O homem e a mancha

O homem e a mancha

sábado, 15 de maio de 2010

Um homem sério

Os filmes dos irmãos Coen são tão esperados quanto as produções de Woody Allen, Martin Scorsese e outros desses diretores que usam o cinema para deixar uma marca de qualidade e estilo.
Em 2009, esses dois cineastas judeus produziram Um homem sério, que até concorreu com outros nove filmes ao último Oscar de Melhor Filme. O filme é um primor, encharcado daquele tipo de humor coeniano, e que agora descobri ter muito do humor judaico de suas raízes.
Nos últimos tempos, envolvido em profundidade com esse humor - por conta da direção do espetáculo Mães & Sogras, que tematiza também esse aspecto da cultura -, comecei a me dar conta cada vez mais da grande contribuição que a visão de mundo de alguns artistas judeus trouxeram à arte em geral. Passei a constatar que alguns dos meus artistas preferidos, e que mais me influenciam, são judeus, e isso inclui Woody Allen, Franz Kafka, os irmãos Coen e muitos outros. Há algo de cruel, de desesperançado, de esperançoso, de auto-depreciativo, de absurdo, de irônico, que me fascina. O filme dos Coen traz muito desses ingredientes, e de alguma forma aproxima a cultura judaica da antiga religião grega: o que Um homem sério parece frisar é que nossa vida na Terra independe de o quanto somos ou podemos ser generosos com os outros, pois não há relação de causalidade entre as desgraças que nos acometem e nossos atos. Como seria de se esperar em um filme que trata de personagens judeus, isso é bem pouco cristão, não é?
O protagonista, Lawrence Gopnik, interpretado por Michael Stuhlbarg, vê sua vida ruir em pouco tempo, durante o ano de 1967, nos EUA. Parece piada: a mulher o abandona, ele está sob ameaça de ser demitido de seu emprego em uma universidade, como professor de matemática, um vizinho se apropria de uma parte de seu terreno para construir uma garagem, etc.. Abalado por essa série de infortúnios, vai procurar conselhos com os rabinos, o que reforça o caráter inconclusivo da vida: os rabinos não têm uma explicação racional para nada, divagando sobre aspectos pouco claros ou cotidianos da existência. Qual o significado disso, por que as coisas acontecem desta maneira? Ninguém sabe; e se só Deus sabe, isso é o mesmo que dizer que ninguém sabe. A tragédia grega em que se transforma a vida de Gopnik, como um homem sério que tem sua vida destruída pelos desígnios imponderáveis de um ser superior (ou do próprio acaso), me faz cometer o seguinte silogismo ao inverso: Se Deus existe é porque Ele não existe; se Ele não existe, é porque existe.
Em última análise, o que parece valer é o pertencimento a uma comunidade que acredita em uma mesma coisa. No caso dos judeus, com uma tradição de milhares de anos como uma corda a guiá-los no meio da tempestade de areia da existência: não enxerga-se nada a mais de meio metro de distância, mas se o tato ainda é um sentido confiável, agarra-se a ele e vai-se palmilhando o espaço desconhecido. No caso de qualquer outra religião, os crentes são como ratinhos assustados no fundo de um armário, que se unem e se convencem mutuamente de que um cão bom e bravo virá e afastará o gato faminto que está prestes a abrir a porta do armário com suas garras afiadas. O cão está longe, e por vezes os ratinhos parecem ouvir um latido rouco, longínquo. Há esperança de que o cão chegue logo, sempre há. O Cão existe, amém.

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