O homem e a mancha

O homem e a mancha

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Hotel Fuck: delírio pulp

Neste fim de semana, consegui me programar para assistir ao novo espetáculo da Santa Estação Cia. de Teatro, Hotel Fuck: Num dia quente a maionese pode te matar. Dividido em três episódios, apresentados em dias subsequentes, o grande (em todos os sentidos) trabalho de encenação da companhia porto-alegrense, comandado por Jezebel de Carli, é de marcar época, dada a virtuosística engrenagem criada e concretizada pelo excelente grupo de atores (Ana Carolina Moreno, Denis Gosch, Jeffie Lopes, Gabriela Grecco, Larissa Sanguiné, Luciana Rossi e Rafael Guerra).
Hotel Fuck é pulp. Tanto no sentido original, ou seja, histórias por vezes de gosto duvidoso, ou envolvendo temáticas pouco realistas, como ficção científica ou "histórias de detetive", quanto nas explícitas homenagens ao cinema de Quentin Tarantino (que homenageou o "gênero" com sua obra-prima Pulp Fiction- Tempo de violência). O amontoado de clichês linguísticos e situacionais foi captado com grande sucesso por Diones Camargo, a quem coube dar forma às histórias que se entrecruzam no cenário de um hotel de baixa categoria. As falas ditas pelas personagens trazem expostas as influências de quem conhece o cinema noir norte-americano e as produções policiais dos anos 1970, especialmente o blaxploitation (filmes de conteúdo violento produzidos nos EUA naquela década, tendo negros como personagens, em produções como Shaft e Foxy Brown). Cabe lembrar que o próprio Tarantino homenageou esse tipo de produção com seu longa Jackie Brown.
Mas as influências do cinema não param por aí. Há desde Sexta-feira 13, o pioneiro dos filmes de serial killers perturbados, até (conforme minha percepção) Dublê de corpo, um clássico oitentista de Brian de Palma, ambientado no meio da indústria do cinema pornô. Pitadas de David Lynch perturbam a cena, e nos lançam enigmáticas ações das personagens. Por falar em De Palma, a figura de Jeffie Lopes, travestido como mulher, me remeteu imediatamente ao psiquiatra assassino de Vestida para matar, um dos meus filmes preferidos, que por sua vez homenageava o cinema de Alfred Hitchcock.
Em suma, quem ama cinema, encontra dezenas de referências deliciosas. Não eruditas, não acadêmicas, mas daquilo que faz o cinema ser o que é: a famosa fábrica de ilusões. E o sensacional em tudo isso é que a Santa Estação faz teatro de primeira qualidade, falando de cinema. Poderia-se ler o espetáculo como uma ode à arte, ao teatro, onde fazemos de conta num momento e, no seguinte, destruimos a ilusão. Mas a peça não se pretende filosófica, mas sim uma saga de divertimento, sangue e teatralidade. Um trabalho memorável, certamente o melhor do grupo a que já assisti, pois é ousado, rigorosamente executado e apaixonadamente defendido. Na apresentação de domingo, a última da temporada, nas cenas finais percebiam-se os olhos marejados dos atores, emocionados e certamente com a sensação de dever cumprido. A emoção deles passou para a plateia, e foi impossível não se comover com a imensa dedicação e amor ao seu trabalho que eles demonstravam.
Muitos parabéns ao grupo, que após graves dificuldades no ano passado, quando tiveram que cancelar a temporada prevista, não se abateram e mantiveram viva a Vontade. Voltam agora, vitoriosos e nos entregando um produto (para usar a linguagem própria ao audiovisual) de alta qualidade.

5 comentários:

  1. Realmente um espetáculo empolgante!!

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  2. Marcelo... sem palavras. difícil de ler até o final, com as lágrimas não deixavam enxergar. obrigada pelo carinho, acima de tudo. afinal, é isso que vale na vida.

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