O homem e a mancha

O homem e a mancha

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Apareceu a Margarida

Ontem, fui assistir ao espetáculo do Eduardo Kramer, Apareceu a Margarida, que tem Renato Del Campão como protagonista e Jairo Klein como o aluno humilhado. Há uns 3 anos, eu pensava seriamente em dirigir esse texto do Roberto Athayde, com a minha mulher Margarida, interpretando a temível professora Dona Margarida. Acreditava que a coincidência de nomes poderia ser uma bela brincadeira metalinguística (sem trema), sabe como é?...
Algum tempo depois, fiquei sabendo que o Eduardo e o Renato estavam pensando em montar, o que acabou com meus planos. É a segunda montagem que assisto dessa peça. A primeira foi dentro do DAD, em um projeto de graduação da Marina de Oliveira, que hoje já não faz mais teatro, mas um Doutorado em Letras na PUCRS - por falar nisso, ela deve estar agora em Portugal, fazendo o "sanduíche" dela.
O que ouvi de algumas pessoas é que o texto de Athayde seria datado, ou seja, trataria de questões muito próprias da década de 1970, quando foi escrito, e já estaria superado em sua temática. Com isso não concordo, não posso concordar. Autoritarismo, por mais que se encaixe como uma luva na crítica ao regime militar, existe em qualquer época, mesmo que em algumas ele seja autorizado e institucionalizado como prática oficial.
Além disso, o autoritarismo e sadismo de Dona Margarida acontecem, acredito, dentro de relações de poder de qualquer tipo. No caso de Apareceu a Margarida, a escolha por uma turma da quinta série apenas ressalta o quão indefesos podemos estar frente a uma força desgovernada. Mas sadismo e tortura mental acontecem em relações de trabalho, dentro da família, entre "amigos"...
O que acredito é que uma escolha acertada, em termos de encenação, pode determinar, ou não, o alcance que a crítica ao autoritarismo que o texto contém terá junto ao público. No caso do Teatrofídico, o grande acerto é a persona de Renato, que, com seu humor enlouquecido, característico de outras montagens dele, tanto como ator quanto como diretor, acrescenta uma dose de irracionalidade que funciona bem, em boa parte da peça. Está certo que o primeiro ato funciona melhor que o segundo, mas, no cômputo geral, é um espetáculo que acontece.
O que menos me agrada são algumas ideias do Eduardo, como misturar música eletrônica com uma encenação que tem uma cara anos 1970. Fica estranho. Da mesma forma, quando Dona Margarida adquire uns trejeitos de biba do século XXI, isso me distancia. Gostaria de ver Dona Margarida menos enlouquecida e mais perversa.
Por fim, quero dizer da minha admiração pelo Renato, que merecidamente está concorrendo ao Açorianos de Melhor Ator por Apareceu a Margarida. Já assisti muitos trabalhos com ele. Mas é uma peça pouco conhecida, que só cumpriu uma microtemporada, que me agrada mais que todos os outros: trata-se de Cinturão de fogo, uma comédia desenfreada em que Renato e Lila Vieira interpretavam dois negros que queriam fazer sucesso como artistas. Eu chorei de tanto rir, literalmente, quando assisti à montagem na Sala Carlos Carvalho, em 1992.
Acredito que a nova produção do Teatrofídico tem muito fôlego para permanecer em cartaz por longo tempo, enchendo a sala, como aconteceu ontem na sala 302 da Usina. Sucesso!

2 comentários:

  1. Fala, Marcelo. Obrigado pela visita no meu blog. Vou te colocar nos meus favoritos.
    Grande abraço.

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  2. Também gostei muito da Margarida do Renato!! Mas vc foi bem mais claro que eu ao dizer isso...

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