O homem e a mancha

O homem e a mancha

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Quartett


Por esses dias tenho finalmente feito algo que, há tempos, já devia ter resolvido: passar para DVD velhas fitas em VHS, para preservar imagens que guardo, algumas há 15 anos. Entre as fitas que tenho recuperado para uma mídia mais durável, encontrei várias entrevistas minhas, em programas como Jornal do Almoço, Estação Cultura, Palavra de Mulher (sim, o programa cult da Marley Soares, na Guaíba), Palco (o extinto e para sempre lembrado programa que tratava exclusivamente de ARTE na TV Com) e Estúdio 36. Também estou salvando do mofo algumas gravações de peças que eu ou a Margarida fizemos (como a estreia dela nos palcos, Vida de cachorro, de 1993). E, entre essas fitas, recuperei Quartett, a montagem que eu e a Lúcia Bendati fizemos em 1999, como projeto de graduação em Interpretação teatral dela, no DAD.
Quartett, do dramaturgo alemão Heiner Müller, escrita em 1982, é uma recriação do romance epistolar As relações perigosas, do francês Choderlos de Laclos, escrito exatamente 200 anos antes, em 1782. Müller, como é comum em sua dramaturgia a partir dos anos 1970, dá poucas indicações para o possível encenador de sua obra. As rubricas são raras e, em Quartett, resumem-se a informar que a ação se passa ou em um bunker ou em um salão de baile ou em nenhum desses lugares; ou seja, Müller quer dar a maior liberdade possível para que a poesia de suas palavras ganhe as mais variadas versões.
A recriação do dramaturgo alemão coloca em cena dois personagens: Valmont e a Marquesa de Merteuil, figuras que apenas têm prazer com a sedução do outro. Esses dois predadores encarnam, em um jogo rico em nuances, outras personagens. Assim, em um quarteto de figuras que existem ou não, a poesia ácida de Müller é lançada. É claro que há a famosa desconstrução heinermülleriana, e as atordoantes imagens, que às vezes se repetem (por exemplo, a imagem da mulher com a cabeça dentro do forno a gás, arroxeada e morta, aparece em Quartett e em Hamletmachine). Quartett é um petardo verbal, e um grande desafio para o encenador, já que não propõe ações concretas. De resto, essa é uma das características da dramaturgia contemporânea, vide Na solidão dos campos de algodão, de Bernard-Marie Koltès, que também coloca em cena dois personagens que falam muito, em longos monólogos, muitas vezes escapando para o terreno lírico, com um fiapo de história a uni-los. A dramaturgia dos últimos anos vem impregnada pelo lírico e pelo épico, deixando que o dramático seja apenas um de seus constituintes (ao contrário do que apregoava o velho Aristóteles).
Mas voltando à nossa montagem de 1999, revendo aquelas imagens fiquei bastante surpreso com a qualidade de algumas opções cênicas. Afora o fato de termos, eu e a Lucinha, evoluído artisticamente em 10 anos, percebo uma garra e uma entrega muito interessantes. Algumas ingenuidades não obscurecem o bom resultado geral, que contou com a iluminação do Karrá e com figurinos de Antônio Rabadan. E neste ano, em que Porto Alegre receberá a brilhante Isabelle Huppert com uma montagem de Quartett, fico muito curioso em saber que cara eles darão às fantasias de Heiner Müller, que já tiveram até um frigorífico como cenário, na versão de Gerald Thomas, com Ney Latorraca. Vamos aguardar setembro.

Um comentário:

  1. hahaha! Amei tua chamada no meu blog Valmont! Grande sacada de marketing... até a página dois, pois vamos ver se as pessoas se interessam em me ver em trajes sumários! hahaha... Bom já te falei que quero uma cópia deste dvd né? Pra garantir, pois tenho horrores de material para passar de VHS também. Coisas que me interessam como análise, do tipo nossos ensaios tb. Tb andei revendo há pouco tempo aquela montagem meteórica. Também concordo com as ingenuidades e com as boas sacadas. Mas só podia concordar né? Não te chamei pra partner à toa, e sim porque a gente se afinava! Sei que já te disse isso na época, mas reitero: Muito obrigada por ter embarcado naquela loucura comigo! Só espero não ter que esperar muito pra gente louquear juntos de novo! Beijos Valmont!
    Merteuil

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