O homem e a mancha

O homem e a mancha

domingo, 22 de janeiro de 2012

GOELA ABAIXO e os 10 anos da CIA. DE TEATRO AO QUADRADO


Neste 2012, a CIA. DE TEATRO AO QUADRADO comemora 10 anos de vida. Para iniciar a comemoração, que trará uma programação variada até o final do ano, voltaremos a cartaz com nosso espetáculo há mais tempo na estrada, GOELA ABAIXO OU POR QUE TU NÃO BEBES?.
Um pouquinho da história dessa peça:
Em 2003 eu e a Margarida Leoni Peixoto já havíamos montado a companhia, que teve como primeiro espetáculo A SECRETA OBSCENIDADE DE CADA DIA, do dramaturgo chileno Marco Antonio de la Parra, estreado no ano anterior. Eu já havia concluído a graduação em Interpretação Teatral no DAD/UFRGS, e solicitara permanência na universidade, para fazer o curso de Direção Teatral. Pois bem, no primeiro semestre de 2003 eu cursava a disciplina Direção III, ministrada pelos professores Irion Nolasco e Inês Marocco, ao lado de colegas como a Margarida, a Camila Bauer (hoje professora do DAD), a Ju Brondani, o Felipe Vieira de Galisteo e o Mauro Menine. A proposta daquele semestre era montar uma peça a partir dos preceitos de Bertolt Brecht, o genial dramaturgo e encenador alemão. A turma toda passou então a procurar uma peça de Brecht que pudesse ser encenada naquele semestre, para aplicar na prática os por vezes obscuros efeitos de distanciamento brechtianos, ou efeitos-V (Verfremdungseffekt). Cada aluno escolheu uma e eu propus não montar uma peça de Brecht, mas uma peça de outro autor na qual pudessem ser experimentados os tais efeitos de estranhamento. Minha inesperada sugestão foi acolhida pelos professores e passei a buscar a tal peça que eu dirigiria.
Há alguns anos, eu travara conhecimento com três peças em um ato do dramaturgo checo Vaclav Havel (quase desconhecido no Brasil, e inédito no Rio Grande do Sul, até porque não havia traduções de suas peças publicadas em nosso país). O Paulo Berton, que fora meu diretor em algumas peças dentro do DAD (e em um trabalho profissional também, o Mockinpott, em 1999), havia descoberto essas peças do Havel em uma revista alemã que havia no Instituto Goethe de Porto Alegre. Como é fluente na língua, o Paulo traduziu as peças e me deu uma cópia. Os títulos traduzidos das três peças (conhecidas como Trilogia Vanek, porque têm como personagem em comum o Ferdinand Vanek, alter-ego de Havel) ficaram sendo Audiência, Vernissage e Protesto. Na busca de um texto que eu gostasse e que tivesse poucas personagens para facilitar o processo de ensaios, reli a Trilogia Vanek e me decidi pela primeira delas, Audiência, ambientada em uma cervejaria checa durante o regime comunista dos anos 1970.
Bem, eu tinha então uma peça com duas personagens masculinas, que em minha opinião era perfeita para aplicar técnicas de distanciamento épico, e não hesitei: convidei a Margarida para interpretar o Mestre-cervejeiro, o decadente algoz de Vanek na peça. Faltava agora um ator para interpretar o próprio Vanek (não poderia ser eu, já que, como aluno, não seria conveniente atuar e dirigir na mesma peça). Convidei então o professor Clóvis Massa, nosso amigo, para atuar. Foi um frisson dentro do DAD, porque até aquele momento não havia acontecido de um professor participar de um trabalho de um aluno, pelo menos dentro da universidade. O Clóvis aceitou e estreamos Audiência em 31 de julho de 2003, no Teatro de Arena de Porto Alegre, em uma apresentação única. O resultado foi tão bom, que várias pessoas comentavam que deveríamos dar continuidade ao espetáculo. Isso não aconteceu naquele momento, mas ao longo dos meses passamos a amadurecer essa ideia.
Em meados de 2004, após a bem sucedida montagem de ESCOLA DE MULHERES, de Molière, que lotava todas as sessões no Teatro de Arena, eu e a Margarida começamos a pensar seriamente na possibilidade de remontar o Audiência. Falamos com o Clóvis e ele ficou super entusiasmado com a possibilidade, mas havia um obstáculo intransponível: Clóvis estava fazendo seu Doutorado, e tinha uma viagem marcada para Paris, onde permaneceria de dezembro de 2004 até o final de março de 2005. E nós tínhamos uma temporada no Arena, com estreia em 2 de abril de 2005. O que fazer? A solução óbvia foi que eu assumiria a personagem de Vanek e faríamos a temporada agendada. Tudo combinado, mas eu queria um título que de alguma forma explicitasse um pouco mais o conflito da peça, já que eu achava Audiência um título pouco atraente comercialmente. Assim, batizei a peça com a denominação atual: Goela abaixo ou Por que tu não bebes?. Um título um pouquinho bizarro, mas de impacto e fácil memorização.
O restante da história é que a peça estreou em 2 de abril de 2005, a Margarida foi indicada ao Prêmio Açorianos de Melhor Atriz, fizemos viagens pelo interior do RS, fomos convidados pelo Renato Ferracini, do Lume, para apresentar a peça em Campinas, participamos do Porto Alegre em Cena e seguimos em cartaz desde então. Perdi a conta do número de apresentações que já fizemos, são muitas. E voltaremos a cartaz no Porto Verão Alegre, como acontece desde que a peça estreou, de 7 a 12 de fevereiro no Teatro de Arena. A partir deste ano, contamos com a parceria da Cerveja Província, que distribuirá a cerveja para os espectadores que forem nos assistir. Esse talvez seja o toque de Midas da peça: o ineditismo dessa distribuição de bebida gratuita, para que o público beba durante o espetáculo. Acredito que, de alguma forma, esse congraçamento envolve atores e espectadores em um momento único de cumplicidade. O sucesso de GOELA ABAIXO está avalizado pelos deuses do teatro (especialmente Dioniso, também o deus do vinho, entendeu a esperteza?).

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