O homem e a mancha

O homem e a mancha

sábado, 13 de junho de 2009

Crítica de Renato Mendonça - Platão dois em um

RENATO MENDONÇA
Não precisa ser grande filósofo para perceber qual é o grande ensinamento de Platão: Dois em Um, em cartaz até amanhã, no Theatro São Pedro: a lição é que existem dois Lucianos Alabarse em um. Depois de levar ao palco clássicos de Sófocles, Shakespeare e Eurípides, com encenações competentes mas que não se expunham a maiores ousadias estéticas, o diretor gaúcho voltou-se para Platão. A empreitada veio em dose dupla: Górgias, diálogos de Platão adaptados pelo próprio diretor, e O Banquete, uma reinvenção da obra do filósofo grego por conta de Donaldo Schüler. E apareceram os dois Alabarses. Górgias é cenicamente conservadora, limitada ao duelo verbal de Sócrates e convivas versando especialmente sobre o sofismo, ou a habilidade e técnica de usar as palavras sem ética. Brilham Marcelo Adams, Lutti Pereira e Marcos Contreras, como já era de se esperar. Apesar de algumas costuras que dramaturgicamente não funcionam entre os Diálogos, Górgias mobiliza a atenção, o engajamento e a indignação do público: como resistir à figura solitária e estoica de Sócrates vergastando os políticos? O Banquete, entretanto, marca a inauguração de um Alabarse carnavalizado, bem-humorado... e exagerado. A adaptação do texto é fundamental para definir o plano de voo do diretor. Schüler não se contenta em traduzir Platão: preocupado em provar a atualidade e a necessidade da cultura helênica, ele coloca em cena uma estudiosa dos antigos gregos que comenta, explica e participa dos debates. Alabarse também coloca seus convidados em cena: bailarinos que não se furtam a coreografias lascivas têm a ajuda de música ao vivo para reafirmar o clima de caos criativo que O Banquete - texto, evento e encenação - almeja. Agora, quem se destaca é Luiz Paulo Vasconcellos, Sandra Dani, Carlos Cunha Filho, Vika Schabbach (como a helenista), e novamente Adams, Contreras e Lutti. O Banquete acaba sendo a exposição das várias formas de se conhecer Eros e de se viver amor e sexo, e a própria encenação - errática, fragmentada, criativa e audaciosa - aponta o roteiro que um apaixonado deveria seguir. Alabarse não segue os conselhos gregos de temperança e equilíbrio. A inserção dos bailarinos e da música ao vivo, passado o impacto inicial, parece quase uma intromissão. Há também um papagaio em cena, que se mostra dispensável e apenas um foco a mais de atenção no já multifacetado Banquete. No meio de toda essa festa de arromba, Alabarse providencia pelo menos dois momentos antológicos, que se realizam justamente na singeleza. O primeiro, quando Sandra Dani brilha ao cantar com fé a épica Balada do Lado sem Luz, de Gilberto Gil. O segundo, quando Dani, no papel da sábia Diotima, ensina a Sócrates (Vasconcellos) que o amor e o desejo não cabem em conceitos estreitos como bem e mal. O detalhe é que Diotima explica isso manejando por trás os braços de Sócrates, transformado praticamente em marionete. Fica claro: é da paixão que vem o gesto, o movimento da mudança.No final do Banquete, é necessário saudar a estreia de Donaldo Schüler como dramaturgo (ainda que ele falhe em propor um clímax para fechar seu texto) e a afirmação de Luciano Alabarse como um diretor transgressor. Acima de tudo, Platão: Dois em Um celebra a coerência - Alabarse, Schüler e toda a equipe da peça deixam claro que não há melhor forma de falar da paixão que não com paixão. E com todos os eventuais exageros que os apaixonados cometem.

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