O homem e a mancha

O homem e a mancha

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Rir é o melhor negócio?


Na Zero Hora de hoje, o Segundo Caderno traz uma matéria que chama a atenção para o grande número de comédias que têm ocupado os palcos de Porto Alegre. Com o preciso título de "Rir é o melhor negócio", Renato Mendonça lembra de antigos sucessos locais do gênero, que ainda continuam suas carreiras comerciais, como Homens de perto, Tangos & tragédias, Se meu ponto G falasse..., e a chegada, nos últimos anos, de novos espetáculos que exploram o humor, como Primeiro as damas; os solos de Paulinho Mixaria, André Damasceno, Jair Kobe; e o espetáculo de improvisações e jogos Tá, e aí?!. Também fala do sucesso de Terça insana e similares, que vêm lotando teatros pelo Brasil.
Por que tantas comédias por aqui? Em 2008, com A comédia dos erros; em 2006, com Sonho de uma noite de verão; em 2005, com Dr. QS- Quriozas Qomédias (que não era apenas uma comédia, verdade seja dita); em 2004, com Mulheres à beira de um ataque de risos; em 2003, com O urso; enfim, esses são apenas algumas das peças que venceram o Prêmio Açorianos de Melhor Espetáculo em nossa cidade. Já no Oscar, é notória a preferência de dramas edificantes e/ou lacrimosos nas premiações principais. A grande maioria dos prêmios de melhor filme não são comédias.
Todos sabemos que uma comédia tem mais chance de atingir um público maior que um espetáculo com temática séria. Não vou falar de exceções, como as tragédias de Luciano Alabarse, e outras montagens com diferentes níveis de densidade dramática. Nós, que praticamos o teatro como meio de vida, percebemos que, quando queremos montar algo que não faça rir, teremos dificuldades em tirar as pessoas de casa: "Será que vai ter público?", é a pergunta que fazemos quando nos decidimos por um novo projeto.
Esclareço que, em minha opinião, a comédia pode ser tão ou mais densa que a tragédia. Já escrevi aqui que a reflexão que o riso pode causar muitas vezes é superior em eficácia, além do prazer catártico da gargalhada. Eu e a Margarida, na Cia. de Teatro ao Quadrado, já montamos seis espetáculos profissionais, e todos os seis eram ou utilizavam fartamente recursos da comédia em sua estrutura. Alguns desses espetáculos não tiveram um bom público, o que prova que a comédia também, dependendo da temática, sofre do mesmo mal da escassez de espectadores (em nosso caso, Sofá, uma comédia picante, de 2005, e Burgueses pequenos, de 2007, textos brilhantes de Marco Antonio de la Parra e Vaclav Havel, ambos, na ocasião, inéditos no Brasil). No entanto, eu e ela temos uma preferência estética pelo humor como agitador cultural. Gostamos do efeito de integração que o riso provoca entre palco e plateia.
Para não ficar muito longo o assunto, que continuarei em outro texto, quero lançar a questão: o que faz a comédia ter tanto prestígio por aqui? E, mais especificamente, alguns tipos de comédia?

Um comentário:

  1. Oi, Marcelo
    Muito boa a reflexão proposta pelo texto. Acho que o teatro tem que fazer o espectador sentir/vivenciar/experimentar algumas sensações, emoções, sentimentos, que às vezes podem ser antagônicos. A boa comédia sempre faz o espectador entrar em contato com o prazer, a alegria e o riso (que pode chegar a gargalhada). O problema é que as peças "sérias" não estão conseguindo causar nenhum sentimento na platéia. Ficamos apenas com as questões intelectuais. Somente a mente dá conta para se envolver com o espetáculo. Com a comédia isso nunca acontece. Ou, pelo menos, nunc deveria acontecer.
    Um abraço,
    M.F.

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