O homem e a mancha

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segunda-feira, 11 de julho de 2011

IFIGÊNIA EM ÁULIS + AGAMENON: um comentário


Comentário escrito por Gustavo Saul, em http://www.ocafe.com.br/
Há uns quatro meses atrás escrevi uma coluna sobre a origem do teatro, aonde de fato tudo começou. Procurei contextualizar e explicar ao leitor as figuras de Dionísio, deus do vinho, do ditirambo, a procissão realizada em torno desta entidade e mencionei brevemente os três grandes dramaturgos que foram responsáveis por conceber e criar aquilo que é chamado tragédia grega.
Ésquilo é o mais antigo dos autores gregos e criador da tragédia em sua forma definitiva. De acordo com Aristóteles, que em sua Poética apresenta três versões para o nascimento da tragédia, ele tinha como característica aumentar o número de personagens usados nas peças para permitir e gerar assim, mais conflitos internos entre eles, possibilitando uma interação além do personagem-coro. Nascido em Elêusis, nas proximidades de Atenas, combateu nas batalhas de Maratona e Salamina contra os invasores persas de sua patria e, além da Orestéia, trilogia constituída por Agamenon, As Coéforas e As Eumênides, escreveu outras 87 peças.
Eurípedes foi o último dos três dramaturgos trágicos. Alguns especialistas estimam que ele escreveu cerca de 95 textos e foi o grego que mais teve peças intactas até hoje: 18 no total! Entre elas estão Medéia, Andrômaca e Ifigênia em Áulis.
Percebendo de forma sagaz que Agamenon de Ésquilo praticamente sucede Ifigênia em Áulis de Eurípedes, o diretor Luciano Alabarse encarou a missão de montar sequencialmente esses dois grandes textos possibilitando que o espectador tivesse uma visão global dos destinos trágicos que foram traçados na vida dos personagens e das profecias concretizadas. O segundo, gira em torno do conflito de Agamenon, que deve sacrificar em altar sua filha à deusa Ártemis, para que só assim soprem bons ventos as tropas gregas. O primeiro, narra o retorno do general vencedor e as consequências de suas ações bélicas tanto em Tróia quanto em Argos. Nesse ínterim, agregam-se alguns fragmentos de As Troianas, outro clássico texto de Eurípedes e que retrata o final da Guerra de Tróia sob o espectro das prisioneiras troianas escravizadas.
E da concepção à realização, o que percebemos é a essência do teatro grego intactamente preservado. Da elaboração dos coros, minuciosamente bem construidos e executados, da trilha sonora, que apesar de na grande maioria das vezes ser contemporânea sublinha e enaltece o conteúdo dramatúrgico, pode-se afirmar que mais uma vez Luciano Alabarse foi bem-sucedido em seu projeto.
Quanto às atuações, praticamente todos estão muito bem em cena, mas acho justo destacar o elenco jovem do espetáculo. Fabrízio Gorziza apresenta um Aquiles intenso e verdadeiro, revelando claramente os conflitos internos à que é submetido, a coragem e a bravura de seguir em frente numa empreitada suicida. Eduardo Steinmetz aparece pouco, mas o suficiente para fisgar a atenção do espectador, seja como o Mensageiro  de Ifigênia, ou o Arauto de Agamenon. Sua voz é limpa, suas pausas são perfeitamente encaixadas, sua atitude é orgânica. O mesmo ocorre com o Corifeu de Fernando Zugno, principalmente na máscara e no olhar.
Mas o grande destaque fica à cargo exatamente da personagem-título! A atuação de Fernanda Petit é digna de fascínio, com uma capacidade incrível de compreensão, assimilação e execução em sua Ifigênia, feito admirável para uma atriz tão jovem. Mesmo contracenando com o grande Marcelo Adams (excelente, como sempre) e uma Vika Schabbach em um de seus melhores desempenhos, Petit se sobressai com uma virtuose absolutamente latente, uma emoção genuína, uma verdade hipnotizante. Sua atuação deveria servir de exemplo para os jovens atores que estão adentrando no ofício teatral. Incrível, absolutamente incrível!

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