O homem e a mancha

O homem e a mancha

quinta-feira, 1 de junho de 2017

AUSCHWITZ-BIRKENAU

Aquilo que desde muito jovem eu me acostumei a ver em imagens - às vezes ficcionalizadas, nos incontáveis filmes que já foram feitos sobre o Holocausto, como O filho de Saul; às vezes em documentários perturbadores, como Noite e neblina, de Alain Resnais; às vezes em filmes-depoimento, como o extraordinário Shoah, de Claude Lanzmann, que não utiliza imagens do sofrimento das vítimas, mas concentra-se nas memórias de sobreviventes, de oficiais nazistas e de pessoas que viram tudo acontecer sem estranhar ou tomar alguma posição a respeito do verdadeiro genocídio que estava sendo praticado antes e durante a Segunda Guerra Mundial: tudo isso, que nos inunda ao longo de uma vida, toma outra proporção quando visto ao vivo, quando se tem a oportunidade de visitar uma pequena parcela do que foram as consequências do nazismo na história da espécie humana. Os inúmeros livros que li, os incontáveis relatos de sobreviventes, as centenas de entrevistas com homens e mulheres que escaparam da morte, perdendo muitas vezes todas as pessoas que faziam parte de suas existências em um fração de tempo que só posso qualificar de absurda, dada a velocidade com que uma vida humana era dizimada, pelos motivos mais fúteis possíveis: todo esse volume de informações se curva frente à crueza e concretude do real. Aconteceu mesmo, e aqui, tão perto da linda cidade de Cracóvia.
Hoje, estando por algumas poucas horas dentro dos limites daqueles campos, Auschwitz e Birkenau, tentei me colocar o máximo possível em uma posição de abertura à experiência, e fiquei surpreso com a oscilação perturbadora que me guiou por aqueles espaços. Oscilação entre a percepção do horror inimaginável de pessoas sendo assassinadas aos milhares, e minha confortável posição de turista do século XXI conhecendo, ao lado de centenas de outros visitantes vindos dos quatro cantos do mundo, este "cenário". É que esses grandes eventos da história parecem ficcionalizar-se dada a imensa exposição que têm ao longo dos anos; é preciso um esforço, que tenho certeza de que muitos dos visitantes não tiveram, para imaginar algo que parece tão distante, mesmo que vejamos as toneladas de cabelos expostos em vitrines, retirados das cabeças daqueles que estavam a poucos minutos de suas mortes; os milhares de pares de sapatos de homens, mulheres e crianças, predominantemente pretos ou marrons, destacando-se eventualmente alguns pés brancos ou vermelhos, e despertando imediatamente minha pergunta sem resposta: de quem era esse sapato?
Não se pode dizer que é indescritível, porque tudo pode ser descrito, com maior ou menor precisão ou conveniência ou riqueza de detalhes. Nem que é inimaginável, já que nossas mentes são poderosas para buscar maneiras de simbolizar o que não vivemos ou sentimos. Invertendo a perspectiva, eu digo que tudo é indescritível e inimaginável pelo Outro que não viveu o que vivi. Mesmo a mais banal das experiências, como sentir uma brisa no rosto, é impossível de ser descrita por quem não a sentiu, já que todas as experiências são únicas e absolutas. Mesmo para os milhões de supliciados durante o período histórico conhecido como nazismo tiveram, cada um deles, experiências únicas - amontoados todos, nus, homens, mulheres e crianças dentro de uma sala fria da qual receberiam sobre seus corpos, através de buracos do teto, o gás Zyklon B que os sufocaria em poucos minutos. E é inimaginável e indescritível por esse motivo: porque cada ser humano tem sua experiência individual, cada ser humano é Único, e cada morte é única. Não foi um milhão e meio de pessoas assassinadas em Auschwitz e Birkenau- foi uma pessoa assassinada um milhão e meio de vezes.
Andando pelos caminhos de Birkenau, ouvi um casal de franceses e me captou a atenção o uso da palavra "surreal", que ela repetiu algumas vezes: "é surreal, surreal". Surreal, por definição, é aquilo que está além do real. Surreal é aquilo que pertence ao domínio do sonho, do absurdo, da imaginação. Pode algo que foi tão assustadoramente real para milhões de pessoas tornar-se surreal? Esse é o risco, ultrapassar a esfera do real e tornar-se algo confortavelmente surreal; esse é o motivo pelo qual fatos como esses não podem ser esquecidos, devem ser tornados reais por imagens, palavras, recordações e por tudo que possa atualizar o Holocausto. 
Observando as ruínas da câmara de gás e de um dos crematórios em Birkenau, que hoje são apenas tijolos empilhados e vigas de ferro retorcidas, lembrei das ruínas gregas e pensei que, 2500 anos atrás, pessoas ergueram esses templos em Atenas, que atualmente desapareceram quase totalmente, restando muitas vezes apenas as fundações. O que acontecerá daqui a 2500 anos, quando o século XX for apenas um número longínquo? As histórias daqueles seres humanos que foram mortos apenas por serem o que eram - judeus, ciganos, homossexuais, comunistas, testemunhas de Jeová, doentes mentais, doentes em geral - terá sido esquecida por todos? 
A história pode ser diferente. Se depender de mim, que viverei tão pouco, mas que carregarei comigo, até o fim, o compromisso de lembrar e de fazer lembrar.






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