O homem e a mancha

O homem e a mancha

terça-feira, 1 de março de 2011

Music hall: teatro em Montevidéu

Um dos espetáculos a que assistimos em Montevidéu foi Music hall, do dramaturgo francês Jean-Luc Lagarce (1956-1995). A produção uruguaia foi apresentada no Teatro Circular, um dos mais importantes da cidade. Fundado em 1954, o prédio foi, principalmente durante o período da ditadura militar, um foco de resistência artística, encenando textos que denunciavam e/ou criticavam o regime de exceção. A exemplo do que aconteceu no Brasil e mais especialmente no Teatro de Arena de Porto Alegre, o Circular fazia uso, em seus espetáculos, de metáforas denunciantes do caos político em que se via afundado o país, não alcançadas pela ignorância dos censores. O atual Teatro Circular dispõe de dois espaços: uma arena de quatro lados lindíssima, com cerca de 200 lugares, e um espaço bem menor, uma espécie de sala multiuso, com no máximo 80 lugares, onde assistimos a Music hall.
A peça de Lagarce foi escrita em 1988 e estreou no ano seguinte. Trazendo três personagens (a Moça, o Boy 1 e o Boy 2), trata, como já indica o título, da vida de um pequeno grupo de artistas de variedades, em que canto e dança compõem o espetáculo. Esse gênero que teve seu auge há várias décadas, se encontra hoje em decadência, se não já quase desaparecido. E é esta espécie de homenagem aos artistas das artes cênicas que o texto do dramaturgo faz, com uma boa dose de melancolia, e que dificilmente não comove aos artistas em geral, que certamente se identificam com a situação: tudo parece ser pretexto para desistir - as más condições de produção, a falta de público -, mas no fim das contas o espírito que (n)os anima é quase imortal. Continuamos, apesar de tudo. É como se estivéssemos falando do teatro de Porto Alegre, não?
A encenação de Diego Arbelo é simples como deve ser, centrada fundamentalmente no trabalho dos atores. E os atores são muito bons, nos fazem entender profundamente do que se trata a peça, mesmo com a barreira da língua (o castelhano que falam é bem articulado, o que facilita a vida dos falantes de português).
O Luciano Alabarse, que nos acompanhou nesta apresentação a que assistimos, me disse que a produção uruguaia carece muito de incentivos, e geralmente as peças são montadas com parquíssimos recursos (exceção feita às produções da Comedia Nacional, que têm lugar no imponente Teatro Solís; mas este é um caso à parte, já que a Comedia é subsidiada pelo governo uruguaio, e os atores e toda a equipe são funcionários públicos, recebendo salários o ano todo e verba para caras produções). Assim, a cenografia do espetáculo de Arbelo consistia unicamente em uma escadinha com três degraus, um bandô vermelho colocado ao fundo, um banco (alto) sem encosto e alguns poucos acessórios (figurinos e malas). E os atores. E Bettina Mondino, extraordinária como intérprete. Realmente um trabalho memorável, que os porto-alegrenses terão a oportunidade de assistir em setembro, no Porto Alegre Em Cena.
P.S.: Bettina Mondino, que dá um show como atriz, interpreta lindamente a canção "De temps en temps", celebrizada por Joséphine Baker. Bettina tem uma voz irrepreensível, a que os gaúchos já tiveram a oportunidade de ouvir: em 2000, Luciano dirigiu o espetáculo Descobrimento, comemorando os 500 anos de Brasil. Entre os intérpretes estava a uruguaia Bettina, ao lado de Margarida Leoni Peixoto e outros atores-cantores de Porto Alegre. Ao final da apresentação de Music hall, fomos ao camarim cumprimentá-los, e Bettina, ao ver Margarida, ficou encantada e disse "Você é que tem uma voz perfeita!". Belo elogio para a Margarida, após ver Bettina emocionando com sua interpretação.


Nenhum comentário:

Postar um comentário