O homem e a mancha

O homem e a mancha

sexta-feira, 28 de abril de 2017

DUAS VEZES IONESCO, EM PARIS

O Théâtre de la Huchette tem esse nome porque fica no número 23 da Rue de la Huchette, no 5ème arrondissement, em Paris. Inaugurado em 1948, o teatrinho de 92 lugares seria mais um singelo e acanhado local de espetáculos não fosse a estreia, em 16 de fevereiro de 1957, de um programa duplo composto pelas peças A lição e A cantora careca, ambas escritas pelo dramaturgo romeno Eugène Ionesco, que desenvolveu a maior parte de sua carreira teatral na França. Esse programa duplo trazia ao cartaz duas das primeiras peças de Ionesco, estreadas alguns anos antes e que, colocadas juntas na mesma noitada, não ultrapassavam duas horas de encenação. Pois bem, o inusitado aconteceu, e a possibilidade de assistir as duas obras seduziu os parisienses - e ao longo dos anos, a todos os interessados que iam a Paris -, resultando que há 60 anos, ininterruptamente, estão em cartaz.

A lição, escrita em 1951 (que a Cia Teatro ao Quadrado encenou em Porto Alegre em 2010 no Teatro de Arena, com direção de Margarida Peixoto, e comigo e Luísa Herter no elenco), tem uma encenação totalmente calcada no ótimo trabalho dos atores com o texto. Isso significa dizer que não há maiores invenções cênicas que fujam das previstas e sugeridas pelo texto de Ionesco, resultando numa escassa movimentação dos atores pelo pequeno palco italiano, e um reduzido cardápio de ações. Ainda assim, os 50 e poucos minutos de duração que mostram o tragicômico embate entre o professor e sua aluna (mais cômico que trágico, é verdade), além das pequenas intervenções da governanta, fluem admiravelmente, extraindo o riso não apenas do divertidíssimo texto ionesquiano, mas das composições dos atores que, verdade seja dita, dominam completamente seus trabalhos.
A cantora careca - que tem o mérito de ser considerada a primeira peça do "estilo" batizado pelo crítico inglês Martin Esslin como Teatro do Absurdo -, escrita por Ionesco em 1950, é igualmente simples em sua encenação, ainda que um tanto mais movimentada. Talvez isso se deva ao maior número de personagens, e ao desenrolar dramatúrgico que propõe uma quantidade de situações mais variadas que a quase monotemática de A lição (um professor ensinando sua aluna). Novamente um grupo de atores irresistivelmente afiado e afinado nas propostas do texto e da encenação, que, neste último caso, abre mão de explicitar em marcas o non sense prevalente durante toda a obra, tornando-se ainda mais divertida com o constante estado blasé das personagens, que são inglesas.
Uma curiosidade é o fato de que ambas as peças são encenadas no mesmo palco (que me lembrou o espaço do Teatro Nilton Filho, de Porto Alegre, pelas reduzidas dimensões) com idêntico cenário composto de painéis decorados imitando paredes (pode ser visto na foto acima). A diferença de uma encenação para a outra fica na utilização de um ou outro adereço (um sofazinho, uma mesinha) e na disposição das tapadeiras do cenário, que podem ser articuladas para criar um corredor central ou entradas laterais, conforme a peça. Também a ser referida é a limitada utilização da iluminação (que mantém-se a mesma desde os anos 1950), o que é quase um retorno ao passado, pois é possível perceber a despreocupação com os movimentos de luz: nas duas peças, a luz se mantém em "geral branca" durante todo o tempo; o que Adolphe Appia chamaria de luz difusa, sem recortes ou jogo entre luz e sombras.
Para mim, uma experiência admirável esta de testemunhar um fenômeno de durabilidade cênica como o do Théâtre da la Huchette. Investimento total na dramaturgia e no trabalho atorial, o que afinal de contas parece fazer sentido e ter espaço no incansavelmente mirabolante teatro contemporâneo. Faz pensar que há espaço para todo bom teatro - e com "espaço" infelizmente não quero dizer "bom público", já que frequentemente uma coisa está dissociada da outra. Não é, felizmente, o caso destas A lição e de A cantora careca.

Marcelo Ádams na montagem da Cia Teatro ao Quadrado de A lição
com direção de Margarida Peixoto, em 2010



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