O homem e a mancha

O homem e a mancha

domingo, 13 de março de 2011

Teatro é religião

Tem-se, muitas vezes, a noção de que a palavra RELIGIÃO está ligada apenas ao sentimento íntimo que cada um de nós tem em alguma coisa, ou em um sistema de crenças. Mas crer em alguma coisa depende da FÉ, e a fé é racional: eu escolho ter, eu escolho acreditar em algo, eu escolho adotar um conjunto de crenças por acreditar que aquele é o que melhor supre minhas necessidades pessoais. A fé é individual, mas a religião é coletiva.
Dizer que teatro é uma religião não é errado, pois da mesma forma que outras religiões místicas, baseadas em crenças e dogmas, como o catolicismo, o judaísmo, o islamismo e o budismo, o TEATRO também tem uma estrutura pré-estabelecida, e os espectadores/crentes congregam ou não dessa fé, ou seja, prestigiam ou não essa religião.
Não é segredo que o impulso teatral do homem se apresentou desde épocas primitivas. Simulações de caçadas a animais na era do gelo, representações de forças da natureza: tudo era regido pelo pensamento mágico do homem primevo, que acreditava que representar alguma coisa era concretizá-la. Durante milhares de anos, se por um lado havia o impulso dramático de fingir ser algo ou alguém que não nós mesmos, faltava, por outro, o ingrediente principal para tornar essas representações em algo mais que uma expressão íntima de crenças pessoais: o espectador. Os participantes dos rituais de caça eram eles próprios espectadores uns dos outros. É por esse motivo que a Grécia detém o título de manjedoura do teatro ocidental, pois foi lá, pela primeira vez, que os impulsos dramáticos do homem foram orientados, de forma calculada, para apresentações públicas e endereçadas para outros que não os próprios executores.

Pulando vários séculos, chego ao teatro atual, aqui em Porto Alegre, e acredito que o conceito de religião pode ser aplicado ao que os artistas cênicos fazem. Não incorporo a isso nenhum aspecto místico, sobrenatural, mas sim a função que o teatro tem, em sua etimologia, de religar os homens a alguma coisa. O bom teatro tem a função de religar o homem a si mesmo, através da reflexão, por meio de ações elaboradas e tendo como objetivo o prazer estético. E, como as religiões tradicionais, o teatro também tem regras, convenções e actantes que desempenham funções específicas dentro dessa religião.
Como as religiões diferem entre si pelos diferentes dogmas, o teatro também é variadíssimo em suas formas, indo desde a tragédia mais clássica ao stand up mais comercial. Como há o catolicismo e o islamismo, há as dezenas de seitas pentecostais que tentam, através da oferta antiética de um lugar no paraíso mediante aviltantes dízimos.
O comportamento do público teatral assemelha-se, assim, ao dos fiéis que escolhem um ou outro templo para expressar sua fé. O teatro compromentido com a arte séria (no melhor sentido possível) perde em adesões para o teatro histérico e superficial, que reflete o que assembleias divinas e igrejas universais oferecem: shows pirotécnicos, repletos de batidíssimos conselhos de auto-ajuda, regados a sessões de milagres e exorcismos.
Não me identifico com nenhuma religião, a não ser a do teatro, que é aquela em que acredito profundamente como minha missão de vida. E minha religião teatral não é dogmática, mas melíflua, disposta a se transformar de acordo com minha evolução pessoal e meus interesses. Ela amadurece, ela acerta, ela erra, ela retoma e recomeça. Ela admite a existência de outras religiões, e torce para que elas se estabeleçam fortes, importantes, relevantes. Acredito que a religião do teatro é imortal, ainda que sofra baques a todo instante: entre eles a indecisão de novos fiéis, que veem-se seduzidos por outras experiências.

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