O homem e a mancha

O homem e a mancha

domingo, 16 de abril de 2017

UNE CHAMBRE EN INDE: REENCONTRO COM O THÉÂTRE DU SOLEIL


Assistir a um espetáculo do Théâtre du Soleil é sempre - tanto para os espectadores profissionais como eu, que fazem do teatro seu métier, quanto para os que vão ao teatro em busca de uma boa história, uma realização bem acabada esteticamente, e/ou algumas horas de bom entretenimento - um evento marcante, que deixa sulcos profundos. Nas ocasiões anteriores em que tive a oportunidade de assistir ao vivo o trabalho da trupe liderada por Ariane Mnouchkine, ambas proporcionadas pelo Porto Alegre em Cena- Festival Internacional de Artes Cênicas de Porto Alegre, vivenciei por algumas horas uma espécie muito especial de transporte físico/mental, dado que foram reproduzidos  em Porto Alegre e em Canoas os ambientes internos do espaço que o Théâtre du Soleil ocupa na Cartoucherie, nos arredores de Paris. Na primeira experiência, em 2007, até o momento a mais intensa com o Soleil, assisti a Les éphémères, em uma inesquecível tarde-noite que durou quase 7 horas. Em 2011, Ariane Mnouchkine retornou para instalar seu teatro efêmero em um parque de Canoas, desta vez com Os náufragos da louca esperança (Auroras), em que o cinema mudo era reproduzido sobre o palco de maneira brilhante. Desta vez, entretanto, meu contato se deu no local original de criação dos espetáculos do Théâtre du Soleil já há algumas décadas:
Imagem de 1970, quando uma antiga fábrica de munições, a Cartoucherie, era reformada para dar lugar ao espaço 
do Théâtre du Soleil

Em um lugar distante do fervo de Paris, ao final da linha 1 do metrô, e próximo ao Castelo de Vincennes, fica a Cartoucherie, um terreno bastante grande com diversos galpões, que são ocupados por diferentes agrupamentos artísticos. Em um deles, o Théâtre du Soleil:

Os ingressos para Une chambre en Inde, estreado em 2016, já haviam sido comprados há meses pela internet, já que não é viável comprar no dia, pois a procura é grande. E a antecedência com que me programei não foi em vão, já que valeu muito a pena. Comentei com a Jezebel de Carli, minha amiga e colega da Uergs, que este foi, em minha opinião, o mais arriscado dos espetáculos do Théâtre du Soleil dos que tive a chance de assistir ao vivo. Arriscado, não ousado, e há uma grande diferença entre uma coisa e outra. Chamo de arriscada a essa proposta da encenação no sentido de que oferece muitos momentos em que, bastante provavelmente, a atenção do espectador médio pode ser desviada do palco, já que a ação que lá se desenvolve apresenta algumas exigências. A principal delas é o fato de que as diversas camadas narrativas são entremeadas com cenas do Therukoothu, um gênero de teatro das classes populares indianas, em que os atores encenam uma das histórias do Mahabharata, em hindu, com legendas projetadas em francês, para que o público acompanhe a trama melodramática.
O centro narrativo está localizado justamente em um quarto na Índia, ao qual o título do espetáculo se refere, onde uma artista de teatro chamada Cornelia (misto de encenadora e dramaturga) encontra-se em uma crise criativa, sem saber exatamente como resolver uma série de problemas de produção e de criação artística. A partir desse dilema, é através da concretização visual sobre o palco de uma série de sonhos - e pesadelos - de Cornelia que somos transportados à mente turbulenta e ansiosa por respostas (= boas ideias teatrais) dessa mulher. As referências teatrais são inúmeras, e provavelmente deixei escapar algumas delas, que se sucedem em cenas bastante cômicas, às vezes, e tensas, em outras. Há referências a peças de Shakespeare, como quando, por exemplo, a proximidade entre o nome da personagem, Cornelia, e da filha mais jovem de Lear, Cordélia, dão ensejo a uma citação à célebre cena do primeiro ato do Rei Lear, em que, após receber declarações de amor tão magníficas quanto vazias de suas filhas mais velhas, o rei prestes a abandonar o poder ouve de sua caçula, Cordélia, que ama o pai nem mais nem menos do que obriga sua condição como filha, enfurecendo o monarca. Também a fantástica cena das aparições dos assassinados por Ricardo em Ricardo III, na noite anterior à batalha em que oferece seu reino por um cavalo, em que os espectros repetem, sucessivamente, "Desespera e morre!", faz a ligação entre o desespero da criação de Cornelia com o desespero do tirano. O próprio Shakespeare aparece, com um jovem pajem, a Cornelia, em um de seus sonhos, e ambos têm uma conversa sobre criação no teatro.
Em outro momento belíssimo, o russo Anton Tchékhov, acompanhado de Olga, Irina e Macha, as personagens de As três irmãs, conversa sobre dramaturgia com Cornelia. Ao grande dramaturgo, Cornelia confessa que não encenará jamais uma das pecas do autor de A gaivota e Tio Vânia, apesar de amá-lo profundamente, o que me fez finalmente ter certeza de que Cornelia é um alter-ego de Ariane Mnouchkine, e Une chambre en Inde é uma espécie de revisão das obsessões, paixões e angústias da encenadora francesa. Lembrei, então, de Les éphémères, e disse a mim mesmo: Mme. Mnouchkine não encenou Tchékhov, mas fez a ele a maior das homenagens, colocando nesse espetáculo tudo aquilo que identifico com o que chamamos de tchecoviano: a passagem do tempo, a banalidade e a profundidade dos momentos vividos, a melancolia, a singeleza possível da humanidade...
Me estendo falando da metalinguagem do espetáculo, mas não é possível esquecer da importância de todas as outras temáticas que surgem na narrativa. Entre elas, elejo apenas duas para comentar, pela relevância no mundo contemporâneo e pela forma escolhida para tratar delas, o humor crítico. Algumas das cenas mais engraçadas de Une chambre en Inde trazem extremistas islâmicos planejando um ataque com homens-bomba. A abordagem é decididamente farsesca, representando os radicais como figuras atrapalhadas e um pouco imbecis. Em outro momento, dois árabes muito ricos são confrontados com os costumes ocidentais, que colocam as mulheres em pé de igualdade de direitos (pelo menos na teoria...). Os árabes ficam estupefatos ao saber que o presidente da companhia com a qual querem fazer negócio é uma mulher, e que o primeiro-ministro do país é homossexual.
Um espetáculo tão rico em coisas para dizer fica reduzido, aqui, a algumas observações esparsas. Não poderia ser diferente: há que assistir o espetáculo para absorver as ideias e formas que se apresentam aos nossos olhos. Fico pensando, também, na diversidade incrível do teatro de hoje em dia. A qualidade pode existir independentemente da forma escolhida. O Théâtre du Soleil não é um teatro experimental, no sentido que pode ser dado à palavra quando comparado a encenações de Rodrigo García ou Angelica Liddell, por exemplo. É um teatro que aposta na "história contada", sem que para isso abra mão de surpresas narrativas e de soluções dramatúrgicas inusitadas, ou que seja apenas linear. E essa forma de fazer teatro é impressionante, é revigorante, é apaixonante. Impossível ficar imune à força das imagens e dos sons.

Marcelo Ádams e Margarida Peixoto junto de Ariane Mnouchkine, em 2011, quando da apresentação do Théâtre du Soleil em Canoas (RS)

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