O homem e a mancha

O homem e a mancha

sábado, 5 de julho de 2014

A VERTIGEM DE UMA ESPECTADORA

 
Uma espectadora assistiu A vertigem dos animais antes do abate e colocou em seu blog (www.tagarela78.blogspot.com.br) as suas impressões. São tão bonitas as palavras da Daniela Spera, que as reproduzo aqui:
 
Uma experiência arrebatadora
Faz tempo que não venho compartilhar minhas impressões sobre algum espetáculo, apesar de estar sempre presente na platéia conferindo o que rola por puro amor e prazer. Ontem, porém, passei por uma experiência arrebatadora ao assistir à estréia de “A Vertigem dos Animais Antes do Abate” no Theatro São Pedro. Tão arrebatadora que senti necessidade de compartilhar.
Não via um trabalho teatral tão bom há tempos. É notória e emocionante a entrega dos atores às personagens. Tanto que eu imagino que eles terminem o espetáculo esgotados tanto física quanto emocionalmente. E nós, a platéia, chegamos ao fim do espetáculo encantados, arrebatados.
Infelizmente, na saída do teatro, no elevador da garagem, alguns casais que desceram conosco comentavam negativamente a peça. Inclusive, perguntaram a mim e ao meu marido se havíamos gostado ao que prontamente respondi que sim, muito. E logo vi narizes torcidos para mim… Os comentários diziam que a peça era doentia e uma das senhoras disse que nem ia conseguir dormir direito. Uma pena que não tenham conseguido captar a mensagem…
Realmente o espetáculo pode ser chocante para algumas pessoas pois trata da selvageria humana, daquilo que nos é mais primitivo, dos instintos. No entanto, o que o público precisa entender é que o fato de tais situações serem encenadas não significa que está sendo feita uma defesa desses comportamentos. Apenas está sendo retratada, como já disse, a selvageria humana, nosso lado mais primitivo. Talvez, se não tivéssemos tantos filtros, se não fôssemos civilizados, se todas as regras,  se todos os valores morais, se o ego e o superego saíssem de cena, nós agíssemos assim. Ou seja, seria o reinado do id. Talvez essas poucas pessoas que desceram conosco no elevador do estacionamento não tenham conseguido fazer essa leitura. Sinto muito por elas. Eu dormi muitíssimo bem, ainda encantada e tocada pelo belíssimo trabalho a que tinha assistido. E é justamente essa a maior beleza do teatro: tocar o público, provocá-lo, emocioná-lo. Missão cumprida com louvor!
A peça mostra uma tragédia grega (literalmente, com todos os elementos típicos) porém contemporânea. As atuações dos atores são brilhantes! A entrega dos atores às personagens é total e linda de se testemunhar. Inclusive, lembro de ter pensado durante o espetáculo no quanto era impressionante ter sido reunido um elenco tão perfeito, de tamanha qualidade. Atores bastante conhecidos do público, como Marcelo Ádams e Ida Celina, e outros nem tanto (pelo menos, menos conhecidos para mim), mas todos excepcionais e talentosíssimos! Cada um ocupando o seu devido lugar e, assim, fazendo um belíssimo trabalho de equipe, tal qual o teatro deve ser.
A montagem está mesmo maravilhosa! O cenário é simples e dinâmico, cumprindo seu papel e deixando que as emoções exploradas pelo texto e pelas brilhantes atuações reinem absolutas. A direção é de Luciano Alabarse, que dispensa maiores comentários ou apresentações, e de Margarida Peixoto. Para completar, a música casa perfeitamente com a ação na bela voz de Muni e com o piano de Everton Rodrigues.
O texto original é do grego Dimitris Dimitriádis e nunca havia sido montado no Brasil. Só o título já conquista: “A Vertigem dos Animais Antes do Abate”, mas havia tantas passagens interessantes que eu juro que senti vontade de abrir a bolsa, puxar papel e caneta e anotar algumas frases. Um exemplo: “As perguntas são os alicerces do mundo. Por isso mesmo devem ficar sem respostas.”
Eu amei! Dou nota máxima, recomendo e assistiria outras vezes com toda a certeza. Felicidade é teatro de qualidade!
Meu único pitaco seria quanto ao desfecho do espetáculo… Minha cabeça ficou imaginando que seria bastante interessante que no momento em que o personagem Nilos Lákmos diz a seguinte fala, na beira do palco, encarando o público: “Eu sou Nilos Lákmos. E vocês quem são?”, poderiam se apagar todas as luzes e terminar o espetáculo. Acho que seria impactante, arrebatador mesmo (mas, claro, é apenas minha humilde, leiga e delirante opinião). Afinal, para mim, esse é o grande lance da peça: você domina os seus demônios ou permite que eles dominem você?
Daniela Annes Spera – Porto Alegre, 04 de julho de 2014
#avertigemdosanimaisantesdoabate
 

2 comentários:

  1. Que honra ter minhas impressões compartilhadas por ti, Marcelo! Parabéns a todos pelo belo trabalho!

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    1. Nós é que ficamos felizes com tuas palavras, obrigado!

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