O homem e a mancha

O homem e a mancha

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A VERTIGEM DOS ANIMAIS ANTES DO ABATE: A VISÃO DE ANTONIO HOHLFELDT

Apesar de considerar o jornalista e professor Antônio Hohlfeldt um homem muito inteligente, geralmente sinto falta de que, em suas análises teatrais, ele valorize a encenação (aquilo que não é dado a priori por um dramaturgo, escrevendo no conforto de seu gabinete, a milhares de quilômetros de distância) tanto quanto a dramaturgia, em um espetáculo. O que geralmente leio é o contrário: Hohlfeldt argumenta bastante sobre a dramaturgia e deixa de lado justamente aquilo QUE FAZ DO TEATRO, TEATRO, ou seja, os inúmeros elementos que se juntam, se influenciam, se atritam, se contradizem, no momento presente, no "ao vivo" do evento teatral. Mesmo com essa ressalva, compartilho a opinião escrita de Hohlfeldt sobre nosso espetáculo, lamentando no entanto que ele dedique apenas algumas linhas aos artistas locais, que literalmente suam as camisetas durante 2 horas, e destaque a inegável qualidade do texto de Dimítris Dimitriádis. Também ressalto a distraída não menção do nome de MARGARIDA PEIXOTO, cujo nome consta no programa distribuído a todos os espectadores, como codiretora de A vertigem dos animais antes do abate, ao lado de Luciano Alabarse. Segue o texto de Hohlfeldt, publicado no Jornal do Comércio de Porto Alegre, em 18 de julho de 2014:
 

Ousadia e profunda reflexão

Sempre que temos a possibilidade de conhecer um novo dramaturgo, sobretudo contemporâneo, este é um momento de alegria. No caso de Dimítris Dimitriádis, tão mais importante porque, em ampla circulação na França, onde se encontra consagrado, é quase inédito no Brasil (há uma montagem em São Paulo que adapta um texto de prosa, dele, para o teatro, a exemplo do que já ocorreu na Europa), tanto quanto em seu país de origem, a Grécia, o que não é para admirar, tal a subversão das formas clássicas e a ferocidade com que investe contra o estatuto da classe média.
A vertigem dos animais antes do abate, belíssimo título, que é referido no interior do texto, pelo coro, é uma peça instigante: faz citações mais ou menos diretas a boa parte das tragédias clássicas, de Ésquilo a Eurípides, passando especialmente por Sófocles. Neste texto, igualmente, inverte-se aquilo que Aristóteles havia reconhecido, em seu estudo sobre a tragédia: quem comanda os destinos dos homens são os deuses. Ora, para Dimitriádis é o inverso: quem comanda o universo dos homens são os próprios homens e o grande responsável pela infelicidade humana é o falo masculino. Por isso, ao final do espetáculo, ocorre a autocastração, numa tentativa de eliminar o motivo causador da tragédia. Contudo, o personagem não se dá conta que existe algo mais do que o simples sentido sexual. Quando Militsa planeja o casamento com Nilos, não o faz apenas por uma questão de desejo sexual, mas, mesmo que inconscientemente, por ambição. Esta se torna, no curso da peça, a grande motivadora do que se vai seguir. É o que leva Nilos a romper com Filon: casar com Militsa é o modo pelo qual o casal vai ascender socialmente. Há uma passagem interessante, aí pela metade do texto, em que Nilos recorre à Filon para recompor a maldição que então o amigo e amante lhe antecipara. O que ele necessita é precisar a ordem pela qual a maldição foi pronunciada. O que temos, então, é claro: o final do I ato ocorre quando Nilos apresenta à esposa uma espécie de inventário de todos os imensos bens que possuem. O II ato já se abre, contudo, com o início da queda.
É como se Dimitriádis seguisse a perspectiva debatida, nos anos 1970, por Herbert Marcuse: entre Eros e Tánatos (vida e morte; sexualidade e poder, seja ele financeiro ou político, ou ainda ambos, como se depreende da peça, a contemporaneidade dá preferência ao segundo. Esta é a sua culpabilidade). Nilos, então, recria a ordem da maldição. Relembra Filon: “Viverão felizes no início, vão enriquecer e ter tudo o que nunca sonharam, mas pouco a pouco voltarão a perder tudo”. Esta é a chave, em meu entender, de toda a peça. Para mim, portanto, é menos uma questão psicológica ou algo parecido, mas política, sem o que fica sem sentido toda a passagem que envolve Evguenius, inclusive o fato de ele morrer por uma pretensa revolução gorada. Há, claro, uma relação entre a sexualidade e a Economia/Política (poder) mas há, também, uma avaliação, por parte do dramaturgo, que esta ambição pelo poder mata a sexualidade e produz todos os acontecimentos trágicos que a peça desenvolve. Por isso a reflexão final de Nilos: “Ninguém pode escapar do que lhe está destinado.  Isso é uma pergunta? Não. A pergunta é qual é a pergunta. Ainda não sei qual é a pergunta”.
Luciano Alabarse evidencia enorme ousadia e coragem ao realizar a montagem deste texto. Teve uma bela produção, o que demonstra ter investido forte e resolutamente. A presença do maestro Everton Rodrigues, ao piano, que há poucos dias me chamou a atenção por seu trabalho em Godspell, confirma sua qualificação. A escolha de Chopin, por exemplo, é sensível. A interpretação de Muni é inesquecível. O elenco todo se encontra muito equilibrado, seguro, corajoso.
Teria apenas pequenos reparos a fazer: não entendi por que os homens ficam nus e as mulheres, não. Também discordo do modo pelo qual Alabarse conclui o espetáculo. A incidência final da canção é dispensável. Não se discute a natureza humana quanto à animalidade sexual (erótica) e, sim, quanto à animalidade da ambição.

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