O homem e a mancha

O homem e a mancha

segunda-feira, 2 de abril de 2012

INIMIGOS DE CLASSE = PARCEIROS DE CLASSE

Parceiros de classe
Suzana Feldens Schwertner
Psicóloga e Doutora em Educação Professora do Centro Universitário Univates

Assisti emocionada, no último domingo, à peça Inimigos de Classe, dirigida por Luciano Alabarse. A produção trata do drama de seis alunos de uma turma de 2º ano do Ensino Médio de uma escola qualquer, que aguardam o próximo professor que se atreverá a entrar em sua classe. Muito foi comentado sobre a violência que permeia este espetáculo - no linguajar pesado, no cenário destruído, nos relatos sofridos e nos atos dos personagens. Uma violência que muitos atribuem ao ensino público no país, mas a peça fala da violência que perpassa por toda nossa sociedade. Saí do estupendo e sempre magistral Theatro São Pedro atordoada e ao mesmo tempo animada: que inimigos de classe, que nada! Aqueles ali são parceiros de classe! Estão unidos em torno de uma proposta, aquela mesma que a escola busca desenvolver: aprender/ensinar.
Eles são parceiros na dor, no sofrimento e, portanto, provocam estas mesmas reações naqueles que entram na sala de aula sem o interesse de acrescentar algo àquilo que vivem. São companheiros de lamúrias no que tange às suas vidas familiares, sociais, seus desamparos, seus desesperos e desesperanças.
Mas o que eles nos ensinam ali é uma aula de esperança; uma não, muitas, pois são seis os alunos que nos contam, cada a um a seu jeito, aquilo que lhes toca e que procuram tocar nos outros. Mostram ali suas potencialidades e aprendizagens que algumas escolas jamais ousarão escutar. E ao desfiar suas potências, desenrolam com sensibilidade e afeto (muito afeto) suas singularidades, sua história de vida, suas relações familiares, seus sonhos, suas buscas por um gerânio na janela e um amor sob o luar.
Gritam ao consumo, ao absurdo preço da carne, aos enlatados americanos que nos enviam via satélite, aos vizinhos que zombeteiam de suas origens. Berram à calmaria, a malemolência de instituições seja a educacional, a política, a social que não dão mais conta de sua função principal: olhar por eles, para eles, com eles; especialmente, junto a eles.
Mas eles seguem parceiros, e parceiros de classe. Não abandonam a sala de aula de jeito nenhum: ali permanecem, unidos, gritando e quebrando os móveis e as caras em busca de serem escutados; mostrando, com estes gestos, sua necessidade de serem contados: como pessoas, como história, como vidas que valem - sempre! - o investimento.

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