O homem e a mancha

O homem e a mancha

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

O resto é silêncio

Sou daquelas pessoas que lêem vários livros ao mesmo tempo. Vou me revezando nos títulos, conforme o espírito. De livros teóricos a ficção (e, nos últimos anos, tenho pendido muito mais para os teóricos). Atualmente, leio O dramaturgo como pensador (Civilização Brasileira, 1991), História social da arte e da literatura, de Arnold Hauser (Martins Fontes, 1998) e o recém terminado O resto é silêncio, de Erico Veríssimo (Edições Globo, 1943!).
Este último é uma primeira edição do romance de Erico, adquirido pelo meu sogro (conforme indicação à caneta no início do livro) na Feira das Pulgas (atual Brique da Redenção), em 1983.
Li pouca coisa do Erico Veríssimo e - blasfêmia! - O tempo e o vento não está incluído. Comecei, ainda criança, com Clarissa e As aventuras do avião vermelho, e acabei não adentrando nos romances adultos, porque outro tipo de literatura me tomou completamente a atenção: os livros policiais.
Agora, porém, em período de férias, e com algum tempo sobrando, resolvi ler algo de Erico. O resto é silêncio, de 1943, faz referência em seu título à última fala de Hamlet, na peça homônima, de William Shakespeare (de 1600).
A escritura do romance foi inspirada por uma situação vivida pelo próprio Erico, em 1941, quando presenciou o suicídio de uma jovem que se jogou de um prédio, no Centro de Porto Alegre. No texto ficcional, o suicídio de uma jovem que se lança do alto do Edifício Império, no centro de Porto Alegre, é testemunhado por sete personagens, com vidas e interesses bem distintos. Esse fait divers é o ponto de partida para que o romancista construa um romance com uma deliciosa cor da capital gaúcha dos anos 1940. Apesar de não terem relações entre si, as sete personagens são crias de uma cidade mais provinciana, com muito menos habitantes, e que, consequentemente, faz com que todos acabem se cruzando, mais cedo ou mais tarde.
A estrutura do romance, narrado em apenas dois dias - a Sexta-Feira da Paixão e o Sábado de Aleluia -, com seus conflitos cotidianos, lembra alguns filmes de Robert Altman, como O jogador (1992) e Short cuts- Cenas da vida (1993), ou do recente Crash- No limite (de Paul Haggis, 2004). Personagens que vivem dentro de um mesmo centro urbano se cruzam, a partir de um incidente que os une, de alguma forma. Em Amores brutos (de Alexandre González-Iñárritu, 2000), outro exemplar do gênero, um grupo de pessoas era marcado por um acidente de carro, e passávamos a conhecer as consequências desse desastre em suas vidas.
Uma certa ingenuidade no tratamento de questões políticas (comunismo vs. capitalismo) e um idealismo às vezes demasiado, podem ser contornados levando em conta o fato de ter sido escrito há 65 anos. Vê-se, porém, a habilidade narrativa do autor, e o domínio na criação de personagens bem construídas e com conflitos interessantes, apesar de - e talvez por isso mesmo - comezinhos. Há, inclusive, um trecho em que já se pode entrever o fascínio de Erico por um tema que o levaria a escrever sua mais conhecida obra, de 1949 a 1962:

"Por sobre tudo isso, sempre e sempre o vento e a solidão, os horizontes sem fim e o tempo (...) E ainda as criaturas tristes e pacientes, esperando, vendo o tempo passar com o vento, e o vento agitar os coqueiros e os coqueiros acenar para as distâncias." (O resto é silêncio, Erico Veríssimo, p. 414)

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