribuído, está escrito: primeiro estudo, o que indica tratar-se de uma primeira versão, a ser retrabalhada. Gilberto Gawronski já tem nas mãos um trabalho instigante e, principalmente, um texto maravilhoso. Não é uma peça que lhe dará prêmios de melhor ator, mas merece permanecer em cartaz pela grandeza de sua proposta.

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