O homem e a mancha

O homem e a mancha

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Antônio Hohlfeldt escreve sobre Platão dois em um

Alucinado Luciano
Para qualquer outro diretor que não Luciano Alabarse, em Porto Alegre, o anúncio de que se transporia para o teatro dois diálogos de Platão poderia parecer loucura. Conhecendo Alabarse, contudo, não se pode duvidar. E lá fomos assistir a Platão - Dois em um, título que, se é fiel à intenção - dois textos de Platão num só espetáculo - não o é quanto ao resultado: porque o trabalho todo envolveu uma tradução-adaptação livre de Donaldo Schüler, reconhecidamente um especialista em grego desde os velhos tempos de faculdade; as leituras platônicas de Lacan e, claro, a intervenção do próprio Luciano Alabarse. Ou seja, muito mais que dois...No cenário da primeira encenação, encontramos as advertências gregas tradicionais: a necessidade de conhecer-se a si mesmo e a medida. Não se pode dizer que Luciano Alabarse tenha seguido estas lições. Primeiro, porque, seguindo o jogo de palavras de Sócrates, presente no diálogo Górgias, o diretor aproveita o teatro para descobrir, para aprender e para provocar descobrimentos e ensinamentos junto aos espectadores, que se divertem com esta perspectiva lúdica do espetáculo, que diminui a eventual dificuldade dos silogismos e da demasiada abstração que o pensamento platônico nos coloca.Por outro lado, se a desmedida - pecado sempre tão condenado pelos gregos - não colocou em perigo o projeto de Alabarse na primeira encenação, certamente apresentou-se na segunda. E desequilibrou-a. Mas com que prazer todos seguimos uma e outra encenação, surpresos pelo ritmo extremamente marcado, cuidadosamente desenvolvido e meticulosamente seguido por cada um dos intérpretes, ao longo de todo o primeiro espetáculo - fazendo com que as elocuções soem sempre naturais, não parecendo terem sido decoradas, e sem qualquer erro de formulação por nenhum dos intérpretes! Isso é admirável, um quase milagre do teatro, que encanta a todos.Mas quando voltamos para a sala e se inicia o segundo trabalho, eis a surpresa! Mudança absoluta de tom. Quem é este diretor? Banda de rock, cantores pop, trajes contemporâneos (a contrastar com os de época da cena anterior), um texto irônico, provocativo, que se derrama pelas linhas e pelas entrelinhas, numa representação extrovertida e desbragada, que choca quando comparada com a contenção da encenação anterior. Fica-se surpreso, de boca aberta. Tudo o que era razão e intelecto no primeiro trabalho, aqui é sentido, sensação: Eros, definitivamente, encontrou na dupla Schüler/Alabarse (via Lacan) discípulos fiéis. Consequentemente, tudo o que, na primeira encenação, estava nos seus lugares, aqui desborda. A introdução, com a Helenista, é longa demais. Pior fica o final, depois da pretendida saída de Sócrates do recinto do "simpósio", quando Luiz Paulo Vasconcellos transmuta-se em um médico cuja figura, aliás, nem consta do programa. No primeiro trabalho, o rigor total. No segundo, rigor ainda maior, para poder "fingir" que existe improvisação. Sempre reconheci em Luciano Alabarse um diretor meticuloso, tanto de ator quanto de cena. Aqui, ele se esmerou nas duas perspectivas. O primeiro trabalho é perfeito. Marcelo Adams é um divertido (e gordinho) Sócrates. O texto às vezes é debochado, mas, de qualquer modo, respeitoso. No segundo texto, o Sócrates de Luiz Paulo Vasconcellos faz contraponto. Ele conduz as ações, abrindo espaço para a Helenista - uma às vezes demasiadamente forçada Vika Schabbach, mas sempre engraçada e criativa - tanto quanto para um brilhante Lutti Pereira como Agatão. José Baldissera se diverte como Aristófanes, e Carlos Cunha Filho é perfeito como o médico Erixímaco. Mas a grande surpresa da noite é Margarida Leoni Peixoto: juro que não sabia que ela cantava, e tão bem. Seu contraste com a entrada impetuosa de Sandra Dani, como Diotima, num dos momentos mais líricos do espetáculo, é inesquecível. Enfim, até nos erros o diretor acertou.O cenário de Sylvia Moreira, nos dois casos, cria os ambientes necessários: no primeiro, minimalista: parede e mesa. No segundo, espaço mais amplo para músicos, cantores e atores. Os figurinos de Rô Cortinhas atendem ao que foi pedido: aproximação de época, no primeiro momento, e trajes contemporâneos, chamativos, escandalosos, no segundo (aquele vermelho em Carlos Cunha Filho..., com os tênis, é antológico). A direção musical de Moysés Lopes, que integra os Meliantes sonoros, é absolutamente perfeita e divertida. As pinturas de Adalberto Almeida são engraçadas, até quando imitam, com pouca fidelidade, a maga desnuda. O desenho animado é engraçado.Luciano Alabarse, que cuidou da escolha da trilha sonora, dirigiu e produziu, atuou como um verdadeiro chef d'orchestre. Deve ter-se divertido à beça, porque o resultado evidencia paixão, envolvimento emocional e, sobretudo, profunda sensibilidade, mais que racionalidade. Às vezes, sente-se um voo cego do diretor, que o levou a águas profundas, mas sem deixá-lo naufragar. Eis aí um espetáculo, felizmente bem recebido pelo público, que tem lotado o teatro, a ser visto, obrigatoriamente. O que Luciano Alabarse queria, enquanto fidelidade a Platão, ele conseguiu: leva o espectador a pensar, divertindo-se.

Um comentário:

  1. Não por acaso fui assistir duas vezes a peça.
    Parabéns pela atuação!
    Abraço,
    Mariana

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