O homem e a mancha

O homem e a mancha

terça-feira, 24 de maio de 2011

Talento trágico teutônico

A edição da Zero Hora do último sábado, 21 de maio, no caderno Cultura, trouxe um artigo escrito por mim, sobre o grande Ivo Bender. Abaixo reproduzo o texto publicado:

Talento trágico teutônico
Por Marcelo Ádams
Ator e professor do curso de Teatro- Licenciatura da UERGS


            Ivo Bender é o mais importante dramaturgo gaúcho em atividade, faz parte do seleto grupo de escritores locais que produziram para o teatro, junto de Qorpo-Santo, Carlos Carvalho e Vera Karam, entre outros. No entanto, Bender é quem mais tempo tem dedicado à prática do palco – estreou em 1961, ainda estudante de Letras na UFRGS, com a peça As cartas marcadas ou Os assassinos –, o que nos leva à justa comemoração de seus 75 anos de vida e 50 de trabalho.
            Bender tem uma extensa obra, composta de 35 peças, além de incursões como tradutor (Racine, Pinter, Emily Dickinson) e contista (o recém lançado Contos), mas foi na especificidade da linguagem cênica que encontrou sua expressão ideal. Alternando a produção de textos de conteúdo irreverente (Quem roubou meu anabela?, 1972) ou mais sério (Sexta-feira das paixões, 1975), passando pela experiência de escrever teatro para crianças (O macaco e a velha, 1974), o autor, “valendo-se da linguagem do teatro do absurdo, critica convenções sociais e desmascara comportamentos estereotipados” e, por outro lado, nas peças de temática mais densa “dá vazão a uma representação do mundo inconsciente do indivíduo, os seus desejos e paixões, criando situações de conflito insolúvel" (citações de Regina Zilberman, em Autores Gaúchos nº3, IEL, 1989).
Em destaque dentro de sua obra está a Trilogia Perversa, publicada em 1988 (Porto Alegre, Ed. da UFRGS), que se ilumina como sua mais importante criação, pela profundidade e originalidade da forma e rigor da linguagem, evidenciando inegável contribuição para o teatro brasileiro, mas infelizmente pouco conhecida fora do Rio Grande do Sul. Composta por três peças batizadas com os títulos de datas significativas da História sul-riograndense, adaptam de maneira sofisticada aspectos da mitologia grega ao contexto da colonização alemã no interior do RS.
O mito dos Atridas é o motor dramático da Trilogia Perversa, que nos apresenta os dramas trágicos Colheita de cinzas- 1941, As núpcias de Teodora- 1874 e A ronda do lobo- 1826 (títulos das encenações dirigidas por Decio Antunes, que renomearão as peças numa eventual reedição da trilogia). Em Colheita de cinzas temos a história de Ulrica e de sua filha Ereda – versões de Clitemnestra e Electra –, isoladas pela Grande Enchente de 1941 em uma propriedade rural no interior do Estado. Ereda aguarda o retorno do irmão Henrique, que fôra estudar em um seminário, para que ele o ajude a perpetrar a vingança pela qual tanto anseia: matar a mãe, autora do assassinato do Pai. Após o retorno de Henrique e a revelação de Ereda, detalhando a morte do Pai ao irmão, Ulrica é sufocada pelo próprio filho com um travesseiro, encerrando-se a trama com a solidão noturna dos irmãos cúmplices.   
As núpcias de Teodora- 1874 adapta as peripécias da tragédia Ifigênia em Áulis, de Eurípides: o general Agamenon está às voltas com a terrível decisão de sacrificar sua filha Ifigênia à deusa Ártemis, para que soprem os ventos favoráveis à partida das naus gregas para Troia. Na versão de Bender, a ação é transferida para um episódio conhecido de nossa História: o cerco das tropas do governo brasileiro ao acampamento dos Mucker, liderados pela lider messiânica Jacobina Maurer, ocorrido em 1874, na região do Morro Ferrabrás. Em Bender, Jacobina exige que seu braço direito Cristóvão Hagemann sacrifique sua filha Teodora, para que o exército que ataca o acampamento seja derrotado pela seita. Esta liberdade poética do autor, transformando Jacobina em uma versão da deusa Ártemis, torna a peça impactante e rica em carga emocional.
Em A ronda do lobo-1826 o mito dos irmãos Atreu e Tiestes é recriado nos primórdios da colonização alemã no Rio Grande do Sul. O prólogo acompanha a ação na Alemanha, quando os irmãos Klaus e Felipe matam o caçula Cristiano sob orientação da Mãe, pois a vítima havia sido flagrada em ato homossexual. Ao descobrir o assassinato, o Pai amaldiçoa os irmãos criminosos, levando-os a imigrar para o Brasil, onde o restante da trama se desenvolve. O envolvimento de Felipe com a cunhada Rosina provoca uma horrenda vingança: Klaus mata o filho que o irmão tivera com a bugra Orlanda e o serve como refeição, fazendo com que Felipe coma a carne da criança que gerou.
Ivo Bender transcria o universo fechado da tragédia grega no ambiente rígido da germanidade, encontrando um equivalente perfeito. Porém em lugar da grandiosidade, se vê intimismo. Os dramas trágicos de Bender nos são muito próximos, mesmo se referindo a arcaicos assassinatos familiares. A ascendência alemã do autor lhe dá a consciência profunda do tema, e suas peças são como um acerto de contas com a própria origem: trazem a influência irreversível da psicanálise no mundo moderno, e por esse motivo a memória aparece tão intensamente na obra. Em Colheita de cinzas, muito da ação se desvenda pelo recordar das personagens: em uma cena, Henrique parte uma fatia de pão e as lembranças emergem, tal qual Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust. As núpcias de Teodora expõe o massacre dos colonos que divide opiniões ainda hoje, através de uma culpa mal-resolvida que atravessa gerações. A estrutura de A ronda do lobo é totalmente fragmentada, a partir do ponto de vista de um Narrador-personagem que iça acontecimentos muito antigos e esmaecidos, tecendo a trama. Essa obra sem paralelos no teatro brasileiro coloca Bender ao lado de Eugene O’Neill e sua Electra enlutada. Ambos trouxeram a tragédia grega para o seio da família do século XX, com resultados magníficos.


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