O homem e a mancha

O homem e a mancha

domingo, 13 de julho de 2014

A VERTIGEM DOS ANIMAIS ANTES DO ABATE: O SACRIFÍCIO DO FALO


Texto escrito pelo historiador e arqueólogo Francisco Marshall, e publicado no caderno Proa do jornal Zero Hora, edição de 13/07/2014:

O SACRIFÍCIO DO FALO
A tragédia A Vertigem dos Animais Antes do Abate, do dramaturgo grego Dimítris Dimitriádis (1944), ora montada por Luciano Alabarse e Margarida Peixoto, realiza no palco do Theatro São Pedro um rito trágico completo, com sacrifício, aniquilamento e a catarse que só as grandes obras podem provocar. Catarse, do grego katharsis, purificação, é o resultado de um ritual profilático, em que, segundo Aristóteles, são purgados terror e piedade, e com isso se produz a experiência do assombro e, ao mesmo tempo, do alívio: todos aqueles horrores aconteceram lá, no palco, mimetizados, e podem ser agora vividos, apreciados e examinados, com a proximidade e a distância dadas pela arte.
O título refere a antessala do abate, na cozinha do sacrifício; nesta, as vítimas são preparadas ritualmente, para que possam recolher todas as máculas do ambiente e assim purgar a comunidade de miasmas que podem embotar as fontes da vida. Este processo era designado pelos romanos como augmentum, a preparação das vítimas, e é disto que trata esta tragédia, de demonstrar a anatomia do sacrifício, de seus pródromos à consumação. Desde o título e em todo o texto, a natureza humana é posta em xeque, pela metáfora animal com a qual se identifica também algo de nossa bestialidade, o peso de uma parte orgânica e irracional do ser humano, que se descobriu ser frequentemente protagônica. Eis aí a questão trágica central: o que é o ser humano, o mais terrível dos seres terríveis? Eis também a questão posta ao espectador: eu sou isto? Quando, como e em que medida?
O drama situa-se no cerne da herança trágica grega. Há nele Ésquilo e a dimensão teológica do destino, há Sófocles como guia dramático e há a passionalidade cínica de Eurípides. Mega-edipiano, o drama começa com a emissão, na quarta cena, de uma profecia pavorosa, em tudo similar à que Tirésias lança no primeiro episódio de Édipo Rei. Esta ousadia do autor, antecipar o desfecho, na obra de Sófocles é sucedida por um desvelamento judiciário e detetivesco da verdade trágica, a mais perfeita peripécia, ao passo que Dimitriádis segue o caminho inverso: explicitar a morfologia cotidiana do trágico, revelá-lo cruamente, tornando evidente o que na tragédia grega clássica era obsceno. Sob o manto da profecia do personagem Fílon e dentro de um palacete burguês, a mais perversa trama de incesto e violência tem lugar: pai, mãe, filhos e filha entregam-se a todos os desejos iníquos, ao ponto de a mãe Milítsa (duplo de Jocasta) ter um filho e neto do próprio filho caçula, Evguenius. Ao contrário do Édipo sofocleano, porém, o protagonista Nilos cresce em riqueza e poder durante a trama, e realiza o destino de que foi advertido, sem ironias ou erro em estado de ignorância (hamartía), imbuído do furor faltoso que o arrasará e à sua família. É a voracidade e a irracionalidade do desejo que são examinados; o sujeito desta pulsão fatal é exposto no texto e no palco, e por fim indiciado como fonte dos males e aniquilado em cena: o falo.
A tragédia grega era criptofálica; havia falo monumental no centro da plateia, sob a forma de uma escultura própria dos ritos de fecundidade do culto de Dioniso, mas jamais se refere ou se apresenta o falo em cena. Todavia, a Atenas clássica era, como definiu Eva Keuls em The Reign of the Phallus (1985), uma falocracia, e nisto Dimitriádis assinala sua contemporaneidade pós-freudiana, e devolve a questão aos trágicos gregos. A inversão trágica trata de apresentar o instrumento de prazer e perpetuação da espécie como causa de sofrimento e aniquilamento. O espectador poderá especular: será o falo este criminoso tal? Será que o signo da virilidade é também símbolo da catástrofe, a origem da perdição dos indivíduos e das famílias? A denúncia atinge o patriarcado ocidental e suas formas de vaidade e poder; logo, é tragédia também histórica, social e política.
Há mais tragédia grega na estética do texto, não apenas na voz do coro, mas também na referência a Antígona e o cadáver do irmão e na marca de Electra, o exame das relações de fraternidade e das vinculações pai-filha. Há também muito Ésquilo, na reflexão sobre o destino que se estende à angústia bíblica e as relações sórdidas entre criador e criatura. Abre-se a questão entre destino, condição humana e inteligência: esta condição trágica é um destino inexorável ou preserva-se autonomia para contornarmos tal sina e vivermos felizes? Édipo é tragédia do destino e, simultaneamente, do indivíduo que se afirma como autor responsável por seus atos. Dimitriádis altera a equação, e põe toda a força do destino no sujeito, apagando da personalidade autoral o freio da consciência, e provocando o empate entre profecia e história. Sempre dentro da fórmula clássica, o dramaturgo elimina todas as possibilidades e conduz a ação para o aniquilamento final, em que se dá a anagnórisis (a passagem da ignorância ao conhecimento), em que tudo deve se tornar claro para os agentes conduzidos por destino ou cegueira, no palco e na vida.
 

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