O homem e a mancha

O homem e a mancha

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Crítica de Antônio Hohlfeldt- Mães & Sogras

Antônio Hohlfeldt é o único crítico teatral de Porto Alegre que mantém uma coluna semanal regular, há décadas. Atualmente escrevendo às sextas-feiras no Jornal do Comércio, Hohlfeldt tem qualidades e defeitos como analista das produções teatrais. Qualidades: é um grande intelectual, dedicado especialmente à literatura e recepção das obras que critica. Defeitos: é um grande intelectual, dedicado especialmente à literatura e recepção das obras que critica.
Achou redundantes as frases acima? É proposital. Hohlfeldt, que foi meu professor em duas universidades diferentes (fui aluno dele no curso de Jornalismo da PUCRS e no curso de Artes Cênicas da UFRGS) é um grande amante do teatro, no sentido mais generoso possível. Porém suas críticas optam por focar muito mais nos aspectos dramatúrgicos que espetaculares, e é aí que reside a deficiência, em minha opinião. Porque falar da dramaturgia de uma peça ele faz com muita propriedade, mas fico sempre esperando uma linha a mais sobre a estética das peças, sobre os elementos que compõem o espetáculo, que são, em última análise, aqueles que fazem de uma peça no papel um espetáculo: teatro.
Dito tudo isso, e reafirmando minha admiração por esse Quixote local, reproduzo a crítica dele de Mães & Sogras:



Estreia a ser valorizada


É gratificante e de enorme responsabilidade se poder registrar um novo talento e poder avaliar o que ele apresenta. É o caso da peça Mães & sogras, de Leandro Sarmatz, na direção de Marcelo Adams. Alegadamente, Sarmatz retoma a tradição da comédia de humor negro ídiche. Explora a “figura folclórica”, como menciona Moacyr Scliar, da “mama” judia, num texto que, como não o li no original, fico sem saber como classificar: se, de fato, se trata de uma comédia ou se, na verdade, é um drama que quase chega à tragédia. A opção do diretor segue duas direções, e por isso mesmo denomina-se como tragicomédia, ao que acrescenta o adjetivo “musical”, o que não me parece correto, pois se trata de quatro canções que marcam determinados momentos do espetáculo, mas não o transforma exatamente num musical. Diga-se de passagem que as composições de Rafael Ferrari, com letras do próprio Marcelo Adams, são muito interessantes, musicalmente falando, em especial A outra, que é bem concebida e tocante, no que expressa.


O espetáculo está claramente dividido em três partes, como uma espécie de tese. Na primeira, a mais longa, de cerca de uma hora de duração, assistimos a um longo, e às vezes, monótono diálogo entre duas amigas, Bella e Anita. Ambas judias, ambas mães. Margarida Leoni Peixoto incorpora Bella que, apesar do nome, é uma verdadeira déspota, seja com o marido, já falecido, seja com o filho, que ousou desafiá-la ao casar com uma jovem não judia. Anita é mais comedida, vivida por Naiara Harry; é hilária pelas observações que faz, ao mesmo tempo em que demonstra certa maldade para com a amiga, ao mencionar constantemente o filho distante de Bella, a quem esta teima em idealizar. Neste longo diálogo, temos dois movimentos: as referências em flash-back, que nos informam sobre as personagens e o presente, que será então desdobrado ao longo do espetáculo; e a exploração de lugares-comuns da cultura judaica, especialmente a fixação nas doenças. A coleção de mortos que desfia no diálogo das duas mulheres vai-se tornando engraçada, na medida em que ambas se comprazem com tais situações.


No segundo momento, apresentam-se flashes que ilustram valores e (pré)conceitos das duas mulheres. Num deles, prepara-se o terceiro momento: fica-se sabendo que o filho de Bella vai voltar do exterior. Casado, com uma filhinha pequena, ele jamais escreveu ou respondeu cartas da mãe, depois que esta se recusou a ir ao casamento do filho ou ver fotografias da neta.


O terceiro momento é um corte radical. Na clínica de saúde a que Bella acompanha Anita, encontra uma jovem também à morte. Descobre-se que a mulher é a nora de Bella, que logo a identifica. A jovem refere a sogra como uma víbora e narra a exigência de Bella em não receber a neta. Um corte de cena e temos Bella, sozinha com uma empregada que a acompanha depois de alguns anos, mas, grávida, está prestes a deixá-la. Bella está absolutamente louca. Um ano depois de retornado, o filho ainda não a visitou nem deu sinal de vida. Fiquei a me interrogar como o dramaturgo ia resolver a situação. Ele se sai bem, optando pela fantasia, num final de espetáculo valorizado pelo diretor. Margarida Leoni Peixoto e Naiara Harry estão estupendas e emocionantes, superando-se em cena. Carla Gasperin, como a jovem doente, Cláudia Lewis, como a empregada, e Rafael Ferrari, já mencionado, completam o elenco. Cada um desdobra sua tarefa a contento.


Leandro Sarmatz faz uma estreia mostrando que tem o que dizer. O texto não é perfeito. Acho que precisa ser reduzido e suas partes devem ser melhor cozidas. Ou seja, o dramaturgo precisará reescrever seu texto. Mas o tema e o foco estão perfeitos. A direção de Marcelo Adams fez uma opção que não posso julgar, por desconhecer o texto original. Mas fica evidente que ele se preocupou em preencher cenicamente os vazios do texto, de modo a dar movimento para o espetáculo. Seu maior mérito foi, claro, a direção de atores, precisa. Mas a concepção do espetáculo alcançou vitalidade no texto, colocando um espetáculo em pé, que se afirma sobretudo em seu final. Sem ser perfeito, eis aí um trabalho a ser respeitado e valorizado, mostrando seriedade e profissionalismo que muito nos alegra.

Um comentário:

  1. Olá Marcelo, gostaria de saber de quem são os créditos desta foto do Antonio Hohlfeldt.
    Em que ocasião foi tirada?

    Obrigada
    Luisa

    favor responder para
    lule_schumacher@hotmail.com

    Trabalho PUCRS

    ResponderExcluir