O homem e a mancha

O homem e a mancha

sábado, 25 de julho de 2009

Uma experiência

A seguir um texto que escrevi. Já comentei neste blog, várias vezes, mas nunca havia publicado nada. Não sei bem o que é, mas de qualquer forma, publico:

Começo do zero. E a partir daí, uma sucessão de números ultrapassam a barreira do abstrato. Os números vêm à mente como pequenos animais que, fixos em sua forma, imutáveis, como nove diferentes raças ou espécies que habitassem o mundo, construíssem um universo composto por nove mais um. E esse um, o zero, o sinal absoluto da totalidade, ou a inexistência absoluta da totalidade, comandasse com seu olho redondo, vazio, branco, vazado, as ações dos outros.
Um número principia a desabar do vazio. Um número magro, espetado, discreto, único, que leva sua voz a qualquer canto em que alguém queira ouvi-lo, que perturba a suavidade dos que dormitam em um espaço de nuvens. A boca do número se arregaça frente ao inexplorado. O primeiro que chega, o primeiro a trazer alguma informação.
Encerro a página sem saber exatamente o que fiz, o que fazer. Os olhos me doem, como areia que aderisse à superfície interna da pálpebra. Esfrego os olhos com os nós dos dedos. Os dedos estalam. Acendo um cigarro, à minha esquerda. Um cinzeiro com sete baganas, enredadas como pilares de um templo destruído, chamuscado pelo fogo. À volta, cinzas, acinzentadas, esbranquiçadas, enegrecidas.
Olho pela janela. Olho pela janela. Lá fora uma árvore, imóvel, velha, acinzentada, esbranquiçada, enegrecida. As folhas imóveis, sem brisa que as embale, penduram-se nas pontas dos galhos finos, ou habitam os longilíneos corpos que são como braços estendidos de um tronco enrugado.
Olho para dentro do quarto. Dentro do quarto o cinzeiro de vidro transparente, multifacetado, cremoso em sua solidez.
*
“Era preciso que se conversasse sobre isso, sobre as coisas que compõem a vida a dois. As coisas que tornam necessária a companhia de alguém não são muitas, muitos vivem sós, sem quem divida seus dias. No entanto, eu me sentia disposto a investir nisso. Em viver com alguém.”
Isso escrevi em uma noite fria, esperançoso, me projetando como personagem de uma história que eu próprio estivesse construindo. Facilmente apaguei as palavras com um selecionar e delete.
*
Começo do zero. Um dois três quatro e cinco apenas até cinco. Cinco parece ser a metade, parece ser o momento certo de parar. Parece que cinco encerra em si mesmo uma contenção, uma prudência interessantes. Até cinco chego, passando por quatro antes de mim, sem contar o zero, este que nada faz, apenas observa. A partir daqui o caminho parece ser mais árduo, ultrapassando a medida, o bom senso, o concreto. Atravessar a fronteira do conhecido, do estável, do confortável. A partir daqui, tudo é possível, tudo soa misterioso, as formas sinuosas se intensificam, vêem-se mais curvas que linhas retas. Não sei se sou capaz. O caminho, apesar de parecer tão longo quanto o já percorrido, é mais curto. De seis a nove são quatro. De um a cinco são cinco. E isso é perfeito. É irrevogável a afirmação de que de um a cinco são cinco, e nada poderá mudar isso. Não existem as frações, não existem casas depois da vírgula, existem homens inteiros em casas no fim de ruas. Ruas escuras, pouco iluminadas, que terminam em árvores acinzentadas, enegrecidas. Sem saída.
Meu olho esquerdo treme.

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